quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

A espagiria de Paracelso e a alquimia

 

O ensinamento extraído da experiência era fundamental para Paracelso: “perscrutamini naturas rerum” – “investiga a natureza”[1]. Segundo William Bynum: “a importante inovação de Paracelso foi a separação entre o paciente e a doença”[2] Em Paragranum escrita em 1530 Paracelso afirma a necessidade de uma nova terapêutica.[3] Seu livro Cirurgia maior – Di grosse Wundartzney de 1536 foi uma de suas obras mais importantes.[4] Para o alquimista Nicolas Flamel em seu Thresor de Philosophie a alquima “é a ciência dos quatro elementos que se transformam mútua e reciprocamente uns em outros. Todos os filósofos coincidem nesse ponto”.[5] Para Paracelso a espagiria indica a arte de separar o puro do impuro de forma que, eliminadas as excrescências, a virtude remanescente possa operar – purum ab impuro segregare, ut, reiectis fecibus, virtus remanes operetur, por este motivo Paracelso é conhecido como o Espagirista. Titus Burckhardt explica que “O termo medicina espagirica vem das palavras gregas correspondentes a 'divisão' e 'união' – correspondendo aos termos alquímicos solve et coagula”.[6] Lucia Helena Galvão[7] mostra que o princípio do solve et coagula diz respeito da morte no mundo físico e renascimento no mundo espiritual. Para Julius Evola: “Como preceito geral, permanece sempre: Solve et coagula. Potier especifica: “Se estas duas. palavras te parecem demasiado obscuras e não próprias de Filósofo, direi algo mais extenso e compreensível. Dissolver é converter o Corno do nosso ímã em puro Espírito. Coagular é fazer de novo corporal este Espírito, segundo o preceito do Filósofo que diz: Converte o Corpo em Espírito e o Espírito em Corpo. Quem entender estas coisas, possuirá tudo; e quem as não compreender, nada terá”. Ao solve corresponde-lhe o símbolo da ascensão; ao coagula corresponde-lhe o da descida”[8]. Segundo Paracelso: “a magia tem o poder de experimentar e compreender as coisas que são inerentemente inacessíveis à razão humana. Pois a magia é uma grande sabedoria secreta, assim como a razão é uma grande loucura pública”.[9] Alguns dos trabalhos de Paracelso de outro lado era escritos de forma codificada em um alfabeto denominado Alfabeto dos reis magos. Nicolas Flamel em sua obra Testamento de Nicolas Flamel também usa um alfabeto codificado.[10] Paracelso acredita na correlação entre o macrocosmo e o microcosmo e na astrologia: “É preciso ter consciência de que a medicina deve ter nos astros a sua preparação e que os astros se tornam meios para cura. A preparação do médico terá que ser exercida de tal forma que o remédio seja preparado como por tramitação celeste, do mesmo modo com que são tramitadas as profecias e os outros eventos celestes”.[11]

[1] MANGOLD, Lydia Mez. Imagens da história dos medicamentos, Basileia:Hoffman La Roche, 1971, p.94

[2] BYNUM, William. Uma breve história da ciência. Porto Alegre:L&PM Pocket, 2018, p. 62

[3] ABRIL Cultural, Medicina e Saúde. História da Medicina, v.I, São Paulo, 1970, p. 112

[4] FARIAS, Robson Fernandes. Paracelsus e a alquimia medicinal, São Paulo: Gaia, 2006, p.35

[5] DE ROLA, Stanislas. Alquimia. Lisboa:Ed. Del Prado, 1996, p. 17

[6] BURCKHARDT, Titus. Alquimia: ciência do cosmos, ciência da alma. Londres: Fons Vitae, 1967, p. 17

[7] GALVÃO, Lucia Helena. A alquimia na idade média, Nova Acrópole Brasil. minuto 17 https://www.youtube.com/watch?v=8whFz7B-qDQ&t=1060s

[8] EVOLA, Julius, A tradição hermética. Lisboa: Edições 70, 1971, p. 169

[9] BELL, Madison Smartt. Lavoisier no ano um. São Paulo: Cia das Letras, 2007, p. 43

[10] COSTA, Marcos. O livro obscuro do descobrimento do Brasi, Rio de Janeiro:Leya, 2019, p. 67

[11] ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa, Bauru:Edusc, 2001, p. 274



quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

O ouroboros nos textos medievais

 

Os manuscritos herméticos medievais são ilustrados com frequência pelo dragão ouroboros, símbolo da eternidade[1], que morde “boros” a própria cauda “oura”, simbolizando a eternidade, acompanhado da mensagem <O uno é o todo> Hen to pan[2]. Na alquimia o ouroboros simboliza a transmutação da matéria.[3] No Egito o papiro mágico ilustrado de Brooklyn revela a imagem de um ouroboros[4]. No segundo sarcófago de Tutankhamon são mostrados suas serpentes ouroboros.[5] Ao recriar-se a si mesmo simboliza a matéria em transformação, logo, a própria alquimia. Segundo Julius Evola o símbolo ouroboros represente ao mesmo tempo o Universo e a “Grande Obra”: “A fórmula que expressa esse princípio encontramo-la já na Crisopea de Cleópatra: “Um o Todo” que devemos assimilar a “o Telesma, o Pai de todas as coisas, está aqui” da Tábua de Esmeralda. Não se trata, portanto, neste caso, de uma teoria filosófica (hipótese da redutibilidade de todas as coisas a um princípio único), mas sim de um estado concreto devido a uma certa supressão da lei de dualidade entre o Eu e o não-Eu e entre dentro e fora, que salvo raros instantes domina a comum e mais recente percepção da realidade”.[6] Esta imagem inspirou Kekulé a desvendar a estrutura do benzeno.  



[1] HARRIS, J. O legado do Egito, Rio de Janeiro:Imago, 1993, p.174

[2] LAFONT, Olivier. A química. In: COTARDIÈRE, Philippe. História das ciências: da antiguidade aos nossos dias, Rio de Janeiro:Saraiva, 2011, p.147

[3] LEXIKON, Herder. Dicionário de símbolos, São Paulo:Cultrix, 1990, p. 150

[4] JACQ, Christian. O mundo mágico do antigo Egito, Rio de Janeiro:Bertrand do Brasil, 2001, p.110

[5] CLARK, Rundle. Símbolos e mitos do Antigo Egito, São Paulo:Hemus, (s.d.), p.75, 76

[6] EVOLA, Julius, A tradição hermética. Lisboa: Edições 70, 1971, p. 37



terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Maçonaria e as conjurações baiana e mineira

 

Em 1796 o padre botânico Manuel Arruda da Câmara formado em medicina em Montpellier e com passagem filosofia e ciências naturais na Universidade de Coimbra fundou o Aerópago de Itambé em Recife em Pernambuco[1] considerada a pioneira das lojas maçônicas no Brasil[2]. Na Bahia Cipriano Barata, estudante da Universidade de Coimbra e Marcelino de Souza foram denunciados à Inquisição de Lisboa em 1798 por questionarem doutrinas da Igreja, mais tarde dando origem ao movimento da Conjuração Baiana. O historiador Joaquim Felício dos Santos (1822-1895) mostra que quase todos os conjurados na Bahia eram pedreiros livres. Aquino observa, contudo, que a loja Maçônica Cavaleiros da Luz não era frequentada pelos soldados, artesãos e elementos das camadas populares.[3] Dentre os 33 presos processados haviam 11 escravos, cinco alfaiates, seis soldados, três oficiais, dois ourives, um pedreiro, um professor, um carpinteiro, um bordador, um negociante e um cirurgião.[4] Também encontravam-se entre os conspiradores membros das camadas mais humildes como alfaiates, sapateiros, pedreiros, cabeleireiros, soldados, gravadores, carapinas, ambulantes[5]. Membro da elite baiana, Jorge Borges Barros conseguiu fugir para Lisboa antes que os conjurados baianos na revolução dos alfaiates de 1798, cujos líderes eram exclusivamente mulatos[6], fossem descobertos entre os quais alguns maçoms[7]. Na ilha da Madeira José Borges Barros tornou-se grão-mestre da maçonaria. Logo envolveu-se na falsificação de papel moeda e moeda metálica para introdução no Brasil para financiar movimentos de revolta contra a Coroa portuguesa. As primeiras denúncias ao Santo Ofício de lojas maçônicas no Brasil datam do início do século XIX. Augusto de Lima Júnior em História da Inconfidência Mineira constata a existência de lojas maçônicas em funcionamento na Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais no final do século XVIII e este teria sido um dos pontos de aproximação do movimento mineiro com Thomas Jefferson em apoio a causa dos inconfidentes.  Nos autos da devassa da inconfidência há o registro de que a casa de Antonio Vieira da Cruz primo do padre José da Silva e Oliveira Rolim funcionava em dezembro de 1788 um templo maçônico oculto, no Alto da Cruz em Vila Rica, sendo que maçoms os inconfidentes Tomás Antonio Gonzaga, Luís Beltrão de Gouveia e Tiradentes.[8] Segundo Mario Mello em Maçonaria no Brasil publicado em 1909, em 14 de julho de 1797 (data de aniversário da tomada ada Bastilha) foi fundada a Loja Cavaleiros da Luz na Bahia[9] depois “Virtude e razão”[10] devida ao francês Larcher[11].  Em 1802 o inglês Thomas Lindley já notara a atividade maçônica na Bahia muito embora sem as suas lojas regulares como em Lisboa e no Porto.[12] A primeira loja maçônica regular a funcionar no Brasil foi a Loja Reunião fundada em 1801 em Praia Grande em Niteroi [13]



[1] GOMES, Laurentino. 1822, Rio de Janeiro:Globo Livros, 2015, p.240; SODRÉ, Nelson Werneck. A história da imprensa no Brasil, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 18

[2] SILVA, Hailton Meira da. Cultura Geral maçônica, Rio de Janeiro:Menthor, 2009, p.272

[3] AQUINO, Fernando, Gilberto, HIran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.360

[4] AQUINO, Fernando, Gilberto, HIran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.359

[5] COSTA, Emília Viotti. Da monarquia à República: momentos decisivos, São Paulo:Brasiliense, 1987, p.32, 123; SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Cia das Letras, 1988, p. 383

[6] RUSSELL WOOD, Escravos e libertos no Brasil colônia, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p.125

[7] CALMON, Pedro. História da Civilização Brasileira. São Paulo:Cia Editora Nacional, 1937, p.171

[8] Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, Brasília: Câmara dos Deputados, 1981, p. 506

[9] GARCIA, Paulo. Cipriano Barata ou liberdade acima de tudo, Rio de Janeiro: TopBooks, 1997, p.178

[10] CALMON, Pedro. História da civilização brasileira, Brasília: Senado Federal, 2002, p. 171

[11] VIANNA, Helio. História do Brasil, primeira parte, período colonial. São Paulo: Melhoramentos, 1972, p.362

[12] CALMON, Pedro. História da civilização brasileira, Brasília: Senado Federal, 2002, p. 170

[13] SILVA, Hailton Meira da. Cultura Geral maçônica, Rio de Janeiro:Menthor, 2009, p.277



O milho e a batata entre os incas

 

A escassez de terrenos férteis levou os incas a construírem cidades como Cusco e Ollantaytambo sobre terrenos estéreis sobre declives rochosos poupando assim os solos férteis para a agricultura[1]. A cultura do milho maiz encontra-se nas margens dos lagos mexicanos e nas culturas em terraços no Peru[2]. A caverna Bat no sul do Novo México Central é um sítio seco e produz datas mais antigas pelo teste carbono 14 do que em locais úmidos[3] onde foram encontradas espigas de milho de uma espécie primitiva junto com utensílios datados de 2500 a.c[4]. Entre o povo zapoteca em Monte Albáno o centro mais importante de Oaxaca[5], foi encontrado no túmulo 104 pintura data de 600 d.c. que mostra o deus do milho. Valcárcel observa que “nenhum país do mundo conquistou mais espécies vegetais, e de tão grande valor nutritivo como o Peru”.[6] Para conservação de batatas os incas (chamada de papa), nos vales húmidos, usavam caixotes de madeira misturados com muña, planta similar à hortelã, conseguindo a estocagem dos alimentos por oito meses.[7] Um processo conhecido como chunu permitia a preservação de batatas numa forma de farinha desidratada que podia ser armazenada por anos.[8]



[1] BAUDIN, Louis. El império socialista de los incas, Santiago Chile:Ediciones Rodas, 1973, p.123

[2] BRAUDEL, Fernand. Civilização material e capitalismo, séculos XV-XVIII, Rio de Janeiro:Cosmos, 1970, p.134

[3] COON, Carleton. A história do homem. Belo Horizonte:Itatiaia, 1960, p.362, 367

[4] COE, Michael. O México. Lisboa:Editorial Verbo, 1970, p.49

[5] LONGHENA, Maria. O México antigo, Barcelona:Folio, 2006, p. 145

[6] BAUDIN, Louis. A vida quotidiana dos últimos incas, Lisboa:Ed. Livros do Brasil, p. 209

[7] BAUDIN, Louis. A vida quotidiana dos últimos incas, Lisboa:Ed. Livros do Brasil, p. 211

[8] HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 59



segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

O renascimento carolíngio e o papel dos mosteiros alemães

 

Carlos Magno promoveu um renascimento da arquitetura e literatura romanas, construindo o paláco Aquisgrano no estilo de Roma antiga.[1] Em Aachen (figura) Carlos Magno construiu a residência imperial, o que era destinada a ser “a segunda Roma”.[2] A capela palatina de Aix conforme o modelo da basílica imperial de São Vital de Ravena, ou a basílica Saint German de Auxerre são marcos da arquitetura carolíngia[3]. Frances Gies destaca que o renascimento carolíngio estimulou a reconstrução de igrejas merovíngias numa escala ainda maior como nos casos de Colonha e Rheims.[4] O professor de Alcuíno, Alberto de York destaca a import^ncia dos resgate da cultura clássica: “que desgraça seria deixar que o conhecimento que fora elaborado pelos sábios da antiguidade perecesses em nossa geração”[5]. Nas iluminuras e nas encardenações de marfim a arte carolíngia alcançou seus maiores êxitos e das oficinas de Saint Denis, Tours, Metz, Hautvillers, Corbie e Aix La Chapelle saíram os artesãos que produziram obras primas tais como a Bíblia de São Paulo extra muros, o sacramentario de Drogon, o Saltério de Utrecht ou a Bíblia de Carlos o Calvo[6]. O renascimento carolíngio foi marcado pelo desenvolvimento de bibliotecas com as do mosteiro de Corbie e a de São Martinho de Tours sob a direção de Alcuíno.[7] Segundo São Bernardo de Clavaral no século XII: “um mosteiro sem biblioteca é como um castelo sem arsenal”.[8] Jacques Verger mostra que o renascimento carolíngio foi, antes de tudo, “uma revolução escolar”.[9] Outras realizações do renascimento carolíngio incluem a renovação da cultura escrita, consagrando o latim como língua oficial, a língua dos doutos[10], e a uniformização da escrita com o emprego da minúscula redonda usada nos documentos oficiais, bem como na valorização dos documentos antigos e preservação de textos de autores clássicos como Cícero e Virgílio.[11] Segundo Christopher Dawson: “a nós pode parecer patético, ou mesmo absurdo, que um mero monge como Alcuíno e um rei bárbaro e analfabeto como Caros Magnos pudessem sonhar em construir uma nova Atenas em um mundo que possuía nada mais que os rudimentos de uma civilização e, em breve, seria assolado por uma nova onda de invasões e barbarismos. [...] Depois do colapso do império carolíngio, foram os grandes monastérios, especialmente aqueles localizados no sul da Alemanha – São Gall, Reichenau e Tegernsee – que se tornaram ilhas remanescente de vida intelectual, em meio a uma nova invasão de barbarismo, a qual, mais uma vez, ameaçou submergir a cristandade ocidental”. [12] Robert Delort destaca que o renascimento carolíngio foi ofuscado pelas invasões do século X, de modo que normandos, sarracenos e húngaros visam particularmente pilhar os ricos monastérios e queimar suas construções junto com seus manuscritos trabalhos de sábios como o monge Alcuíno de York[13], Rabanus Maurus ou Eginhard.[14] Frances Gies mostra que o renascimento carolíngio ocorre após um período de seis séculos desde que os romanos de desinteressaram pela ciência e filosofia gregas e assim com os clássico gregos o que levou ao latim se transformar na língua franca da classe intelectual medieval: “talvez o mais estranho hiato da história da cultura ocidental”.[15]



[1] CORNELL, Tim; MATHEWS, John. Renascimento v.I ,Grandes Impérios e Civilizações, Lisboa:Ed. Del Prado, 1997, p. 15

[2] DUBY, Georges. História artística da Europa: Idade Média, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 144

[3] PERROY, Edouard. A idade média, tomo III, Primeiro Volume, História Geral das Civillizações, São Paulo:Difusão Europeia, 1958, p. 144

[4] GIES, Frances & Joseph. Cathedral, forge and waterwheel, New York: Harper Collins, 1994, p. 67

[5] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 94

[6] PERROY, Edouard. A idade média, tomo III, Primeiro Volume, História Geral das Civillizações, São Paulo:Difusão Europeia, 1958, p. 145; DUBY, Georges. História artística da Europa: Idade Média, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 165

[7] NUNES, Ruy Afonso da Costa. História da educação na idade média, Campinas:Kirion, 2018, p.155

[8] MORTIMER, Ian. Séculos de transformações. Rio de Janeiro:DIFEL, 2018, p. 61; AQUINO, Felipe. Uma história que não é contada, Lorena: Cleofas, 2008, p. 106

[9] VERGER, Jacques. Universidade. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean Claude. Dicionário analítico do Ocidente medieval. v.II, São Paulo:Unesp, 2017, p. 641

[10] FOSSIER, Robert. As pessoas da idade média, Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 260

[11] MENDONÇA, Sonia. O mundo carolíngio. Coleção Tudo é história, n° 99, São Paulo:Brasiliense, 1985, p.83

[12] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 95

[13] https://en.wikipedia.org/wiki/Alcuin

[14] DELORT, Robert. La vie au moyen age, Lausanne:Edita, 1982, p.220

[15] GIES, Frances & Joseph. Cathedral, forge and waterwheel, New York: Harper Collins, 1994, p. 36



domingo, 23 de janeiro de 2022

A valorização do trabalho pelas ordens monásticas medievais

 

As regras monásticas de São Bento de Núrsia (480-547) considerado “o patriarca dos monges ocidentais” [1] destacam o valor do trabalho mas como obediência expiatória imposta ao homem em consequência do pecado original[2]. Pela Regra de São Bento capítulo 48(8): “quando eles vivem pelo trabalho de suas mãos, tal como nossos Pais e os apóstolos, então eles vivem como verdadeiros monges”.[3] Segundo o capítulo 48(1) da Regra (Regula) de São Bento: “a ociosidade é inimiga da alma; por isso, em certas horas devem ocupar-se os irmãos com o trabalho manual, e em outras com a leitura espiritual”.[4] A regra de São Bento contudo somente se tornou norma exclusiva dos mosteiros a partir do século IX. O texto da regra de São Bento é uma cópia do original feita por Tedomar, abade de Monte Cassino na época de Carlos Magno[5]. Segundo Jacques le Goff era a evolução de um trabalho penitência da Bíblia para um trabalho reabilitado que se tornava meio de salvação.[6] No século VI o monge Equitius quando convocado pelo papa a apresentar um relato de seu trabalho missionário apresentou-se aos mensageiros papais em vestes de camponês e com sandálias, segurando uma foice, o que mostra a dignidade de seu trabalho.[7] Segundo o testemunho de São Francisco de Assis: “Trabalhei com minhas mãos e ainda desejo trabalhar. Expressa a minha mais firme vontade que todos os outros irmãos exerçam algum tipo de trabalho manual que compreenda um modo de vida honesto. Os que não sabem como trabalhar devem aprender uma profissão, não por cupidez para poder receber o pagamento pelo trabalho, mas a fim de dar o bom exemplo e afastar o ócio”.[8] Reconhecendo o valor do trabalho manual na educação o monaquismo introduziu novos processos para os artífices de madeira, couro, metais e tecidos.[9] Foram alcançados progressos em muitas artes industriais como as de entalhe de madeira e fabricação de cerveja. [10] O evangelho Stonyhurst ou Evangelho de São João segundo São Cuthbert, é um pequeno evangeliário do século VII, escrito em latim, e com encadernação sofisticada em couro[11]. A regra de São Bento assimila as ferramentas do mosteiro, aos vasos e às mobílias sagradas cuja perda ou dano era considerado um sacrilégio.[12] Para Christopher Dawson “a regra de São Bento marca a assimilação final da instituição monástica ao espírito romano e à tradição da Igreja no Ocidente”. Segundo a regra “o mosteiro deve estar arranjado de tal forma que todas as coisas necessárias, como moinho de água, os jardins, hortas e oficinas se localizem dentro de sua área”.[13]



[1] AQUINO, Felipe. Uma história que não é contada, Lorena: Cleofas, 2008, p. 67

[2] LE GOFF, Jacques. Para uma outra idade média, Petrópolis: Vozes, 2013, p.150, 171, 211

[3] GIES, Frances & Joseph. Cathedral, forge and water wheel, New York:Harper Collins, 1994, p.9; http://www.movimentopax.org.br/saoBento/Regra%20de%20Sao%20Bento.pdf

[4] BOORSTIN, Daniel. Os descobridores, Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 1989, p.446

[5] COSTA, Ricardo da; VENTORIM, Eliane; FILHO, Orlando Paes. Monges medievais, São Paulo:Planeta, 2004, p.18

[6] GOFF, Jacques. Para um novo conceito de idade média. Lisboa:Editorial Estampa, 1979, p.14

[7] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 80

[8] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 256

[9] MONROE, Paul. História da educação. São Paulo:Cia Editora Nacional, 1974, p.105

[10] BURNS, Edward McNall. História da civilização ocidental, Rio de Janeiro:Ed. Globo, 1959, p.265

[11] SINGER, Charles; HOLMYARD, E. A history of technology, v.II, Oxford, 1956, p.169

[12] LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. Rio de Janeiro:Vozes, 2016, p. 191

[13] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 75



O império socialista dos incas

 

Entre os incas o regime de trabalho se assemelhava a um coletivismo[1] uma vez que o índio possui privativamente a colheita de sua tupu/tupo, ou seja, o lote de terra[2]. Entre os ayllus andinos se pode dizer que cada criança nascia com o futuro garantido porque cada homem dentro da comunidade tinha seu tupo de terra garantido e cada mulher meio tupo[3]. Ayllu é a unidade social básica baseada no coletivismo, o nome dado às comunidades étnicas da área andina, ligadas entre si por laços de parentesco. A terra constituía propriedade estatal trabalhada coletivamente.[4] Mesmo na capital Cusco a cidade também se organizada em comuna aylly.[5] Coexistia entre os incas três regimes de propriedade: a propriedade nacional que incluía edifícios públicos, pastos e minas; a propriedade coletiva com exploração comum ou familiar e a propriedade privada de terras provenientes de doações, esta última menos importante.[6] O direito de propriedade era, portanto, muito limitado entre os incas. Na vida cotidiana os jatunrunas (a grande massa da população submetida ao trabalho compulsório[7]) não distinguiam entre a propriedade pessoal e a estatal, pois dentro da comunidade não se permitia a propriedade privada do solo, de modo que os informes da época se referiam “terras dos incas”.[8] Os produtos eram compartilhados pela comunidade segundo suas necessidades ficassem o remanescente controlado pelo Estado[9]. Nos ayllu todos os membros do grupo  eram solidários e herdavam em comum a marca, terreno inalienável que era dividido em parcelas, em que a cada ano se procedia novas redistribuições. Cada ayllu era comandado por um líder eleito, o mallcu orientado por um conselho de anciãos, os amautas. Os domínios do Estado eram atribuídos as linhagens imperiais (panac). Paralelamente a este domínio estatal os curaca mais importantes possuíam terras particulares, no entanto, mesmo o nobres não tinham o direito de desfrutar de mais terra do que o necessário para subsistência de sua família.[10] Entre os incas não haviam escravos senão campesinos submetidos a prestações de serviços calculadas por turnos, uma vez que a ninguém se obrigava a trabalhar por toda sua vida.[11] No período tardio sob Huayna Capac haviam os pina y pinacuna (em quéchua o plural é feito adicionando-se a partícula cuna)[12], prisioneiros de guerra, que poderiam se enquadrar como escravos, contudo não há registro de tráfico de pinas.[13] Os yana eram “servidores perpétuos”  que serviam à aristocracia nos palácios, templos e campos, e podem constituir uma escravatura disfarçada, ainda que pudessem ser vistos na sociedade como uma mão de obra privilegiada pelo contato estreito com a nobreza.[14] A estrutura política era altamente hierarquizada na forma de uma pirâmide em que no topo estava o Sapa Inca. Na base da pirâmide estavam os puric, homens trabalhadores. Cada dez homens tinham como chefe o cancha camayoc. A cada dez cancha camayoc estavam submetidos em supervisor pachaca curaca que por sua vez estavam submetidos ao hono curaca da tribo e ao governador.[15] Em 1928 Louis Baudin publicou O império socialista dos incas em que critica a perspectiva do testemunho de Garcilaso de la Veja que descreve a bondade e sabedoria dos imperadores como elemento de união da sociedade inca. Louis Badin ao contrário destaca o papel da violência para imposição de uma ordem baseada em um comunismo agrícola[16]. José Carlos Mariategui, o fundador do marxismo latino-americano, se refere a comunismo inca, para descrever as comunidades indígenas (ayllus) na base da sociedade inca anterior à colonização hispânica: “o socialismo, afinal, está na tradição americana. A mais avançada organização comunista primitiva que a história registra é a inca”.[17] Waldemar Soriano destaca diversas teses que buscam explicar a forma de organização do império inca: comunismo agrário, socialismo totalitário, escravismo patriarcal, feudalismo, modo de produção comunal tributário conhecido como modo de produção asiático, ou algum modo de produção andino sui generis, no entanto ele reconhece que é possível identificar a coexistência de diferentes modelos.[18] Henri Favre argumenta baseado nos trabalhos de John Murra que a sociedade inca tinha muito mais analogia com a África e Oceania contemporâneas do que com a Europa medieval.[19] De qualquer forma como observado por Toynbee pouquíssimas sociedades no mundo conseguiram alcançar tal grau de desenvolvimento de forma isolada, sem contato com outros povos.[20]



[1] CLARK, Grahame. A pré história, Rio de Janeiro:Zahar, 1975, p. 278

[2] BAUDIN, Louis. El império socialista de los incas, Santiago Chile:Ediciones Rodas, 1973, p.197

[3] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 158

[4] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.74

[5] HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 46

[6] BAUDIN, Louis. El império socialista de los incas, Santiago Chile:Ediciones Rodas, 1973, p.204

[7] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 226

[8] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 199

[9] BAUDIN, Louis. A vida quotidiana dos últimos incas, Lisboa:Ed. Livros do Brasil, p. 232, 239

[10] VALLA, Jean Claude. A civilização dos incas, Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1978, p. 223

[11] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 284

[12] HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 44

[13] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 294

[14] VALLA, Jean Claude. A civilização dos incas, Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1978, p. 230

[15] HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 46

[16] VALLA, Jean Claude. A civilização dos incas, Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1978, p. 214

[17] MARIÁTEGUI, José Carlos. Por um socialismo indo-americano: ensaios escolhidos. (seleção de Michael Löwy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005. TIBLE, Jean. José Carlos Mariátegui: Marx e América Indígena, cadernos cemarx, nº 6 – 2009, p.97-114

[18] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 492

[19] FAVRE, Henri. A civilização inca, Rio de Janeiro: Zahar, 1987, p.30

[20] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 498



Doação de Constantino

  Marc Bloch observa a ocorrência de falsificações piedosas tais como a pseudo doação de Constantino ( Constitutum Donatio Constantini ) ao ...