domingo, 19 de junho de 2022

O poder do símbolo, a magia e a formação da cultura humana

 

Na gruta de Trois Frères (Três irmãos), com entrada de corredores estreitos, é encontrada uma imagem de um ser metade humano metade animal que pode ser a representação de um feiticeiro[1] (figura) datada de 13 mil a.c[2]. Seu olhar frontal contrasta com os demais animais sempre representados de perfil. A pintura reproduzida, no entanto, tem recebido muitas críticas por ser uma reprodução imprecisa do original feita por Henri Breuil, especialmente pela ausência dos chifres. Louis Leakey observa que a figura representada em pintura e gravação mostra os chifres de um veado, o rosto de uma coruja e as orelhas de um lobo, a perna dianteira de um urso e um rabo de cavalo[3]. Na gruta Cap Blanc, próxima a Les Eyzies na França junto com a arte rupestre nas cavernas com representação de bisões, cavalos e renas foi encontrada o esqueleto de uma mulher de 13 mil a.c. cerimonialmente enterrada, o que por certo, deveria representar um lugar de culto para a comunidade. A ideia e um recinto sagrado onde se pudesse cuidar dos mortos desenvolveu um sentimento de “amor ao lar” (oikophilia) estabelecendo laços de pertencimento e contribuindo para sedentarização do homem.[4] Para Lewis Mumford os ritos nas cavernas demonstram os mesmos impulsos sociais que levarão aos homens a se reunir em cidades: “onde todos os sentimentos originais de medo, reverência, orgulho e alegria seriam ainda mais ampliados pela arte e multiplicados pelo número de participantes capazes de responder”.[5] Lewis Mumford mostra que a caverna paleolítica, a pirâmide, o zigurate, a cripta cristã todos tem a função de intensificar a experiência emocional: “como a sepultura, a caverna é um útero ao qual o homem primitivo regressa em busca de segurança e sigilo”.[6]  Para René Girard: “Não existe cultura sem túmulo e tampouco túmulo sem cultura; no limite, o túmulo é o primeiro e único símbolo cultural. É a primeira pirâmide”.[7] Para Mauricio Righi o fato dos recessos mais profundos das cavernas cobertos pela completa escuridão terem sido escolhidos pelo homem primitivo para suas pinturas mostra que tais pinturas compunham um contexto de xamanismo paleolítico de interação com o mundo espiritual onde provavelmente as comunidades encenavam danças cúlticas, celebravam encontros cerimoniais e executavam ritos de sangue.[8] Johannes Maringer observa que a figura humana nas cavernas do paleolítico é representada usando máscaras de animais usualmente diante do medo que o homem primitivo tinha de ser vítima de sua própria magia.[9] Para Leilie White todo comportamento humano se origina no uso dos símbolos. O símbolo é o universo da humanidade. O sentido de um símbolo só pode ser comunicado pela palavra articulada que se coloca como a mais importante forma de expressão simbólica sem a qual não haveria organização social humana. Os instrumentos rituais ou cerimoniais não teriam sentido sem a palavra, pela qual o homem consegue comunicar ideias, preservar uma tradição e preservação significa acumulação e progresso, ou seja, “sem qualquer forma de comunicação simbólica não haveria cultura”.[10]

[1] SKLENAR, Karel. La vie dans la préhistoire, Praga:Grund, 1991, p.104; LEAKEY, Richard. A evolução da humanidade, Brasília: UNB, 1981, p. 176; SHAPIRO, Harry. Homem, cultura e sociedade, Lisboa: Fundo de Cultura, 1972, p. 104

[2] https://en.wikipedia.org/wiki/The_Sorcerer_(cave_art)

[3] LEAKEY, Louis. Graphic and plastic arts. In: SINGER, Charles; HOLMYARD, E. A history of technology, Oxford Clarendon Press, v.I, 1958, p. 151

[4] RIGHI, Mauricio. Pré História & História, São Paulo:É Realizações, 2017, p. 70

[5] MUMFORD, Lewis. A cidade na história, São Paulo:Martins Fontes, 1982, p. 14

[6] MUMFORD, Lewis. A cidade na história, São Paulo:Martins Fontes, 1982, p. 134 Figura 1

[7] RIGHI, Mauricio. Pré História & História, São Paulo:É Realizações, 2017, p. 74

[8] RIGHI, Mauricio. Pré História & História, São Paulo:É Realizações, 2017, p. 297

[9] ROSS, Norman. The epic of man, Life Magazine, 1962, p. 32

[10] WHITE, Leslie. Os símbolos e o comportamento humano. In: CARDOSO, Fernando Henrique; IANNI, Octavio. Homem e sociedade, Rio de janeiro: cia Editora Nacional,1976, p.182-192



sexta-feira, 17 de junho de 2022

A ordem dos templários

 

O castelo de Tomar era sede da Ordem de Cristo fundada em 1319 por D. Dinis como sucessora da Ordem dos Cavaleiros Templários[1] a qual mantinha em segredo diversas informações técnicas de navegação, construção naval e cartografia.[2] Jorge Caldeira aponta este como um processo de depuração de conhecimento prático em meio a tantos relatos fantasiosos como inaugurando a era moderna centrada em conhecimentos científicos.[3] O castelo de Tomar, por sua vez, nasce da doação do Castelo de Ceras e seu termo aos Templários, por D. Afonso Henrique em 1159. Os Templários construíram grande fortuna atuando como verdadeiras agências bancárias para permitir que os peregrino à Terra Santa em Jerusalém pudessem viajar sem ter de transportar valores e estarem sujeitos a assaltos, bastava que realizassem um depósito por exemplo na Temple Church construída pelos Templários em 1185 em Londres para depois sacarem o dinheiro em Jerusalém mediante a apresentação de uma carta de crédito.[4] Na França os Templários seriam expulsos por Felipe o Belo usando de sua influência junto ao papa francês Clemente V durante o período de papado em Avinhão (1309-1377). Embora Clemente V tenha absolvido os templários como mostra o "Pergaminho de Chinon", ele entretanto compreendeu que, para evitar um cisma na Igreja, era necessário sacrificar a sobrevivência da Ordem o que veio a ocorrer quando a Ordem foi dissolvida no Concílio de Vienne (França), em 1312. Uma das vozes críticas da época Chritian Spinola de Gênova  escreveu: “acredito que o rei e o papa procedem dessa forma por desejar se possar da fortun dos Templários, Hospitalário e todos os demais” Viliiani de Folrença na mesma crítica comenta que “muitas pessoas dizem que os templários foram mortos e destruídos injustamente e por motivos ímpios porque suas posses, que o papa à Ordem dos Hospitalários, eram cobiçadas”. Na bula Vox in Excelso o papa dissolvia a ordem embora não a declarasse culpada. Com exceção de um decreto especial válido para península ibérica, todas as riquezas dos templários foram transferidas para a ordem dos cvaleiros Hospitalários. O último grão-mestre, Jacques de Molay, depois de desafiar o voto de silêncio foi queimado na fogueira em Paris em 1314 por ordem do rei Filipe IV contraindo a sentença papel que o havia inocentado[5]. De acordo com a lenda, de dentro das chamas este amaldiçoou o rei Filipe IV, o papa Clemente V e o ministro Guilherme de Nogaret, afirmando estes seriam convocados perante o tribunal de Deus no prazo de um ano, o que de fato veio a ocorrer. Daniel Rops questiona se os interesses do rei francês eram apenas financeiros tendo em vista que a Ordem dos Hospitalários recebeu a sua parte do espólio.[6]

[1] BOXER, Charles. O império colonial português, Lisboa: Edições 70, 1969, p. 225

[2] CALDEIRA, Jorge. História da Riqueza no Brasil, Rio de Janeiro:Estação Brasil, 2017, p.42, 44

[3] CALDEIRA, Jorge. A nação mercantilista, São Paulo:Ed. 34, 1999, p. 97, 122

[4] COSTA, Marcos. O livro obscuro do descobrimento do Brasil, Rio de Janeiro:Leya, 2019, p. 195

[5] READER’S DIGEST, Os últimos mistérios do mundo, Rio de Janeiro, 2003, p. 86

[6] ROPS, Daniel. A Igreja das catedrais e das cruzadas. São Paulo: Quadrante, 2012, p. 642



O alquimista Nicolas Flamel

 

Para o alquimista Nicolas Flamel em seu Thresor de Philosophie a alquima “é a ciência dos quatro elementos que se transformam mútua e reciprocamente uns em outros. Todos os filósofos coincidem nesse ponto”.[1] Nicolas Flamel (1330-1417) escreveu sobre a conclusão do trabalho do alquimista, que ele 'transforma o homem em bom, afastando dele a raiz de todos os pecados, especificamente a cobiça. Então ele torna-se generoso, benigno, piedoso, crente e temente a Deus, independentemente de quão mal ele havia sido anteriormente; porque, a partir de então, ele estará sempre cheio da graça e misericórdia com que ele foi recebido por Deus, e com o mais profundo de seus maravilhosos trabalhos”[2]. A camada casa de Flamel ficava na rua de Montmorency em Paris. A conexão de Flamel com a alquimia tornou-se mais evidente quando Robert Duval mostrou os símbolos alquímicos gravados nos prédios que pertenciam a Flamel e que foram doados à Igreja.[3] O Livro das figuras hieroglíficas de Flamel é de 1612 e não há qualquer referência a este texto antes desta data e somente no século XVII o nome de Flamel como alquimista terá maior difusão, muito embora o texto se descreva como uma adaptação de um texto mais antigo escrito em latim por Flamel, proém desconhecido.  No texto segundo Burckhardt: “Os três conjuntos de sete páginas, do livro, relembrava as três principais fases do trabalho – escurecimento, clareamento e avermelhamento – e os sete planetas ou metais. A vara ao redor da qual as duas serpentes estavam enroscadas é a vara de hermes, com as duas forças – enxofre e mercúrio – que governam o eixo espiritual. A cobra crucificada é o símbolo da fixação do mercúrio volátil – a primeira “incorporação” do espírito. A fixação do mercúrio corresponde à subjugação da força vital cada vez mais inquieta, que se dissipa a si mesma em desejos e imaginações. Ao mesmo tempo ela representa a transmutação do pensamento dominado pelo tempo em uma consciência imóvel e atemporal. A cruz na qual a serpente está fixada significa o corpo, não como carne e sensualidade, mas como imagem da lei cósmica, do eixo cósmico imóvel”. Para Laurinda Dixon toda a obra parece muito mais um escrito pós renascentista do que propriamente do início do século XV.[4] A grande obra a ser realizada é a transmutação da alma, uma obra interior segundo o Livro dos sete capítulos atribuído a Hermes: “Veja, eu abri diante de você o que estava escondido: O trabalho [alquímico] está em suas mãos e juntamente com você; na medida em que se encontra dentro de você e é duradouro. Você sempre terá isso presente, onde quer que você esteja, na terra ou no mar...”[5] Titus Burckdardt explica que “Com esse modo 'impessoal' de olhar para o mundo da alma, a alquimia coloca-se em uma relação muito mais próxima com o 'caminho do conhecimento' (gnosis) do que com o 'caminho do amor'. Porque é prerrogativa da gnosis – no sentido genuíno, e não no herético, da expressão – reconquistar a alma individual 'objetivamente', em lugar de experimentá-la apenas subjetivamente. Daí porque trata-se de um misticismo fundado no 'caminho do conhecimento', que por acaso usou modos de expressão alquímicos, se de fato não assimilou de fato as formas da alquimia com os graus e os modos de seu próprio 'caminho'. A expressão 'misticismo' vem de 'segredo' ou 'afastamento' (do grego myein); a essência do misticismo impede uma interpretação meramente racional, e isso soa bem no caso da alquimia”.[6]

[1] DE ROLA, Stanislas. Alquimia. Lisboa:Ed. Del Prado, 1996, p. 17

[2] BURCKHARDT, Titus. Alquimia: ciência do cosmos, ciência da alma. Londres: Fons Vitae, 1967, p. 21

[3] READER’S DIGEST. Os últimos mistérios do mundo, Rio de Janeiro, 2003, p. 84

[4] DIXON, Laurinda. Nicolas Flamel: His Exposition of the Hieroglyphicall Figures (1624). Routledge, 2019; LINDEN, Stanton J. Alchemy and Eschatology in Seventeenth-Century Poetry. Ambix, v. 31, n. 3, p. 102-124, 1984.; PRIESNER, Claus. Legends about Legends: Abraham Eleazar's Adaptation of Nicolas Flamel. Ambix, v. 63, n. 1, p. 1-27, 2016. CALDEIRA. Henrique. Quem foi Nicolau Flamel? | História da Alquimia, 2022, https://www.youtube.com/watch?v=gZDexi41XPw

[5] BURCKHARDT, Titus. Alquimia: ciência do cosmos, ciência da alma. Londres: Fons Vitae, 1967, p. 19

[6] BURCKHARDT, Titus. Alquimia: ciência do cosmos, ciência da alma. Londres: Fons Vitae, 1967, p. 23



quinta-feira, 16 de junho de 2022

O papel das pequenas empresas na inovação

Robert Merges[1] lembra que a propriedade de empresas não necessariamente significa propriedade de grandes empresas e argumenta que as pequenas empresas persistem como uma importante fonte de inovação. Uma mostra disso é o movimento de Open Innovation que busca a integração entre grandes e pequenas empresas. Neste cenário os direitos de propriedade intelectual são um elemento chave para o sucesso das pequenas empresas.[2] Outro aspecto que Merges destaca é que as grandes empresas são o nascedouro de pequens empresas. Estudos mostram que 70% de todos os empresários nos Estados Unidos vieram de empresas estabelecidas de onde receberam treinamento e inspiração para novas ideias.[3] Para Merges sob uma perspectiva mais ampla a grandes empresas estão longe de ser a anátema do trabalho criativo. Pelo contrário tais empresas são indispensáveis. [4] A história do vale do Silício mostra diversas empresas start ups surgindo de empresas maiores tais como a Fairchild Semiconductor, entre as quais a Intel, AMD e a National Semiconductors entre outras, conhecidas como Fairchildren.[5] François Chesnais observa que o capital de risco financiou algumas das empresas mais bem sucedidas dos Estados Unidos como Microsoft, DEC, Fedex, Intel, Genentech e Cisco.[6] A DEC em 1957 foi financiada inicialmente pela empresa de capital de risco American Research and Development Corporation (ARDC) fundada por Georges Doriot, ex reitor da escola de administração de Harvard em parceria com Karl Compton, ex presidente do MIT. O valor investido aumentou em cinco vezes quando a DEC fez sua IPO onze anos depois. A Intel recebeu investimentos de Arthur Rock.[7] O Google recebeu investimentos de capital de risco da Sequoia Capital e Kleiner Perkins.[8] Mariana Mazzucato mostra que o capital de risco privado nos Estados Unidos entra numa fase posterior do desenvolvimento da empresa onde o risco embora alto é menor do que nas fases inciais da empresa. Segundo o prêmio Nobel Paul Berg os investidores de capital de risco não estavam disponíveis quando do surgimento das empresas de biotecnologia: “Onde estavam vocês nas décadas de 1950 e 1960, quando foi preciso fazer todo o financiamento em ciência básica ? A maioria das descobertas que tem alimentado a indústria foi feita nessa época”.[9] Na área de telas LCD, Peter Brody buscou sem sucesso o apoio de grandes empresas como Apple, IBM, 3M, Xerox, DEC e Compaq para Dra continuidade as suas pesquisas com transistores de película fina (TFT). Em 1988 depois de um acordo com a agência do governo DARPA Peter Brody criou o Magnascreen que deu origem as telas TFT-LCD. [10] Mariana Mazzucato conclui: “O Estado está por trás da maioria das revoluções tecnológicase longos períodos de crescimento”.[11]

O financiamento do governo por programas como o de Pesquisa e Inovação em Pequenas Empresas (SBIR) e o Programa de Tecnologia Avançada (ATP) chega a ser de duas a oito vezes superior a quantia investida pelo capital de risco privado.[12] Para Mariana Mazucato o surgimento da Nasdaq e o mercado de ações de tecnologia em ação conjunta com o capital de risco foi um modelo criado sob pressão política para tornar tais empresas menos dependentes do capital externo. O modelo altamente especulativo dos Estados Unidos a sua abordagem imediatista do capital de risco, por sua vez, prejudicam a inovação segundo Mariana Mazzucato[13]. Roger Cullis mostra a ação deireta de investimentos do Estado em inovaçao no Japão com 30 bilhões de ienes do MITI no porjeto VLSI, na Inglaterra em 1960 o governo investiu em projetos na área de semicondutores em empresas como Plessey e Ferranti. Segundo o senador Joseph Lieberman o Departamento de defesa dos Estados Unidos comprou mais de metade da produção de semicondutores de 1965 sendo um fator decisivo para a alavavanvagem do setor.[14] A franco italiana SGS-Thomson recebeu aportes significativos do governo em 1990 e na Alemanha a Siemens recebeu investimentos do governo alemão de 40 milhões de dólares para aumentar sua capacidade em microeletrônica. A Coreia do Sul investiu 60 milhões no South Korean Institute or Electronics Technology (KIET) para desenvolvimento de tecnologia a ser transerida para indústrias privadas[15]

Alfred Chandler em seu livro The Visible Hand, ganhador do prêmio Pulitzer, defende a tese de que os grandes empreendimentos como a construção de ferrovias no século XIX foram os grandes alavancadores da industrialização nos Estados Unidos, por desencadearem mudanças importantes nos processos de gestão das empresas. Em Proprietary Capitalism, Philip Scranton desafia a ênfase de Chandler nas grandes empresas e argumenta que pequenas e médias empresas também tiveram um papel importante na industrialização do país. A impressionante estabilidade das grandes empresas norte americanas verticalmente integradas estudadas por Chandler nos anos 1960 e 1970 foram questionadas pelos japonses nas década seguinte que marcaria o fim das empresas de ciclos de produção longos. Segundo Charles Morris: “o longo ciclo de produção revelou-se um calcanhar de Aquiles, uma adaptação preguiçosa aos dias de pouco consumo, quando todo mundo ficava feliz co um telefone preto, e os concorrentes externos eram com frequência destruídos por guerras”. [16]

Um estudo realizado em 2000 por Robert Hart e cols. para subsidiar a Comissão Européia em sua Diretiva de Software mostra que a posse de direitos de propriedade intelectual ajuda as pequenas empresas desenvolvedoras de software a conseguir investimentos e desenvolver mercados para suas invenções. O estudo conclui: “não há evidências de que os desenvolvedores de software independentes europeus tenham sido afetdaos indevidamente pelas posições de patentes das grandes empresas ou mesmo de outros desenvolvedores de software [...] Os desenvolvedores independentes europeus de software estão desproporcionalmente fazendo pouco uso das possibilidades de patenteamento quando comparados com as grandes empresas”[17]



[1] MERGES, Robert. Justifying Intellectual Property, Harvard University Press, 2011, p. 3088/6102 (kindle version)

[2] GRAHAM, Stuart; MERGES, Robert; SAMUELSON, Pamela, SICHELMAN, Ted.. High Technology Entrepreneurs and the Patent System: Results of the 2008. Berkeley Patent Survey Berkeley Technology Law Journal,, v. 24, n. 4, p. 255-327, 2009

[3] HELLMAN, Thomas. When do employees become entrepreneurs ? Working Paper, University of British Columbia, 2006, http://strategy.sauder.ubc.ca/hellmann/pdfs/MSRevision_August_2006-All.pdf

[4] MERGES,Robert.op.cit.p.3284/6102 (kindle version)

[5] CULLIS, Roger. Patents, inventions and the dynamics of innovation: a multidisciplinary study, Edgard Elgar, 2007, p.187

[6] CHESNAIS, François; SAUVIAT, Catherine. O financiamento da inovação no regime global de acumulação dominado pelo capital financeiro. In; LASTRES, Helena; CASIOLATO, José; ARROIO, Ana. Conhecimento, sistemas de inovação e desenvolvimento, UFRJ:Rio de Janeiro, 2005, p. 200

[7] ISAACSON, Walter. Os inovadores: uma biografia da revolução digital, São Paulo: Cia das Letras, 2014, p. 199-201

[8] ISAACSON, Walter. Os inovadores: uma biografia da revolução digital, São Paulo: Cia das Letras, 2014, p. 478

[9] MAZZUCATO, Mariana. O estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado, São Paulo:Portfolio Penguin, 2014, p.91

[10] MAZZUCATO, Mariana. O estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado, São Paulo:Portfolio Penguin, 2014, p.151

[11] MAZZUCATO, Mariana. O estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado, São Paulo:Portfolio Penguin, 2014, p.51

[12] MAZZUCATO, Mariana. O estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado, São Paulo:Portfolio Penguin, 2014, p.81

[13] MAZZUCATO, Mariana. O estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado, São Paulo:Portfolio Penguin, 2014, p.88

[14] CULLIS, Roger. Patents, inventions and the dynamics of innovation: a multidisciplinary study, Edgard Elgar, 2007, p.262

[15] CULLIS, Roger. Patents, inventions and the dynamics of innovation: a multidisciplinary study, Edgard Elgar, 2007, p.157

[16] MORRIS, Charles, R. Os magnatas: como Andrew Carnegie, John Rockfeller, Jay Gould e J.P.Morgan inventaram a supereconomia americana, Porto Alegre:L&PM, 2006, p.239

[17] HART, Robert; HOLMES, Peter; RAID, John. The economic impact of patentability of computer programs, Report to the European Comission http://ec.europa.eu/internal_market/indprop/docs/comp/study_en.pdf



A invenção do rádio

As ondas eletromagnéticas propostas por Maxwell em 1873 permaneciam até então sem uma comprovação científica já que a onda curta e a alta frequência da luz tornavam suas propriedades impossíveis de serem medidas. [1]Em seu início havia um grande descrédito das perspectivas das ondas eletromagnéticas como meios de comunicação. Marconi começou suas experiências com ondas de rádio em 1890 logo após a descoberta de Henrich Hertz que preveniu Marconi que suas experiências estavam destinadas ao fracasso e que eram perda de tempo. Lord Kelvin aconselhou ao físico Ernest Rutherford em início de carreira a que não investisse nas ondas hertezianas por não visualizar qualquer aplicação prática das mesmas sugerindo a pesquisa em radioatividade.[2] Rutherford trabalhava no Laboratório Cavendish, em Cambridge (Inglaterra) onde finalizou um detector que podia captar ondas eletromagnéticas a até 800 m. Segundo John Heilbron o cientista tentou obter uma patente, porém não dispunha dos recursos financeiros[3].

O inglês Oliver Lodge desenvolveu um aparelho para detecção de ondas de rádio, previstas pelo alemão Heinrich Hertz, utilizando um dispositivo no receptor chamado de coesor inventado por Edouard Branly em 1890 (um tubo de vidro cheio de limalha de ferro capaz de se agrupar, e assim alterar sua resistência elétrica, quando da presença de ondas de rádio) tendo realizado uma apresentação pública no Royal Institution em 1894. Ele transmitiu sinais de rádio em 14 de agosto de 1894 em um encontro da Associação Britânica para o Avanço da Ciência na Universidade de Oxford, um ano antes de Guglielmo Marconi, mas um ano após Nikola Tesla. Lodge por sua vez, mesmo tendo patenteado sua invenção não fez o enforcement da mesma.[5] Sua patente US609154 referente a telegrafia sem fio utilizando a bobina de Ruhmkorff ou Tesla como transmissor e o coesor de Branly como detetor, a patente de "sintonização" de agosto de 1898 foi vendida a Marconi em 1912.[6] Roger Cullis aponta o fato de que a Inglaterra detinha o controle das transmissões por cabo submarino assim como os correios detinham o monopólio das comunicações telegráficas e telefônicas pelo Telegraph Act de forma que não havia grande interesse pela tecnologia de transmissão sem fio. [7] William Henderson contudo aponta que os correios britânicos promoveram o desenvolvimento da tecnologia de telegrafia sem fio.[8]

O russo Alexander Popov implementou no coesor um pequeno badalo, que batia levemente na limalha de ferro do coesor, preparando assim o dispositivo automaticamente para novas recepções e realizou experiências de transmissão por rádio, bem sucedidas junto a Sociedade Físico Química Russa em 1895. [9]

O indiano Chandra Bose, aperfeiçoou o coesor utilizando mercúrio, em 1899. Utilizando o coesor de Lodge e Popov, Marconi incorporou uma placa de metal afixada à ponta do coesor de modo a melhorar a recepção dos sinais, constituindo uma antena, que permitiu a transmissão de sinais a grandes distâncias, culminando com o envio de sinais de rádio da Europa aos Estados Unidos em 1901, desta vez já utilizando o coesor de Bose. Em 1900 Marconi depositou a patente GB7777 para um rádio com sintonia, capaz de selecionar os sinais de rádio a serem recebidos, garantindo assim a possibilidade de múltiplas transmissões simultâneas. Esta técnica já havia sido, contudo, patenteada pelo croata Nikola Tesla em 1897.

Usando uma tecnologia distinta, sem o emprego do coesor, mas o centelhamento de uma bobina de RuhmKoff, o padre brasileiro Landell de Moura conseguiu transmitir sinais de voz (e não apenas telegrafia como a experiência de Marconi em 1901) em uma exibição realizada na Avenida Paulista, em São Paulo em 1900 e solicitou patente nos Estados Unidos dois anos após (US775337).


[1] HART DAVIS, Adam. O livro da Ciência, São Paulo:Globo Livros, 20144, p. 184

[2] READERS'S DIGEST, História dos grandes inventos, Portugal, 1983, p.62

[3] LEITE, Cássio Vieira, História da Física: artigos, ensaios e resenhas, Rio de Janeiro:CBPF, 2015, p.15 http://mesonpi.cat.cbpf.br/escola2015/downloads/material/historia_da_fisica.pdf

[4] SEDGWICK, W.; TYLER, H; BIGELOW, R. História da ciência: desde a remota antiguidade até o alvorescer do século XX, Rio de Janeiro:Ed. Globo, 1952, p.348

[5] CULLIS, Roger. Patents, inventions and the dynamics of innovation: a multidisciplinary study, Edgard Elgar, 2007, p.49

[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/Oliver_Lodge

[7] CULLIS, Roger. Patents, inventions and the dynamics of innovation: a multidisciplinary study, Edgard Elgar, 2007, p.88, 151

[8] HENDERSON, William. A revolução industrial, São Paulo:Edusp, 1979, p.59

[9] CAMP, Sprague. A história secreta e curiosa das grandes invenções.Rio de Janeiro:Lidador, 1964, p. 318




A cabala na obra de Pico de Mirandola

 

Pico della Mirandolla em 1490 em Disputationes adversus astrologiam divinatricem libri empreendeu forte ataque contra a astrologia divinatória, muito embora seja cabalista[1] e estude as correspondências entre as dez esferas dos cosmos e os dez sefirots[2]. O astrólogo João Fusoris cônego de Notre Dame em Paris foi perseguido por sua práticas acusado de colaborar com os ingleses quando o rei da Inglatterra em 1415 se preparava para desembarcar na França e teve uma consulta astrológica com Fusoris.[3] Em Heptaplus de Pico de Mirandola defende as teses cabalistas do universo dividido em três mundos o primeiro chamado pelos teólogos de angélico e pelos filósofos de inteligível, o mundo celestial onde habitam os planetas e por fim o sublunar das coisas materiais e sujeitos à deterioração, assim Pico de Mirandola (1463-1494) “astrologiza” as hierarquias celestes.[4] No modelo adotado por Aristóteles a terra é o centro do universo, após esfera da lua estão as esferas dos planetas, incluindo o Sol. O mundo é limitado pelas estrelas fixas.[5] A doutrina cabalística era baseada em três mundos. o inteligível (dos anjos e da perfeição, o mundo das ideias de Platão), o celestial (dos astros) e o visível (das coisas materiais).[6] O fraces Guillaume Postel e os alemães Joahannes Tritheim e Joahannes Reuchlin deram continuidade aos estudos cabalísticos de Pico de Mirandolla.[7]



[1] FANNING, Philip. Isaac Newton e a transmutação da alquimia, Santa Catarina:Danúbio, 2016, p. 35

[2] YATES, Frances. Giordano Bruno e a tradição hermética, São Paulo:Cultrix, 1995, p. 117, 136

[3] TATON, René. A ciência antiga e medieval: a Idade Média, tomo I, v.III, São Paulo:Difusão, 1959, p. 149

[4] YATES, Frances. Giordano Bruno e a tradição hermética, São Paulo:Cultrix, 1995, p.143, 144

[5] ABRANTES, Paulo. Imagens de natureza, imagens de ciência, Campinas:Papirus, 1998, p.32

[6] YATES, Frances. Giordano Bruno e a tradição hermética, São Paulo:Cultrix, 1995, p. 200

[7] READERS’S DIGEST. Os últimos mistérios do mundo, Rio de Janeiro, 2003, p. 78



Suger e a construção da catedral de Saint Denis

 

De 1144 com a reforma do abade Suger na catedral de Saint-Denis a 1240 há um vertiginoso desenvolvimento das técnicas de construção de catedrais francesas,[1] com os vitrais e do arco gótico, pontiagudo e elevado, em oposição aos arcos semicirculares de origem romana. Suger estava convencido de que todo o luxo do mundo deveria ser usado para realçar a pompa das liturgias.[2] Para Georges Duby: “Suger era monge mas punha o monaquismo a serviço daquilo que se encontrava então em plena adolescência, o Estado, o Estado monárquico”.[3] Suger tomou como guia a Teologia Mística de Dionísio Aeropagita cujas relíquias eram conservadas no mosteiro de Saint Denis. Segundo Dionísio o divino era o foco de onde irradia todo o fervor religioso de modo que os vitrais deveriam remeter a essa resplandescência por meio da luz[4]. A construção da catedral de Saint Denis é detalhada em dois volumes escritos por Suger: “A estrutura do edifício é apoiada em doze colunas no meio do coro que correspondem aos doze apóstolos do Novo Testamento. As naves laterais tem o mesmo número de colunas, representando o número de profetas, conforme descritos pelo apóstolo, que construía para o espírito: <De agora em diante não sois mais estranhos e forasteiros, mas cidadãos iguais aos santos e pertencentes à casa de Deus> [referência ao apóstolo Paulo em Efésios 2:19]”. Suger mandou escrever uma inscrição que se revela como o construtor da obra: “Fui eu Suger que fiz esta igreja ser ampliada em meu tempo, quando de minha supervisão”[5]

[1] Scientific American, A ciência na idade Média, Ed. Duetto, Portugal,

[2] DUBY, Georges. História artística da Europa: Idade Média, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 58

[3] DUBY, George. A Europa na Idade Média, São Paulo: Martins Fontes, 1988, p.48

[4] DUBY, Georges. História artística da Europa: Idade Média, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 84

[5] READER’S DIGEST. Os últimos mistérios do mundo, Rio de Janeiro, 2003, p. 73



Doação de Constantino

  Marc Bloch observa a ocorrência de falsificações piedosas tais como a pseudo doação de Constantino ( Constitutum Donatio Constantini ) ao ...