sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Doação de Constantino

 

Marc Bloch observa a ocorrência de falsificações piedosas tais como a pseudo doação de Constantino (Constitutum Donatio Constantini) ao papa Silvestre I em 315, uma falsificação que data do século VIII e em que foi confirmada a fraude somente em 1440 por Lorenzo Valla[1] em seu Tratado sobre a Doação de Constantino. O tratado de gramática e estilística de Lorenzo Valla, Aelegantiae linguae latinae tornar-se referência entre os eruditos por seu rigor metodológico[2]. O autor da Doação de Constantino cometeu erros crassos como usar o termo “diadema” com o significado de coroa de ouro quando na época o termo significava um pano grosseiro, e que o termo “tiara” não era usado na época, entre várias outras contradições que mostravam de forma incontestável que não poderia ter sido escrito antes do século VIII e jamais se tratar de um texto do século IV. Esta análise crítica textual desenvolveu-se no Renascimento no qual os textos antigos são lidos, antes de tudo, como documentos históricos, retirando o caráter sagrado imposto pela Igreja.[3] Dizia-se que Constantino fora motivado pelo agradecimento a Silvestre I por tê-lo curado da lepra e o convertido ao cristianismo.[4] Quando em 756 Pepino o Breve fez um acordo franco papal que doava terrenos à igreja confirmado por Carlos Magno[5] ele estaria meramente restituindo à Igreja o que Constantino havia dado[6], dando origem ao Estado Pontifício[7]. Em troca Pepino recebeu o título de patricius romanus e o compromisso dos francos de que nunca escolheriam um rei que não fosse de suas descendência[8]. Nicolau de Cusa na mesma época já apontava o fato de que o bispo Eusébio de Cesareia biógrafo de Constantino não menciona tal doação do imperador. De fato Constantino doara ao bispo de Roma o palácio de Latrão e o ducado de Roma, mas não há qualquer prova de doação de toda a Itália e as províncias ocidentais.[9] Para Silvester Prierias (1456-1523) a doação de Constantivo não foi propriamente uma doação mas uma restituição “non est donatio sed restitutio”.[10] Os compiladores do Liber Pontificalis indicam listas de propriedades dos bispos romanos de 314 a 440 d.c com doações à Igreja entre as quais incluem doações de Constantino, do senador galicano, de uma mulher da alta sociedade Vestin e vários bispos de Roma[11]. A doação de Pepino aconteceu depois do papa Estevão II de Roma ter seu apelo de apoio de Constantinopla negado por Constantino V, o que o fez a buscar aliança com os lombardos. A ideia essencial do documento era a de excluir os bizantinos de qualquer poder sobre a península itálica[12].



[1] CORNELL, Tim; MATHEWS, John. Renascimento v.II, Grandes Impérios e Civilizações, Lisboa:Ed. Del Prado, 1997, p. 117

[2] CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: a idade média, os tempos difíceis, volume 8, São Paulo: Bertrand Brasil, 1994, p. 177

[3] DUNN, James. Jesus recordado, São Paulo: Paulus, 2022, p. 46

[4] BOORSTIN, Daniel. Os descobridores, Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 1989, p.520; BOORSTIN, Daniel. Os investigadores. Rio de Janeiro: Civillização Brasileira, 2003, p.108

[5] JUNIOR, Hilário Franco. A idade média nascimento do Ocidente. São Paulo:Brasiliense, 1986, p. 90

[6] JUNIOR, Hilário Franco. A idade média nascimento do Ocidente. São Paulo:Brasiliense, 1986, p. 96

[7] JÚNIOR, Hilário Franco. A idade média nascimento do Ocidente, São Paulo:Brasiliense, 2004, p.57

[8] DURANT, Will. História da Civilização, A idade da fé, tomo II, São Paulo:Cia Editora Nacional, 1957, p.249

[9] FLORI, Jean. Jerusalém e as cruzadas. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean Claude. Dicionário analítico do Ocidente medieval. v.II, São Paulo:Unesp, 2017, p. 24

[10] HOFFNER, Joseph. Colonialismo e evangelho, São Paulo: Presença 1973, p.42

[11] CORNELL, Tim; MATTHEWS, John. Roma: legado de um império, v. II, Lisboa:Edições del Prado, 1996, p. 200

[12] BALARD, Michel. Bizâncio visto do Ocidente. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean Claude. Dicionário analítico do Ocidente medieval. v.I, São Paulo:Unesp, 2017, p. 150



segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Pontifex Maximus

 

Os sacerdotes construtores da ponte Sublícia (Sublicius pons) sobre o rio Tibre gozam de respeito mágico religioso, ao qual se atribui o nome de pontífices do latim: pontifex, construtor de pontes") membro do principal colégio (colégio) de sacerdotes[1]. Spencer mostra que no passado a arquitetura constituía uma manifestação do culto votado aos antepassados seja na construção de templos ou túmulos cujo projeto era reservado a sacerdotes que assim se tornaram os primeiros arquitetos[2]. Cerimônias fúnebres domésticas muito antigas eram realizadas nas pontes construídas em madeira, entre elas o sacrifício dos argeus (bonecos de palha atirados no Tibre, representando antigos sacrifícios humanos) durante o festival, realizado em maio conhecido como Lemúria (lêmures  - espíritos errantes dos ancestrais mortos) celebrada pelo pater famílias e descrita por Ovídio em Fastos[3]. Em Roma o Colégio de Pontífices (Collegium Pontificum) tinha como líder o pontífice máximo (pontifex maximus)[4] – construtor de pontes[5] e ao qual era atribuído o poder efetivo sobre os assuntos religiosos.[6] Próximo ao Fórum Romano ficava a Régia que servia como santuário sagrado e residência oficial do pontifex maximus ou sumo sacerdote de Roma.[7] No Fórum se encontrava a figueira sagrada de Rômulo adorada até os últimos dias do Império.[8] O Pontifex Maximus era o único depositário da interpretação do direito, antes da instituição dos decênviros em 452 a.c. e também era o responsável para supervisão do calendário[9] - calendas, além de supervisionar os sacrifícios , observar o culto e os registros oficiais do culto estatal  bem como designar as Virgens Vestais.[10] Em 304 a.c os plebeus conseguiram quebrar o monopólio até então exercido pelo Colégio dos Pontífices em matéria de interpretação das leis. Os pontífices tinham como uma de suas prerrogativas a organização do calendário com a fixação dos dias em que era permitido tratar as causas em juízo (dies fasti) e os dias em que isso era proibido (dies nefasti).[11] Cabia o pontifex maximus a nomeação dos flamines, os sacerdotes públicos do povo romano e o rex sacrotorum. [12] Quando Augusto em 12.a.c assume o título de pontifex maximus ele pacientemente teria esperado a morte de seu rival Lépido como mostra do respeito que tinha por esse título.[13] O primeiro imperador romano a abandonar o título será o católico Graciano (governou 367-383).


A dificuldade em se estabelecer um calendário é um reflexo da inércia científica romana, a instituição de meses suplementares dependia do colégio de pontífices e era governada por interesses políticos e escrúpulos religiosos o que levava a graves desordens. Os colégios de augures e pontífices eram formados os seis pontífices conhecedores das coisas humanas e divinas que detinham os segredos das medidas e dos numerais e que deviam anunciar o calendário de dias festivos, de lua nova (novilúnio) e lua cheia (plenilúnio).[14] Em 45 a.c. com a ajuda de sábios alexandrinos do Egito entre os quais Sosígenes, o imperador Júlio César impôs uma reforma no calendário que fixava a duração do ano em 365 dias e um quarto. Pelo calendário anterior o ano tinha apenas 355 dias o que faiz com que as festas da colheita caíssem em época em que os cultivos ainda estavam crescendo.[15] Na Reforma de Julio Cesar e a introdução do calendário juliano foi estabelecido que o primeiro dia do ano não seria o primeiro dia do solstício de inverno, ou seja, em 25 de dezembro mas na primeira lua nova após esta data que naquele ano ocorreu oito dias após ou 1 de janeiro.[16] Este ano extraordinário compreendeu um período de 445 dias de 13 de outubro de 47 a.c. a 3 de dezembro de 46 a.c. Este ficou conhecido como “ano da confusão”.[17]


Com a morte de César em 44 a.c. e sem poder controlar a fixação do primeiro ano bissexto (sendo 24 de fevereiro o sexto dia antes das calendas de março, o dia 25 adicional a ser inserido no calendário a cada quatro anos passou a ser conhecido como “sexto repetido”). Os pontífices acabaram interpretando de forma errada o texto do decreto a criaram o primeiro ano bissexto a um intervalo a cada três anos ao invés de quatro anos, sendo necessários mais cinquenta e dois anos para corrigir o erro. [18]



[1] BEARD, Mary. SPQR: uma história da Roma Antiga, São Paulo: Planeta, 2010, p. 101

[2] FILHO, Adolfo Morales de los Rios. Teoria e filosofia da arquitetura, Rio de Janeiro: A Noite, 1955, p. 99

[3] BUSTAMANTE, Regina. Lemuria: apaziguando os mortos malfazejos na Roma Antiga. PHOÎNIX, Rio de Janeiro, 20-2: 109-128, 2014  https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/35015/1/Phoinix_20.2_artigo8.pdf?ln=pt-pt  https://pt.wikipedia.org/wiki/Ponte_Subl%C3%ADcio

[4] BONILLA, Luis. Breve historia de la técnica y del trabajo, Madrid:Ed. Istmo,1975, p.113; MATTOSO, Antonio. História da civilização, Lisboa:Ed Sá da Costa, 1952, p.382

[5] CAMP, L. Sprague de. The ancient engineers, New York: Ballantine Books, 1963, p. 204

[6] BLOCH, Raymond; COUSIN, Jean. Roma e o seu destino. Rio de Janeiro:Cosmos, 1964, p.69

[7] Time Life. Roma: ecos da glória imperial, Rio de Janeiro:Abril, 1998, p. 24

[8] FRAZER, James. O ramo de ouro, São Paulo: Círculo do Livro, 1978, p. 58

[9] DEARY, Terry. Terríveis romanos. São Paulo:Melhoramentos, 2002, p. 102

[10] BOORSTIN, Daniel. Os investigadores. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p.102

[11] GIORDANI, Mario Curtis. História de Roma, Rio de Janeiro:Vozes, 1981, p. 260

[12] GIORDANI, Mario Curtis. História de Roma, Rio de Janeiro:Vozes, 1981, p. 299

[13] AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. Roma  e seu Império, tomo II, V. 2, São Paulo: Difusão, 1963, p. 41; KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo testamento, V.I, São Paulo: Paulus, 2005, p. 43; KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo testamento, V.I, São Paulo: Paulus, 2005, p. 310

[14] ONCKEN, Guilhermo. História Universal – História de Grécia e Roma, Francisco Alves:Rio de Janeiro, v.IV, p.621

[15] BEARD, Mary. SPQR: uma história da Roma Antiga, São Paulo: Planeta, 2010, p. 287

[16] MOURÃO, Rogério Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica, Rio de Janeiro,Nova Fronteira, 1987, p. 417

[17] MOURÃO, Rogério. Dicionário de astronomia e aeronáutica, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p.40

[18] AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine, Roma e seu império, História Geral das Civilizações, São Paulo:1974, p. 236

sábado, 10 de dezembro de 2022

Oráculos Sibilinos

 

A vontade dos deuses era conhecida pelos augures romanos consultando-se as vozes da natureza, de modo que qualquer perturbação desta ordem era considerada um sinal nefasto de tal modo que as assembleias municipais deviam suspender suas sessões tão logo relampejasse ou trovejasse.[1] Um espelho de bronze de Vulceios datado de 400 a.c. mostra um haruspice etrusco que examina o fígado de uma vítima,[2] uma atividade correlacionada com a análise de fenômenos naturais como trovoadas.[3] Os sacerdotes árbitros destas questões eram eleitos pelo colégio de intérpretes dos livros sibilinos, escolhidos entre os representantes plebeus.[4] Os livros sibilinos composto de várias profecias foi oferecido pelas sacerdotisas chamadas Sibila a Tarquínio, soberano de Roma, tendo sido os livros conservados no templo de Júpiter em Roma para consulta em tempos de crise.[5] Os Oráculos Sibilinos entre os quais a coleção mais famosa são três livros de oráculos da Sibila de Cumas conservados em Roma guardados pelo Senado numa cripta no templo de Júpiter Capitolino. Com o incêndio do templo em 83 a.c. uma versão do que sobrou foi entregue por Augusto ao Templod e Apolo sobre o Palatino em 12 a.c. Os livros eram consultados em ocasiões importantes envolvendo questões de interesse de Estado, o que mostra a reputação de tais livros na época e os cuidados para evitar a falsificação[6]. O senado romano segundo relato do poeta Luciano em seu poema A Guerra Civil consultou o grande arúspice etrusco Arunte para uma consulta. O senador Fabio Pictor registra que fizera parte de uma delegação enviada pelo Senado ao oráculo de Delfos após a vitória de Aníbal em Canas em 216 a.c. Diversos senadores ocupavam cargos sacerdotais exercendo cargos vitalícios e muitas vezes sendo homenageados em cerimônias muitos anos após sua morte. O Senado era o mediador final entre os romanos e os deuses. Diversos políticos eminentes em Roma eram iniciados nos mistérios de Deméter e Eleusis tais como Sila, Cícero, Antonino Pio, Marco Antonio, Cômodo e Augusto. O ponto alto da cerimônia do santuário de Demeter em Eleusis era o momento que o hierofante consagrava a espiga de trigo. Na Grécia, Deméter era cultuada como a Mãe do Grão e não como a Mãe da Terra como normalmente se supõe[7] Em 249 o imperador Décio ordenou um sacrifício coletivo aos deuses como solução à crise militar vivenciada naquele período.[8]



[1] ONCKEN, Guilhermo. História Universal – História de Grécia e Roma, Francisco Alves:Rio de Janeiro, v.IV, p.600

[2] BLOCH, Raymond. Os etruscos. Lisboa: Editorial Verbo, 1970, p.254

[3] BLOCH, Raymond. Os etruscos. Lisboa: Editorial Verbo, 1970, p.143; ROSS, Norman. The epic of man, Life Magazine, 1962, p. 170

[4] BLOCH, Leon. Lutas sociais na Roma Antiga, Lisboa:Pub. Europa America, 1956, p.81

[5] READER’S DIGEST, Os últimos mistérios do mundo, Rio de Janeiro, 2003, p. 225

[6] KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo testamento, V.I, São Paulo: Paulus, 2005, p. 267

[7] KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo testamento, V.I, São Paulo: Paulus, 2005, p. 183

[8] WOOLF, Greg. Roma: a história de um império,São Paulo: Cultrix, 2017, p.161, 166



quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Paulo e o helenismo

 

Marilena Chauí mostra que os padres da Igreja como Eusébio de Cesareia e judeus como Filo de Alexandria defendiam que a filosofia grega tinha como origem o pensamento do Oriente (egípcios, assírios, persas, caldeus, babilônios), procurando mostrar que o cristianismo e o judaísmo tinham as mesmas origens, no entanto segundo Marile Chauí embora haja provas desse vínculo “de fato os gregos imprimiram mudanças de qualidade tão profundas no que receberam do Oriente e das culturas precedentes, que atá pareceria terem criado sua própria cultura a partir de si mesmos”. Entre estas inovações a autora destaca que os gregos humanizaram os mitos destas culturas; transformaram uma boa parte desse conhecimento em racional e inventaram a política ao separar o poder político das outras formas tradicionais de autoridade como o chefe de família ou o mago.[1] Segundo Helmut Koester: “o cristianismo, que começou nos momentos iniciais do período imperail romano, entrou no mundo romano como uma religião helenística, especificamente como herdeira de uma religião judaica já helenizada”.[2] Esta influência do mundo greco romano está presente desde o início do cristianismo primitivo nas cartas de Paulo pois em sua época todos os judaísmos já estavam bastante helenizados de modo que não há como separar Paulo deste contexto. Wayne Meeks porém adverte que seria um erro enquadrar Paulo às correntes existentes de judaísmo rabínico[3]. Paulo citou diretamente trecho da comédia de Menandro ou Eurípedes como consta 1 Coríntios 15:33 (as pinturas encontradas nas paredes de algumas casas em èfeos mostram que essas comédias ainda eram bastante populares)[4] e o filósofo Epimenides e  o poeta Arato em Atos 17:28. Ronald Hock mostra que ainda que Paulo em 1 Coríntios 15:33 esteja citando um provérbio popular estes eram comumente usados pelos alunos quando aprendiam a ler o que pode revelar um traço da educação de Paulo. Ademais as dezenas citações da Septuaginta revelam que Paulo era uma pessoa com educação formal.[5] Ele da mesma forma citou Epimênides no livro de Tito 1:12 ainda que esta última não seja considerada uma carta de autoria de Paulo revela o hábito dos provérbios aprendidos na escola[6]. Segundo Paul Sampley: “não existe uma versão do evangelho sem suposições e convenções culturalmente situadas”.[7] Ao tratar do sofrimento humano Paulo aborda o tema usando ideias comuns da retórica grega em que invoca o sofrimento compartilhado dos amigos como presente nas obras de filósofos como Cícero, Diégenes Laércio, Plutarco entre outros.[8] Paulo usa frequentemnete um estilo estoico cínico da diatribe, uma homilia moral que faz uma afirmação moral direta para depois ilustrá-la com parábolas e narrativas. Este estilo polêmico escarnecia da linguagem técnica, usada por exemplo nos diálogos de Platão e utilizava como exemplos a língua vernácula e metáforas usadas por pessoas comuns, sem nenhum receio de ser rude.[9] Este recurso é sobretudo usado em suas cartas aos Coríntios e aos Romanos. [10] Há indícios no Novo Testamento de que Paulo foi julgado por suas habilidades retóricas como expõe em 2 Coríntios 10: 13.[11] Embora Paulo se mostre pouco à vontade com o uso consciente da arte retórica (1Cor 2: 1-5) são inúmeros os exemplos em que ele traça comparações para reforçar seu argumento, uma conhecida técnica de retórica dos gregos. Em Gálatas 4:25 diz que Agar / Monte Sinais está em paralelo (systoichei) com a Jerusalém de agora, usando um termo presente na retórica de Aristóteles. [12] Ademais esta influência greco romana é evidente pelo fato de que todo o Novo Testamento foi escrito em grego tendo em vista a evangelização dos gentios. Quando Paulo  após quase ter sido linchado  diante do templo é resgatado por um tribuno romano e perguntado se falava grego ele responde com um verso que ecoa o poeta Eurípedes: “Eu sou judeu de Tarso, da Cilícia, cidadão de uma cidade insigne” Atos 21:39. No texto pagão em um incidente semelhante numa briga diante do templo Clitofon declara: “Cavalheiros, que coisas sofri, eu, homem livre e de uma cidade insigne”.[13] Helmut Koester mostra como Paulo foi teve edução baseada na tradição da diatribe estoico cínica[14] e utilizou-se tanto da retórica apologética (forense) como a deliberativa ao escrever aos Gálatas em defesa de seu apostolado.[15] Lucas no livro de Atos dos Apóstolos 17:22 apresenta o discurso de Paulo junto ao Aerópago alinhado com a tradição da religião e da filosofias gregas. [16]

[1] CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia, São Paulo: Ática, 2004, p. 34

[2] KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo testamento, V.I, São Paulo: Paulus, 2005, p. 44

[3] MEEKS, Wayne. Os primeiros cristãos urbanos, Rio de Janeiro: Paulus,2022, p. 81

[4] KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo testamento, V.I, São Paulo: Paulus, 2005, p. 134

[5] HOCK, Ronald. Paulo e a educação greco romana. In: SAMPLEY, Paul. Paulo no mundo greco romano, São Paulo: Paulus, 2008, p.185

[6] SAMPLEY, Paul. Paulo no mundo greco romano, São Paulo: Paulus, 2008, p.xv

[7] SAMPLEY, Paul. Paulo no mundo greco romano, São Paulo: Paulus, 2008, p.xviii

[8] FREDRICKSON, David. Paulo, as tribulações e o sofrimento. In: SAMPLEY, Paul. Paulo no mundo greco romano, São Paulo: Paulus, 2008, p. 154

[9] KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo testamento, V.I, São Paulo: Paulus, 2005, p. 159

[10] STAMBAUGH, John; BALCH, David. O Novo testamento em seu ambiente social,  São Paulo: Paulus, 2008, p. 132

[11] STAMBAUGH, John; BALCH, David. O Novo testamento em seu ambiente social,  São Paulo: Paulus, 2008, p. 112

[12] FORBES, Christopher. Paulo e a comparação retórica. SAMPLEY, Paul. Paulo no mundo greco romano, São Paulo: Paulus, 2008, p.143

[13] HOCK, Ronald. Paulo e a educação greco romana. In: SAMPLEY, Paul. Paulo no mundo greco romano, São Paulo: Paulus, 2008, p.196

[14] KOESTER, Helmut. Introdução ao novo testamento, v.II, São Paulo: Paulus, 2005, p.114

[15] KOESTER, Helmut. Introdução ao novo testamento, v.II, São Paulo: Paulus, 2005, p.78

[16] KOESTER, Helmut. Introdução ao novo testamento, v.II, São Paulo: Paulus, 2005, p.344



segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Fílon de Alexandria

 

A biblioteca de Alexandria marca o florescimento cultural da civilização helenística caracterizada por um cosmopolitaniismo no pensamento e nas artes, assim como o desenvolvimento de um idioma grego comum o koine (forma feminina do adjetivo que significa “comum”).[1] Em Alexandria onde havia uma florescente comunidade judaica foi preparada por setenta rabinos a Septuaginta o nome da versão da Bíblia hebraica traduzida em etapas para o grego koiné, entre o século III a.C. e o século I a.C.[2] Esta mescla do pensamento grego com o hebreu pode ser observada na Palestina do século III a.c. com o livro de Eclesiastes. Fílon de Alexandria (30 a.c. – 50 d.c.), considerado o “Platão hebreu”, é um exemplo de judeu alexandrino que integra elementos das duas culturas com forte influência do estoicismo e platonismo.[3] Para Fílon a alma rem sua origem no mundo de Deus, de modo que somente o espírito humano reconhece Deus e o logos, o que é possível quando nos libertamos do mundo visível pela prática da sabedoria e exercício da virtude. Para Fílon a ciência humana é um empreendimento destinado a uma procura contínua, sem fim: “Assim como alguns cavadores de poços, muitas vezes, não encontram a água procurada, assim também aqueles que avançam na ciência e insistem cada vez mais não conseguem alcançar-lhe o fim. Os doutos acusam a própria ignorância, reconhecendo unicamente  quando se acham longe da verdade. Afastando-se da verdade, a dificuldade de propcurá-las e acha-la gera as disputas.  Nas infinitas coisas de que tratam a lógica, a ética e a física nascem inumeráveis discussões. Que nos resta então senão a necessidade de se suspender o juízo ?”.[4] Para Fílon, o conhecimento humano é incapaz de encontrar a verdade.[5] Para Carlos Gouné, Fílon é uma “encruzilhada de caminhos” como judeu da diáspora que experimenta influências diversas e que analisa as crenças pagãs dentro do contexto da religião judaica sendo precursor da teologia e de um método alegorista na análise das escrituras, por metáforas, fora do sentido literal[6]. A interpretação alegórica de Fílon, sofreu a influência do estoicismo que buscava significados ocultos nas obras de autores clássicos como Homero, tal como se pode observar nos textos do estoico Cornuto no século I d.c. e Posidônio de Apameia.[7]

[1] DUNAN, Marcel; BOWLE, John. Larousse encyclopedia of ancient & medieval history, Paris:Larousse, 1963, p.169; FINLEY, Moses. O legado da Grécia. Brasília:UNB, 1998, p.10

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Septuaginta

[3] MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo: desde Aristóteles até os neoplatônicos, São Paulo: Mestre Jou, 1973, p. 179; KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo testamento, V.I, São Paulo: Paulus, 2005, p. 149

[4] MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo: desde Aristóteles até os neoplatônicos, São Paulo: Mestre Jou, 1973, p. 187

[5] MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo: desde Aristóteles até os neoplatônicos, São Paulo: Mestre Jou, 1973, p. 287

[6] Palestra sobre Fílon de Alexandria, com Carlos Nougué https://www.youtube.com/watch?v=GVLrS0imTqc

[7] KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo testamento, V.I, São Paulo: Paulus, 2005, p. 157





domingo, 4 de dezembro de 2022

Diógenes e o cinismo

 

Considerada por George Sarton como “a mais elevada doutrina ética do mundo antigo”[1] o estoicismo tinha como objetivo a harmonia da alma do indivíduo com o universo. O Cinismo foi grande influenciador do estoicismo. Segundo o cínico Diógenes de Sinope: “a virtude do homem feliz e uma vida tranquila consistem em serem todas as ações baseadas no princípio da harmonia entre seu próprio espírito e a vontade daquele que dirige o universo”.[2] Para Diógenes (412-323 a.c.), que vivia pelas ruas de Atenas na mais completa miséria e morava em tonel, o não ter necessidade é um sinal de superioridade. Vendo certa vez um menino beber na plama da mão, lançou fora a tigela que usava para beber dizendo “o menino venceu-me no satisfazer-se com pouco”. Ele era conhecido como Diógenes o Cínico pois vivia como um cão pela ruas, e o termo "cínico" deriva do "kynikos", a forma adjetiva de "kynon", que significa "cão"[3] Uma das histórias conta-se que Alexandre, o Grande, ao encontrá-lo, teria perguntado o que poderia fazer por ele. Alexandre se colocara diante de Diógenes numa posição que lhe fazia sombra. Diógenes, então, olhando para Alexandre, disse: "Não me tires o que não me podes dar!". Diógenes não formulou ou transmitiu suas doutrinas mas seu estilo de vida frugal criou exemplos marcantes de comportamento conservados na forma de histórias a seu respeito, muitas das quais reunidas por Metrocles de Maroneia[4].



[1] SARTON, George. Historia de la ciência, Buenos Aires:Editorial Universitaria Buenos Aires, 1959, p. 168

[2] WINTON, R; GARNSEY, Peter. Teoria política. In: FINLEY, Moses. O legado da Grécia. Brasília: UNB, 1998, p. 72

[3] MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo: v.I, São Paulo: Mestre Jou, 1964, p. 195

[4] KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo testamento, V.I, São Paulo: Paulus, 2005, p. 159



domingo, 30 de outubro de 2022

A invasão do Rio de Janeiro pelos franceses em 1711

Charles Boxer, por sua vez, destaca que o Tratado de Methuen assinado em 1703 ocorre após o fracasso das negociações com os franceses em 1701 com o rei Sol Luis XIV, e que levou, em represália ao Tratado de Methuen assinado com Inglaterra, aos ataques de corsários franceses realizados no Rio de Janeiro em 1710 por Jean François Duclerc[1] e no ano seguinte por Duguay Trouin.[2] O primeiro historiador a tratar das invasões dos corsários franceses Jean Leclerc e Duguay Trouin foi Rocha Pita. Feito prisioneiro, Duclerc foi assassinado em março de 1711, mesmo mantido sob a guarda de militares portugueses e embora tivesse se rendido através de um acordo. A morte de Leclerc levou a investida de Duguay Trouin em vingança com a cidade. Segundo Jean Marcel Carvalho França, Duguay Trouin só soube da morte de Leclerc ao chegar ao Rio de Janeiro.[3] A Fortaleza de Santiago reformada em 1696 estava em precárias condições de conservação carecendo de material bélico para proteger a cidade quando a frota de Duguat Trouin chegou em 1711. Ao todo a cidade dispunha de 174 canhões e 2800 militares dispostos na ilha de Villegagnon, no Forte São Sebastião, no reduto de São Januário, no reduto de Santa Luzia no Forte de Santiago  conhecido como da Misericórdia. Os franceses chegaram com 17 navios de guerra dotados de 740 canhões e 5800 soldados e marinheiros.[4] O governador Francisco de Castro Morais se retirou depois do desembarque dos franceses, ainda que tivesse a disposição soldados suficientes para resistir aos franceses[5], o que permitiu ao corsário saquear a cidade, depois de ter pernoitado na Fazenda dos Macacos em Vila Isabel[6] no Engenho Velho dos jesuítas[7], além de impor oneroso resgate uma vez que os reforços vindos de Minas Gerais demoraram a chegar.[8] O embaixador Paulo Carneiro descreve como insólitas as homenagens do governo francês a Duguay Trouin em 1973 aos seus trezentos anos de seu nascimento quando seus restos mortais foram levados à sua cidade natal Saint Malo carregados em um baú de jacarandá vindo do Brasil, esquecendo-se do horror do ataque ao Rio de Janeiro e o resgate no montante de 610 mil cruzados em  ouro[9] cujo valor foi conferido na rua da Quitanda esquina com a rua do Sabão[10], 100 caixas de açúcar e 200 bois acrescidos de mais de doze milhões de cruzados em roubos e saques praticados no ataque[11]. No regresso à França um dos navios Magnanime naufragou levando a bordo grande parte do resgate recebido no Rio de Janeiro. Apesar da perda os navios que conseguiram retornar ainda garantiram um bom lucro ao saque, sendo recebidos como heróis na corte francesa.[12]


[1] GOMES, Laurentino. Escravidão v. II, Rio de Janeiro:GloboLivros, 2021, p. 109

[2] BOXER, Charles. A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial. São Paulo:Cia Editora Nacional, 1969, p. 110,156

[3] GOMES, Laurentino. Escravidão v. II, Rio de Janeiro:GloboLivros, 2021, p. 110

[4] WINZ, Antonio Pimentel. História da Casa do Trem, Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 1962, p. 46

[5] BOXER, Charles. A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial. São Paulo:Cia Editora Nacional, 1969, p. 119

[6] BORGES, Delane; BORGES, Marilane. A Vila de Isabel e Drummond a Noel, Rio de Janeiro: Lions Internacional, 1987, p. 18

[7] GERSON, Brasil. História das ruas do Rio, Rio de Janeiro: Brasiliana, 1965, p. 109

[8] VIANNA, Helio. História do Brasil, primeira parte, período colonial. São Paulo: Melhoramentos, 1972, p.285

[9] PITTA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa, Belo Horizonte: USP,1976, p. 256

[10] GERSON, Brasil. História das ruas do Rio, Rio de Janeiro: Brasiliana, 1965, p. 110

[11] RODRIGUES, José Honório. História da história do Brasil, São Paulo: Cia Editora Nacional, 1979, p.362

[12] BOXER, Charles. A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial. São Paulo:Cia Editora Nacional, 1969, p. 125



terça-feira, 25 de outubro de 2022

O tempo de Esculápio e os primeiros hospitais no Império Romano

 

Em Roma Escribônio Largo em sua Compositiones medicamentorum expõe 21 receitas médicas de origem popular ou mágica a grande maioria à base de plantas[1]. No século II o historiador Catão, contudo, expõe seu desprezo pela medicina como “inútil e perniciosa”.[2] Para Catão Roma era saudável sem doutores, mas não sem medicamentos – sine medicis sed non sine medicina[3]. Com o império romano os médicos passaram a constituir uma categoria profissional sujeita à regulação do Estado. Cícero se refere aos clínicos, oculistas e cirurgiões. Em Pompeia foi encontrada uma planta de uma casa de um médico com um ambulatório para tratamento dos doentes. Em Vindonissa foi encontrada a planta de um hospital militar[4]. Em Carnunto e em Novésio nas margens do Reno foram encontradas construções que podem ter sido hospitais do século I[5]. Na ilha Tiberina no Tibre foi construído em 291 a.c. um templo de Esculápio[6] que Suetônio se refere como refúgio de escravos doentes, que pode segundo Charles Singer ser considerado com um precursor de hospital público.[7] No tempo de Jesus havia um templo de Esculápio conhecido como Epidauro, próximo a Corinto onde os doentes poderiam receber em sonhos as indicações de medicamentos  e dietas apropriados para o tratamento de suas doenças, sendo as instruções interpretadas pelos sacerdotes do templo que na prática atuavam como médicos.[8] No século V Marcelo Empírico de Bordeus em um tratado sobre medicamentos inclui receitas muitas vezes baseadas em excrementos de animais.[9] Plínio registra conselhos cosméticos contra rugas que inclui o leite de jumenta aplicado nas bochechas sete vezes por dia. A esposa de Nero, Popeia Sabina, usava leite de jumenta no banho, motivo pelo qual sempre viajava com uma tropa de jumentas.[10]



[1] BLOCH, Raymond; COUSIN, Jean. Roma e o seu destino. Rio de Janeiro:Cosmos, 1964, p.345

[2] ABRIL Cultural, Medicina e Saúde. História da Medicina, v.I, São Paulo, 1970, p. 34

[3] SINGER, Charles. From magic to science. New York:Dover, 1958, p.17

[4] ABRIL Cultural, Medicina e Saúde. História da Medicina, v.I, São Paulo, 1970, p. 40

[5] BLOCH, Raymond; COUSIN, Jean. Roma e o seu destino. Rio de Janeiro:Cosmos, 1964, p.154

[6] LIBERATI, Anna Mari. A Roma Antiga, Folio: Barcelona, 2005, p. 100, 107

[7] SINGER, Charles. From magic to science. New York:Dover, 1958, p.30

[8] PAGOLA, José Antonio. Jesus aproximação histórica, Rio de Janeiro: Vozes, 2010, p. 197

[9] BLOCH, Raymond; COUSIN, Jean. Roma e o seu destino. Rio de Janeiro:Cosmos, 1964, p.346

[10] LIBERATI, Anna Mari. A Roma Antiga, Folio: Barcelona, 2005, p. 87



domingo, 23 de outubro de 2022

Jesuítas, ciência e evangelização

Jean Lacouture mostra que ao contrário de entender a ciência como antagonista à religião, os missionários jesuítas na Ásia usaram a ciência como instrumento de evangelização. No depoimento de Francisco Xavier em sua atividade missionária no Japão no século XVI: “Eles não sabiam que o mundo é redondo e não conheciam o curso do sol; fizeram várias perguntas sobre tais coisas e sobre outras, como cometas, relâmpagos, chuva, neve, e outras que tais. Nós as respondemos e lhes demos explicações, com o que ficaram muito contentes e satisfeitos, considerando-nos homens doutos, o que os ajudou bastante a dar crédito às nossas palavras”. 

Em 1552 o núncio católico  em carta a Companhia de Jesus a fim de orientar a escolha de padres a darem cursos na universidade do Japão recomenda : “é necessário que eles possuam um certo conhecimento para responder às numerosas perguntas feitas pelos japoneses. Seria bom que fossem bons mestres em artes e não seria mau se fossem dialéticos. Que conhecessem algumas coisas da esfera celeste pois os japoneses tem anseio extremo por conhecer os movimentos do ceu, os eclipses, do sol, as fases crescentes e minguante da lua, a neve e o granizo bem como os trovões, relâmpagos, cometas e outras coisas da natureza. É muito proveitoso explicar-lhe estas coisas para ganhar a benevolência do povo”  

Em 1585 amigos chineses do missionário Lorenzo Ricci reconheciam que “se falares a verdade a respeito da geografia, confiaremos em ti quanto ao resto”.  

Em 1627 o jesuíta Alexandre de Rhodes em atividade missionaria no Vietnã revela sua abordagem junto o soberano chua Tring Trang em Cua Bang: “eu lhe ofereci um belo livro de matemática, todo dourado, impresso em letras chinesas, isso me deu a oportunidade de fazer um discurso sobre o ceu e os astros, de onde foi fácil chegar ao Senhor do ceu. O rei ouviu-me durante duas horas, embora estivesse muito cansado da viagem e mostrou tal satisfação ao ouvir falar de nossa santa fé que me convidou a comer com ele à moda do país”. 

Na conclusão de Jean Lacouture: “se suas palavras obtém crédito é pelo caminhos muito humanos da ciência. Não é (não é apenas) por acreditar mais (ou melhor). Não é a força de seus argumentos religiosos ou metafísicos que faz com que ele se imponha, é a aliança com uma ciência que seus companheiros e ele próprio reconheceram, saudaram, valorizaram”. [1]

[1] LACOUTURE, Jean. Os jesuítas volume I, Porto Alegre: L&PM, 1994, p. 169



segunda-feira, 10 de outubro de 2022

O Asclepions e o papel dos arquivos na construção da ciência

 

Asclépio é mencionado por Homero como um grande médico, porém somente nos séculos III e IV a.c é que seu nome será objeto de culto popular.[1]  O culto de Asclépio em Epidauro data do século VI a.c.[2] Em torno dos tempos dedicados a Asclépio, os Asclepions, como os encontrados na cidade de Epidauro[3], reuniam-se diversos doentes em busca de cura, e a presença de inscrições votivas relevam que em muitos casos tinham sucesso.[4] Os doentes permaneciam a noite em um dormitório (enkoimetérion) e esperavam que o deus lhes aparecesse em sonho e lhes prescrevesse o tratamento indicado. Logo que acordavam contavam seus sonhos para que fossem interpretados pelos augures sacerdotes. Com o passar dos séculos, foi criado um arquivo confiável de sonhos terapêuticos significativos. Diz-se que o grande médico Hipócrates deve seu conhecimento em grande parte aos registros do templo de Cos, sua cidade natal. Os que eram curados tinham suas histórias registradas em estelas no santuário[5] em Epidauro, centro do culto a Asclépio.[6] Com o passar dos séculos, foi criado um arquivo confiável de sonhos terapêuticos significativos. Diz-se que o grande médico Hipócrates deve seu conhecimento em grande parte aos registros do templo de Cos, sua cidade natal.[7] Em 420 a.C., durante um intervalo de paz, Asclépios foi introduzido em Atenas, acompanhado, ou mais provavelmente representado por sua Serpente Sagrada.[8] Segundo a teoria dos humores de Hipócrates (460-370 a.c.) Sobre a natureza do homem conforme a predominância de um dos quatro humores é possível classificar o indivíduo como sanguíneo, fleugmático, colérico e melancólico.[9]



[1] LINDBERG, David C. The Beginnings of Western Science. University of Chicago Press. Edição do Kindle. 2007, p.112

[2] TATON, René. A ciência antiga e medieval, tomo I, livro 2, Sâo Paulo:Difusão Europeia, 1959, p. 76

[3] DURANDO, Furio. A Grécia antiga, Barcelona:Folio, 2005, p.180

[4] ABRIL Cultural, Medicina e Saúde. História da Medicina, v.I, São Paulo, 1970, p. 28

[5] JARDÉ, A. A Grécia antiga e a vida grega, São Paulo:Epusp, 1977, p.159

[6] LINDBERG, David C. The Beginnings of Western Science. University of Chicago Press. Edição do Kindle. 2007, p.112

[7] SELIGMAN, Kurt. The history of magic, New York, Pantheon Books, 1948, p.84

[8] DODDS, E. Os gregos e o irracional, São Paulo: Escuta, 2002, p. 194

[9] TATON, René. A ciência antiga e medieval, tomo I, livro 2, Sâo Paulo:Difusão Europeia, 1959, p. 190



O mito da salamandra

 

Da salamandra Plínio descreve que “Esse animal é tão frio que pode apagar o fogo só pelo contato, assim como o faz o gelo. Ele cospe uma matéria leitosa, e se alguma parte do corpo humano for tocado por ela, perde todos os pelos, adquirindo a aparência de lepra [...] a Salamandra é capaz de destruir nações inteiras de uma única vez, a menos que sejam tomadas as devidas precauções contra ela. Pois se esse réptil se esgueirar por uma árvore, afetará todas as frutas com seu veneno, matando quem delas comer por causa das propriedades resfriantes dele”. Agripa, baseando sua opinião em Aristóteles, Dioscórides e Plínio, o Velho, disse que o fogo abriga salamandras e grilos e que destaca as virtudes maravilhosas das salamandras existiam no Egito e na Babilônia. Um simples experimento teria provado que salamandras e grilos morrem no fogo, como qualquer outro animal, mas Agripa compartilhava com o passado uma aversão à experimentação. Que a natureza ígnea da salamandra era geralmente aceita no tempo de Agripa é ilustrado pelo fato de que seu contemporâneo, o rei Francisco I, adotou como emblema real de uma salamandra cercada de chamas.[1]



[1] SELIGMAN, Kurt. The history of magic, New York, Pantheon Books, 1948 https://archive.org/details/historyofmagiccomplete/page/n67/mode/2up



domingo, 2 de outubro de 2022

A invenção do fogo

 

Na Europa as evidências mais remotas do uso do fogo datam de 500 mil anos.[1] Em Portugal a Gruta de Aroeira[2] possui vestígios de fogueiras de 400 mil anos (a excecionalidade da descoberta feita em 2017 por João Zilhão da Universidade de Lisboa está na boa preservação dos vestígios e na associação entre o crânio, a indústria lítica típica do período em questão e a confirmação do uso controlado do fogo), na caverna Bolomor na Espanha de 350 a 100 mil anos, em Biache-Saint-Vaast na França 240 a 170 mil anos, na caverna Tabun em Israel 350 a 320 mil anos. Zane Stepka mostra evidências indiretas do uso do fogo datadas de 800 mil anos entre hominídios primitivos em Evron Quarry em Israel. As evidências mais antigas do uso do fogo foram registradas em locais como Wonderwerk Cave, Swartkrans na África do Sul, Koobi Fora e possivelmente Chesowanja no Quênia, Gesher Benot Ya’aqov em Israel e Cueva Negra na Espanha, todos na época do Homo erectus.[3]

[1] CONDEMI, Silvana; SAVATIER, François. Neandertal, nosso irmão, São Paulo: Vestígio, 2018, p. 82

[2] Gruta da Aroeira: Descobertos Primeiros Indícios do Uso de Fogo Há 400 Mil Anos, https://www.natgeo.pt/historia/2020/09/gruta-da-aroeira-descobertos-primeiros-indicios-do-uso-de-fogo-ha-400-mil-anos

[3] STEPKA, Zane; HORWITZ, Liora; NATALIO, Filipe. Hidden signatures of early fire at Evron Quarry (1.0 to 0.8 Mya), 13 junho 2022 Revista PNAS, v.119, n.5 https://doi.org/10.1073/pnas.2123439119



A influência francesa no Brasil do século XIX

 

No século XIX a influência francesa se fazia sentir na literatura com textos de Mirabeu, nos jornais A Gazeta Francesa ou no Jornal das Famílias publicado pela editora Garnier que tratava de costumes, poesia do romantismo francês. As livrarias Mongie, Laemmert e Garnier destacam o papel do livro francês no Brasil do século XIX e segundo Jean Yves Mollier refletem os grandes investimentos que tornaram a França grande exportadora de livros na produção livreira mundial.[1] Segundo Luiz Edmundo: “persistimos franceses, pelo espírito e, mais do nunca, a diminuir pelo esnobismo tudo que seja nosso. Bom só o que vem de fora, e ótimo, só o que vem da França”. A livraria Garnier era a “sublime porta” para a França.[2] Apesar do clima tropical Pedro II se vestia com roupas de lã.[3] Em 1900 Joaquim Nabuco em Minha Formação declara que “Paris foi e é a paixão cosmopolita dominante em todos nós”.[4] Em 1911 a emancipação da mulher se manifesta nos grandes centros urbanos como na mulher anônima que provoca a curiosidade e os apupos do público na avenida Central por vestir uma jupe culotte, precursora da calça comprida feminina. A dama teve se refugiar na Camisaria Americana para não ser linchada pela multidão[5] Para Tania Ferreira a fascinação pela França e o sentimento antilusitano fez com que historiadores como Nelson Werneck Sodré e Lawrence Hallewell diminuíssem a importância de livreiros como o português Francisco Alves: “a doação que deixou, por morte, à Academia Brasileira de Letras demonstrou sua preocupação com a manutenção das raízes da língua portuguesa e sua visão de futuro. Foi um grande livreiro e merece um estudo específico de sua trajetória”. Os recursos foram fundamentais para a Academia Brasileira Letras que vinha lutando para se manter, em consequência da crônica falta de recursos.[6]

[1] FERREIRA, Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz. Livros e cidadania no Rio de Janeiro do século XIX. In: CARVALHO, José Murilo; CAMPOS, Adriana Pereira. Perspectivas da cidadania no Brasil Império, Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2011, p. 313

[2] FERREIRA, Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz. Livros e cidadania no Rio de Janeiro do século XIX. In: CARVALHO, José Murilo; CAMPOS, Adriana Pereira. Perspectivas da cidadania no Brasil Império, Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2011, p. 321

[3] PRIORE, Mary del. O castelo de papel, Rio de Janeiro: Rocco, 2013, p.48

[4] CARVALHO, José Murilo. A construção nacional 1830-1889, Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p. 153

[5] 100 anos de República, v. II , 1904-1918, São Paulo: Abril Cultural, p. 30; Folha de São Paulo, Coleção Folha fotos antigas do Brasil, v. 13 Protestos e passeatas, São Paulo: Folha de São Paulo, 2012, p. 19

[5] HALLEWELL, Laurence. O livro do Brasil, São Paulo: Edusp, 1985, p.218



sábado, 1 de outubro de 2022

As eleições no Brasil colônia

 

Martim Afonso que chegara a São Vicente próximo a Santos no litoral paulista em 22 de janeiro de 1532 e coordenou em 22 de agosto de 1532 as primeiras eleições populares do Brasil e das Américas, instalando a primeira Câmara de Vereadores no território americano, mesmo em um povoamento que segundo o cosmógrafo Alonso de Santa Cruz, que passou em São Vicente em 1530, tinha algo em torno de dez casas. Segundo narrativa de seu irmão Pero Lopes de Sousa: “A todos nos pareceu tão bem esta terra, que o capitão irmão determinou de a povoar, e deu a todos os homens terras para fazerem fazendas; e fez uma vila na ilha de São Vicente e outra nove léguas dentro pelo sertão, à borda de um rio que se chama Piratininga; e repartir a gente nestas duas vilas e fez nelas oficiais, e pôs tudo em boa ordem de justiça, de que a gente tomou muita consolação com verem povoar vilas e ter leis e sacrifícios, e ser cada um senhor do seu”.[1] Martin Afonso de Sousa  voltou  à Lisboa em meados de 1533 não retornando mais o Brasil deixando a cargo do padre Gonçalo Monteiro o governo da vila de São Vicente e nomeando João Ramalho como capitão mor “da borda e dalém campo”.[2] As eleições eram reguladas pelas Ordenações Manuelinas de 1521, no entanto José Murilo de Carvalho aponta que há registro de queixas  sore eleição de pessoas não qualificadas e pedidos de que somente “homens bons” pudessem votar, no entanto, não há registro do número de pessoas que efetivamente votavam nestas eleições do século XVI.[3]



[1] VIANNA, Helio. História do Brasil, primeira parte, período colonial. São Paulo: Melhoramentos, 1972, p.60

[2] VIANNA, Helio. História do Brasil, primeira parte, período colonial. São Paulo: Melhoramentos, 1972, p.61

[3] CARVALHO, José Murilo. A involução da participação eleitoral no Brasil, 1821-1930. In:  CARVALHO, José Murilo; CAMPOS, Adriana Pereira. Perspectivas da cidadania no Brasil Império, Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2011, p. 40



domingo, 25 de setembro de 2022

Origens dos primeiros brasileiros

 

Em Lagoa Santa foram encontrados esqueletos de entre cerca 8 a 10 mil anos enquanto que Luzia[1] foi encontrada em 1975 na gruta da Lapa Vermelha IV em Confins[2] que fazia parte de um grupo caçador coletor com datação de 12,7 a 16 mil anos, o achado humano mais antigo de todo continente americano[3]. Luzia foi encontrada por uma missão de arqueólogos franco brasileira coordenados por Annette Laming Emperaire. Walter Neves e Héctor Puciarelli nos anos 1980 perceberam que os traços de Luzia e de outros esqueletos encontrados nos arredores de Lagoa Santa lembram os negros africanos ou os aborígenes australianos, mas não os mongoloides asiáticos de onde se acredita tenha vindo a onda migratória que deu origem ao homem americano. Tampouco os índios modernos tem as feições de Luzia.[4] A explicação para os traços negros de Luiza pode estar na presença de grupos com características morfológicos dos primeiros africanos, entre o grupo dos primeiros colonizadores americanos. Segundo Walter Neves a explicação não estaria em qualquer migração transoceânica seja pelo Atlântico ou pelo Pacífico mas pelo estreito de Bhering possivelmente por duas levas distintas de humanos que deixaram a Ásia em direção à América no final do Pleitoceno, uma primeira com morfologia craniana paleoamericana e uma segunda com morfologia mongoloide.[5] Pesquisas posteriores mostraram que a presença do homem nas ilhas do Pacífico era muito recente e não poderia ter sido a origem dos povos americanos[6]. A elevação do nível dos mares que se intensificou entre 12 mil ac. E 9 mil a.c. provocou ume enorme grande transformação e explosão populacional. A conexão por terá entre Sibéria e Alasca permitiu a migração dos primeiros humanos para as Américas em algum momento antes de 22 mil a.c..[7] Um dos primeiros a sustentar a origem asiática dos povos americanos vindo através do estreito de Bhering, não muito antes do final do Pleitosceno, foi Alexander Humboldlt ainda no século XIX[8] A primeira leva teria caminhado pela costa do Pacífico, chegado ao Chile em 12.300 anos atrás conforme descoberta de 1997 de Tom Dillehay em Monte Verde no Chile[9], que sugere uma rota inicial pela costa do Pacífico, de modo que a penetração nos Estados Unidos e a cultura Clovis seriam posteriores derrubando a tese inicial do Clovis First [10], que aparecem amplamente nos registros arqueológicos da América do Norte a partir de 13 mil anos atrás. Em Monte Verde foram encontradas cabanas de madeira construídas com galhos e restos de fogueiras, bem como artefatos de ossos e pedras.[11] Entre 11,5 mil e 8,5 mil anos atrás teriam chegado ao nordeste e centro oeste do Brasil.

[1] FUNARI, Pedro; NOELLI, Francisco. Pré história do Brasil, São Paulo:Contexto, 2016, p. 34; CLARK, Grahame. A pré história, Rio de Janeiro:Zahar, 1975, p. 286

[2] PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 26

[3] HOLTEN, Birgitte; STERLL, Michael. P.W.Lund e as grutas com ossos em Lagoa Santa, Belo Horizonte:UFMG, 2011, p.29; HETZEL, Bia; MEGREIROS, Silvia. Prehistory of Brazil. Rio de Janeiro:Manati, 2007, p. 52

[4] LOPES, Reinaldo. 1499 o Brasil antes de Cabral,Rio de Janeiro:Harper Collins, 2017, p. 15, 39, 50

[5] FERRO, Carolina. Luzia: a ponta do iceberg. Revista de História da Biblioteca Nacional, n.71, agosto 2011, p. 32; SP Pesquisa - A origem do Homem Americano - 1º bloco, 2015 https://www.youtube.com/watch?v=u-mbnL_6b5k

[6] PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros, Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 20

[7] BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo, São Paulo: Fundamento, 2008, p. 25

[8] VALLA, Jean Claude. A civilização dos incas, Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1978, p. 36

[9] MILLER, Russel. A verdade por trás da história: as novas revelações que estão mudando nossa visão do passado. Rio de Janeiro:Reader’s Digest, 2006, p.29

[10] HETZEL, Bia; MEGREIROS, Silvia. Prehistory of Brazil. Rio de Janeiro:Manati, 2007, p. 56

[11] JAMES, Peter; THORPE, Nick. O livro de ouro dos mistérios da antiguidade, Rio de Janeiro: Ediouro, 2002, p. 324



D. Maria I, o pecado e a depressão

 

O reinado de Maria I, iniciado em 1777, foi por muitos considerado o período da "viradeira", ou seja, de um retrocesso face à política reformista ilustrada do governo de José I e seu célebre ministro, Sebastião Carvalho e Melo, que se tornou marquês de Pombal em 1769. Segundo Mary del Priore: “Embora tenha convivido com Pombal, Maria I não cresceu à luz de suas ideias. Ela não pertencia à pequena elite culta e preocupada em aniquilar definitivamente toda e qualquer estrutura mental receptiva aos sistemas mágicos dos quais fazia parte o demônio, o inferno, o pecado. O milagre era parte intrínseca de sua vida. As ações divinas ou demoníacas a guiavam. O grande livro do mundo continuava imerso em explicações binárias do tipo certo e errado, de Bem e do Mal. A luz da ciência ainda não entrara na sua intimidade ou na maneira de pensar. Para ela, a natureza obedecia a um sistema oculto e inacessível à razão humana, pelo menos, à dela. Entre crer e saber, ela optou: Cria”.[1] Mentalmente instável, desde 1792 foi obrigada a aceitar que o filho d. João VI tomasse conta dos assuntos de Estado.

[1] PRIORE, Mary del. D. Maria I: as perdas e glórias da rainha que enrou para a história como “a louca”, São Paulo: Benvirá, 2019, p.195




sexta-feira, 23 de setembro de 2022

A oficina medieval

 

Na loja medieval: o artesão vendia sua própria produção[1] As lojas justapostas na mesma rua não mantinham concorrência entre si[2] Segundo Arlette Farge nos prédios de apartamentos parisienses, encravado em suas ruas estreitas, eram cheios de passagens  que ligavam a oficina ao pátio com partes internas ou balcões exteriores ao redor dos pátios, no entanto sugere que a concorrência não estava ausente: “a oficina , espaço tradicional de trabalho do artesão, seus empregados e aprendizes, é um local intermediário entre o exterior e o interior. Balcões e bancas estendem-se para a rua, abrem-se para fora. Clientes e artesãos podem conversar o dia inteiro. Longe de ficar trancados, os empregados logo se informam de tudo que acontece nas redondezas, o que facilita muitas formas de intercâmbio e de solidariedades. Ninguém pode ignorar as disputas entre patrões e empregados e ao primeiro olhar dos transeuntes distinguem as oficinas organizadas daquelas que não o são. Em um contexto de tal proximidade, a competição atinge o auge: o mestre não hesita em nadar seu aprendiz espionar pela janela os clientes de seu vizinho para melhor agarrá-los”.[3]

[1] http://cidade114.rssing.com/chan-25137763/all_p4.html

[2] FOSSIER, Robert. As pessoas da idade média, Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 104

[3] FARGE, Arlette. Famílias, a honra e o sigilo. In: ARIÈS, Philippe; CHARTIER, Roger. História da vida privada v. 3 Da Renascença ao século das Luzes, São Paulo: Cia das Letras,1991, p.587



sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A dama e o unicórnio

 

Em Paris o museu de Cluny mostra a tapeçaria La dame à la licorne, do século XV com uma cena representando uma bela mulher que recebe a visita de um unicórnio[1], símbolo da virgindade.[2] Na parte central da figura a dama é apresentada a um pote de joias. Por muito tempo se acreditou que a jovem retirada um colar do pote, mas na interpretação atual, ao contrário, ela retira a joias que vestia em seu pescoço para colocá-lo no pote. Não se trata, portanto, de uma escolha de joalheria, mas de uma renúncia à joalheria. A inscrição tecida no topo do pavilhão "Ao meu único desejo" vinculado a este gesto esclarece o sentido da cena, relacionado ao conceito de livre arbítrio - Liberum arbitrium que mostra a submissão dos sentidos.[3] Segundo a lenda medieval um unicórnio somente poderia ser capturado quando sua cabeça repousasse sobre o colo de uma virgem o que foi interpretado pela Igreja como uma outra imagem para Cristo.[4] Somente quando repousando sobre o corpo da virgem é possível extrair seu chifre. O ser macho fêmea combina aspectos femininos (corpo de virgem) e masculinos (chifre único) simbolizando dois sexos latentes no mesmo ser. A cena simboliza o Cristo tornando-se humano ao nascer do corpo de uma virgem.[5]



[1] GOFF, Jacques. A idade média explicada aos meus filhos, Rio de Janeiro:Agir, 2007, p. 97

[2] DELORT, Robert. Animais. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean Claude. Dicionário analítico do Ocidente medieval. v.I, São Paulo:Unesp, 2017, p. 78; GOFF, Jacques. Maravilhoso. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean Claude. Dicionário analítico do Ocidente medieval. v.II, São Paulo:Unesp, 2017, p. 133

[3] Musée de Cluny, Ministère de la Culture et de la Communication, Paris, 1979, p. 67

[4] In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean Claude. Dicionário analítico do Ocidente medieval. v.I, São Paulo:Unesp, 2017, p. 167

[5] READER’S, DIGEST Os últimos mistérios do mundo.Rio de Janeiro, 2003, p. 46



segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Os livreiros e jornais no Brasil do final do século XIX

 

Na rua do Ouvidor encontravam-se diversas livrarias como as francesas Villeneuve no nº 65, Laemmert no nº 68 que editava o famoso Almanak Lambert e que foi por muito tempo a principal concorrente da livraria Garnier no nº 69, a Mongie no nº 91, a Cremière no nº 104, a Firmin  Didot no nº  118 que editou a Viagem Pitoresca de Debret em três volumes, e Francisco Alves. Em meados do século Joaquim Manuel de Macedo publica as suas Memórias  da Rua do Ouvidor de 1878 e descreve a livraria Mongie como “ponto de encontro de escritores e intelectuais que podiam contar com uma conversa animada, culta e interessante”.[1] Homens de negócios, políticos e burocratas se encontravam nas livrarias Laemmert ou Garnier na rua do Ouvidor que pelos fins do século XIX é uma “colmeia movimentada e rumorosa”[2] para trocar ideias: “O Ouvidor era, então, o local público para a expressão da fantasia de identificação da elite”.[3] Os alemães Eduardo e Henrique Laemmert fundaram sua casa editorial em 1838, enquanto Batista Luís Garnier, que os maledicentes chamavam de Bom Ladrão Garnier chegou ao Brasil em 1844.[4] Laurence Hallowell mostra que durante o segundo reinado por décadas a imprensa usufruiu de liberdade sem paralelo. De 1870 a 1872 surgiram no país mais de vinte jornais republicanos questionando a monarquia.[5] Hallewell mostra que após a República, o que se verifica é a restrição da liberdade de imprensa que coincide com o falecimento dos três maiores livreiros do país, Eduardo (1880), Henrique Laemmert (1884) e Luis Garnier (1893). Segundo  José Veríssimo de Matos: “Nos últimos vinte anos do império nenhuma imprensa seria mais livre no mundo. Com a República essa liberdade diminui sensivelmente , tornando-se vulgar, em todo o país, a destruição, o incêndio, o empastelamento de tipografias, os ataques pessoais, ferimentos, mortes ou tentativas  de morte de jornalistas”. Em 1890 o jornal A Tribuna foi depredado por militares por críticas ao novo governo. Angelo Agostini publica uma áspera nota na Revista Ilustrada: “Somos pela liberdade de opinião. O ataque à Tribuna causou-nos enojamento. Foi um ato de barbárie nada admirável na Cafrária. Jamais pensamos  que na capital federal houvesse um grupo de homens tão miseráveis, tão iníquos, ao ponto de desbaratarem um jornal, jamais nos passou pela ideia que este fato tão mesquinho, tão repugnante, tivesse lugar sob o regime de todas as liberdades concedidas pela lei”. [6] Segundo Hallowell, enquanto a velha aristocracia açucareira  do Nordeste encarava a cultura como uma marca de nobreza, os novos ricos fazendeiros de café republicanos consideravam a riqueza e não a educação o maior valor.[7] Na livraria Laemert era comum a visita de Rui Barbosa ao final das sessões no Senado.[8] Na livraria eram publicados as revistas “A vida moderna” de Arthur Azevedo e Luiz Murat. Não havia uma lei de direitos autorais eficaz até 1898 pois o artigo 261 do Código Criminal  do Império de 1830 permanecia letra morta nesse sentido. Ainda assim em 1880 Paulina Proença ganhou processo junto a Suprema Corte contra Antonio Mello por reimprimir o livro Guia médico cirúrgico de seu falecido marido com base em violação do artigo 179 parágrafo 22 da Constituição  Imperial. Os portugueses se queixavam de constantes violações impunes de seus direitos autorais por impressores brasileiros o que levou a reação como se observa na Revista Lisboense de 16 de dezembro de 1847, ainda que em Portugal a primeira lei de direito autoral date apenas de 1851. Segundo Hallowell: “foi precisamente a ausência de proteção de direitos autorais estrangeiros que salvou a nascente industrial editorial brasileira de ser destruída pelas importações de Portugal e das impressões em português feitas em Paris, com suas edições maiores e, portanto, direitos autorais à parte,  custos mais baixos, Se essa indústria tivesse sido tragada no nascedouro, é difícil ver como é que os autores brasileiros lograriam obter a publicação de suas obras!”.[9]

[1] HALLEWELL, Laurence. O livro do Brasil, São Paulo: Edusp, 1985, p.80, 128

[2] EDMUNDO, Luiz. O Rio do meu tempo, Rio de Janeiro:Conquista, 1957, v.IV, p. 741

[3] NEEDELL, Jeffrey. Belle Epoque Tropical:sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século, São Paulo:Cia das Letras, 1993, p.120, 193

[4] SODRÉ, Nelson Werneck, A história da imprensa no Brasil, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 237

[5] SODRÉ, Nelson Werneck, A história da imprensa no Brasil, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 244

[6] SODRÉ, Nelson Werneck, A história da imprensa no Brasil, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 290, 293

[7] HALLEWELL, Laurence. O livro do Brasil, São Paulo: Edusp, 1985, p.182

[8] GERSON, Brasil. História das ruas do Rio, Rio de Janeiro: Brasiliana, 1965, p. 73

[9] HALLEWELL, Laurence. O livro do Brasil, São Paulo: Edusp, 1985, p.171, 174



Doação de Constantino

  Marc Bloch observa a ocorrência de falsificações piedosas tais como a pseudo doação de Constantino ( Constitutum Donatio Constantini ) ao ...