sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

A revolução cultural dos mosteiros medievais

 

Alguns eixos do renascimento cultural do século XII incluem i) os humanistas da escola de Chartres como Constantino Africano, Adelardo de Bath, Bernardo de Chartres (1124-1130) entre outros, ii) os monges Bernardo de Claraval (1091-1153) e Hugo de São Vítor (1096-1141) que renovaram os mosteiros cristãos.[1] Para Christopher Dawson: “qualquer estudo sobre as origens da cultura medieval deve inevitavelmente conceder um papel central ao estudo do monasticismo ocidental, já que o mosteiro constitui a mais típica instituição cultural de todo o período que se estende do declínio da civilização clássica ao aparecimento das universidades europeias no século XII, compreendendo sete séculos”.[2] Christopher Dawnson mostra como os mosteiros a partir do século VII, como os São Gall na Suíça (750), Kremsmunster na Áustria (777) ou Nova Corvey na Saxônia (822) entre outros se mostram como colônias de um novo tipo de cultura medieval. Não se trata de comunidades religiosas que seguem uma regra monástica, mas um complexo que reunia igrejas, armazéns, escolas, oficinas, asilos[3]. A catedral de Chartres foi construída no mesmo local antes havia uma igreja que abrigava a túnica sagrada da Virgem Maria, um presente de Carlos o Calvo, que Carlos Magno havia recebido do imperador de Bizâncio no século IX.[4] O bispo Fulberto que lecionou na escola episcopal de Chartres entre 1006 e 1028 foi discípulo de Gerbert de Aurillac, o papa Silvestre II, e tornou Chartres um grande centro de aprendizagem e foco de peregrinações, refúgio de erudição e conhecimento, onde lecionariam Bernardo de Chartres, o bispo Gilbert de la Porrée / Gilbert de Pointiers, Yves / Ivo de Chartres mestre em direito canônico, Thierry de Chartres e o bispo João de Salisbury, entre outros. Thierry de Chartres mostrou que o triium (gramática, dialética e retórica) e quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) eram apenas um meio e que o fim era “formar almas na verdade e na sabedoria”. Christopher Dawson atribui a escola catedral de Chartres o status de protouniversidade sendo que ao tempo de Bernardo e Thierry de Chartres  e seu discípulo Guilherme de Conches rivalizava com Paris como centro de filosofia.[5] Nos tratados educacionais  escritos por Thierry e Guilherme de Conches, o Heptateuchon e o Dragmaticon estão descritos em detalhes os métodos educacionais usados em Chartres. O concílio de Latrão III no canon 18 decidiu: “ordenamos, portanto, que em todas as igrejas catedrais se proveja um rendimento conveniente a um mestre, encarregado de ensinar gratuitamente aos clérigos dessa igreja e a todos os alunos pobres”. Thierry de Chartres (1100-1150) era chanceler da escola e defendia a tese de que os corpos celestes não eram divinos ou feitos de uma matéria incorruptível, mas pelo contrário, feitos da mesma matéria que as coisas terrenas e sujeitas à mesma ordem. Segundo Thomas Goldstein: “Thierry provavelmente será reconhecido como um dos verdadeiros fundadores da ciência do Ocidente”.[6] O Concílio de Latrão (1123) obrigou a todas as dioceses a abrirem uma escola episcopal. Outras escolas episcopais que se destacaram foram a de Orleans em que lecionava Santo Aignan, a de Avranches com Anselmo de Bec (1033-1109) e a de Paris na França onde se formaram vários bispos, Canterbury e Durham na Inglaterra, Toledo no Espanha, Bolonha, Salerno e Ravena na Itália. [7]

[1] JANOTTI, Aldo. Origens da Universidade, São Paulo: Edusp,1992, p.77

[2] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 71

[3] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 92

[4] MURPHY, Tim Wallace. O código secreto das catedrais. São Paulo:Pensamento, 2007, p. 166

[5] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 227

[6] AQUINO, Felipe. Uma história que não é contada, Lorena: Cleofas, 2008, p. 166

[7] ROPS, Daniel. A Igreja das catedrais e das cruzadas. São Paulo: Quadrante, 2012, p. 343



Migrações forçadas no período dos incas

 

Próximo a Cusco foram encontradas ruínas das termas de Tambomachay[1] conhecido como “Banho Inca”. Na língua quíchua tambo significa lugar de repouso e de abastecimento, enquanto machai significa gruta. Terraços artificiais sugerem que o local era usado para banhos termais.[2] Elizabeth Baity, destaca a falta de liberdade do povo inca: “ninguém estava livre para mudar de ofício ou procurar melhorar a sua sorte. Nenhuma jovem inca podia ter esperanças de progredir”.[3] As estradas que totalizam algo como 40 mil quilômetros tinham um papel vital na unificação do império inca[4], entre as quais se destacam as estradas de Tumbes no Peru a Maule no centro sul do Chile (caminho Qhapac Nan), e a estrada de Pasto a Cuyo em Mendoza na Argentina.[5] Waldemar Soriano destaca que as estradas incas não tinham como proposta a unificação do império nem para o desenvolvimento do comércio ou movimentação de campesinos, mas atendia finalidades migratória planejadas pelo Estado e para servir de caminho para os mensageiros, bem como translado dos guerreiros[6]. Os povos dominados pelos incas eram muitas vezes forçados a migrar em massa para outras partes do império para trabalhar como escravos em uma ação conhecida como mitmaquna. Tais contingentes de pessoas era conhecido como mitimaes. Estima-se que tais migrações forçadas tenham atingido de 20% a 30% da população. No começo do século XVI o rei Huayna Cápoac ao conquistar a região de Cochabamba na Bolívia ordenou a remoção de praticamente todos os moradores da região. Pedro Sarmiento de Gamboa narra que “o imperador obrigava os mitimaes a aprender a língua da nação para onde eles mudavam, sem esquecer a língua geral, o quéchua / Keshua, que todos das províncias conquistadas deveriam aprender e saber”.[7] O termo quéchua significa “povo do vale quente”.[8]



[1] Focus Filmes. DVD. Os segredos da arqueologia. Os caminhos até o Eldorado, Novara, Itália, v.5, 2002

[2] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.221

[3] BAITY, Elizabeth Chesley. A América antes de Colombo. Belo Horizonte:Itatiaia, 1963, p.192

[4] COE, Michael. Antigas Américas, mosaico de culturas, v. II Madrid:Ed. Del Prado, 1996, p. 201

[5] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 388

[6] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 391

[7] NARLOCH, Leandro. Guia politicamente incorreto da América Latina, Rio de Janeiro: Leya, 2011, p. 92

[8] HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 43



quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

O povo chimu

 

Os povos chimus e mochica construíram uma vasta rede de canais de irrigação no vale do Moche para o transporte de água. [1] Um sistema de canais que corre através do templo garantia o uso ritual da água, de origem glaciar, do rio Huachesca. Nas margens do lago Titicaca o povo chimu desenvolveu um sofisticado sistema de irrigação. Charles Ortloff acredita que um instrumento em forma de tigela com água mantida no museu arqueológico do Peru foi utilizada como meio de nivelamento para construção dos canais. [2] No vale do Moche por volta de 1300 d.c. os soberanos da dinastia chimu escolheram Chan Chan (próxima a atual cidade de Trujillo) como capital dotada de jardins irrigados, cisternas e canalização artificial que partia dos vales acima do vale Moche para abastecer a cidade de água. [3] Segundo Louis Baudin as técnicas herdadas dos chimus mostram que “os soberanos de Cusco não destruíram nenhum centro de cultura, haviam sabido aproveitar a escola dos vencidos”.[4] Waldemar Soriano contudo mostra que os incas de Cusco dotados de uma “missão civilizadora” reconstruíram a história de modo a apresentar-se como salvador dos povos[5] e apagaram da história os registros do povo chimu.[6]



[1] LEAKEY, Richard. A evolução da humanidade, Brasília: UNB, 1981, p. 198

[2] TIME LIFE BOOKS, Incas: Lords of gold and glory. Alexandria, 1992, p.104

[3] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.181

[4] BAUDIN, Louis. El império socialista de los incas, Santiago Chile:Ediciones Rodas, 1973, p.427

[5] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 484

[6] HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 30



A cultura Tiahuanaco pré incaica

 

Luís Valcarcel em artigo na Illustrated London News de 1937 encontra similaridades de cerâmica em policromia com motivos geométricos da arte de Tiahuanaco[1] com a cerâmica de Marajó[2]. Tiahuanaco, nas proximidade do lago Titicaca no Peru esteve ocupada de 1500 a.c. a 1200 d.c. [3] O apogeu do império de Tiahuanaco data de 500 d.c. [4] Arthur Posnansky em Tiahuanaco, berço do homem americano, publicado em 1914, defende a tese de que a cidade era uma metrópole, capital política e santuário religioso com influência sobre toda a América do Sul. A cidade teria sido submergida em 500 a.c. pelo avanço das águas do lago Titicaca e reconstruída por volta do ano 800 quando viveu novo período de prosperidade por apenas um século [5]. Com a invasão inca a cidade já era conhecida como “cidade dos mortos”. Em 1540 Cieza de León testemunhou a ruínas encontradas da cidade de Tiahuanaco, as quais sequer os índios mais antigos da região na época sabiam dizer a origem de tais construções [6]. As culturas chavin, mochica e nazca representam um ápice, enquanto Tiahuanaco um período intermediário que se encerra com a civilização inca que se inicia por volta do ano 1000 e a destruição pelos espanhóis e 1532.  Entre as estruturas monolíticas encontradas em Tiahuanaco está o monólito de Ponce de 3,5 metros e 17 toneladas que recebe o nome do arqueólogo boliviano seu descobridor [7]. Nos dias de equinócio na posição do monólito pode-se contemplar o sol nascente que passa diretamente pela porta do templo de Kalasaya à sua frente. As muralhas do Kalasaya era providas de bicas para vazão de águas dispostas acima de pequenas cubas ligadas entre si por um canal em forma de U.[8]



[1] RIBAS, Ka W. A ciência sagrada  dos Incas, São Paulo:Madras, 2008, p. 32

[2] BRION, Marcel. A ressurreição das cidades mortas, Rio de Janeiro:Ferni, 1979, p.291

[3] COE, Michael. Antigas Américas, mosaico de culturas, v. II Madrid:Ed. Del Prado, 1996, p. 189

[4] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.19

[5] LISSNER, Ivar. Assim viviam nossos antepassados. Belo Horizonte: Itatiaia, 1968, p. 274

[6] HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 29

[7] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.196

[8] WAISBARD, Simone. Tiahuanaco: 10000 anos de enigmas incas. São Paulo:Hemus, 1971, p. 190



A huaca del sol

 

O povo mochica dominou o Peru do século I a VI d.c. se destaca pela cerâmica e pela construção próximo a Trujillo da Pirâmide do Sol ou “Huaca del sol” em Teotihuácan[1], uma enorme construção de adobe com 65 metros de altura, tendo altura original de 48 metros[2] e mais de 130 milhões de tijolos em adobe secos pelo sol que data do século I a.c. que é considerada a sendo a maior estrutura pré-colombiana de adobe construída nas Américas e está virada para a pirâmide da lua a “Huaca del luna” que data 450 d.c.[3] Estes nomes foram dados arbitrariamente pelos conquistadores espanhóis pois na verdade, não se sabe o nome das divindades cultuadas nestes templos[4]. A linha que une o centro da pirâmide da lua ao da pirâmide do Sol coincide com o meridiano astronômico, ou seja, à linha norte-sul.[5] Os mochicas de destacavam pela ourivesaria e cerâmicas.[6]



[1] LEONARD, Joathan. América pré colombiana, Rio de Janeiro:José Olympio Editora. Biblioteca de História Universal Life, 1971, p.44; LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.36, 170

[2] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.30

[3] TOTH, Max; NIELSEN, Greg. A força das pirâmides, São Paulo:Record, 1976, p.28; LONGHENA, Maria. O México antigo, Barcelona:Folio, 2006, p. 170

[4] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.170

[5] CARVALHO, Benjamin de Araújo. A história da arquitetura, Rio de Janeiro:Edições de Ouro, p.132

[6] COE, Michael. Antigas Américas, mosaico de culturas, v. II Madrid:Ed. Del Prado, 1996, p. 187



quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O regicídio e a expulsão dos jesuítas

 

Quando do atentado do rei de Portugal D. José em setembro de 1758 Pombal lançou suspeitas sobre o envolvimento de padres jesuítas desencadeando uma perseguição que iria culminar em 1759 com a extinção da Companhia de Jesus em Portugal.[1] Em janeiro de 1759 seis nobres e cinco plebeus foram executados acusados de participar da tentativa de assassinato. O jesuíta Gabriel Malagrida, confessor de uma das nobres executadas marquesa de Távora, também teria participação no atentado, segundo Pombal. Para o padre Gabriel Malagrida, que esteve em missão no Maranhão e Bahia, o terremoto de Lisboa de 1755 fora um sinal da indignação de Deus aos escândalos de desordens da Corte uma vez que nas cidades vizinhas, onde a ruína não foi tão grande, “fizeram e ainda fazem maravilhas de penitências, pés descalços, cruzes, açoites, jejuns a pão e água e outras mortificações infinitas”.[2] Segundo Malagrida em “O Juízo da verdadeira causa do terremoto que padeceu a corte de Lisboa” a causa do terremoto  “[…] não são Cometas; não são Estrelas; não são vapores, ou exalações, não são Fenômenos, não são contingenciais ou causas naturais; mas são unicamente os nossos intoleráveis pecados”. Como forma de aplacar a ira de Deus, Voltaire em Cândido publicado em 1759 relata a realização de um ato da fé em Lisboa de modo a evitar a repetição do terremoto do 1755: “decidiu-se na Universidade de Coimbra que o espetáculo de algumas pessoas queimadas aos poucos na fogueira em uma grande cerimônia é o segredo infalível para impedir que a terra trema”.[3] Essa passagem, reproduzida por Fernando Cacciatore como histórica, na verdade é trecho de uma estória ficcional do conto de Voltaire, ao contrário, houve uma mobilização intensa para abrigo e assistência à população atingida.[4] Francisco Bethencourt mostra que enquanto a média de processos por ano em Lisboa eram de 37 no período 1675-1750, este número cai à metade e chega a 18 entre 1751 e 1767, ou seja, após o terremoto o número de processos diminuiu[5]. O marquês de Pombal em 1759 decide expulsar os jesuítas do Brasil, em 1768 irá suprimir a diferença entre cristãos novos e cristãos velhos e em 1769 transformar o tribunal da Inquisição em tribunal dependente do governo real reforçando o poder central e secularizando a justiça. Segundo Oliveira Martins: “Abolindo as distinções entre cristãos novos e velhos, abolindo a escravidão no reino, equiparando os canarins [nascidos nas ilhas Canárias] aos portugueses, dando por uma vez a liberdade aos índios do Brasil – o reformador nivelava todas as classes perante o trono absoluto, varrendo parte do sistema de categorias individuais legado pelas tradições da Idade Média”[6]. Ao combater o poder religioso dos jesuítas e do Santo Ofício, a tirania absolutista de marquês de Pombal se constitui um “instrumento de liberdade” nas palavras de Oliveira Martins.[7] Gabriel Malagrida foi entregue ao tribunal do Santo Ofício de Lisboa acusado de heresia e posteriormente condenado ao garrote e fogueira em 1761, no Rossio, a praça principal de Lisboa.[8] Para José Eduardo Franco, a morte de Malagrida resultado da perseguição aos jesuítas imposta por Pombal representou foi um ato o qual “simbolizando a fogueira que o queimou a destruição de toda a Companhia de Jesus”[9]. Em 1777, após a queda de Pombal o padre Pedro Homem denunciou que o livro sobre Santa Anna onde supostamente o padre Malagrida teria feito profecias contra a Igreja identificando-a como o anti Cristo, que fundamentou o processo de heresia, na verdade foi uma construção arquitetada por Pombal: “Quanto á obra sobre o Anti-christo—acrescentou o padre Homem, não foi auctor d'ella Malagrida ; mas sim o infame padre Platel, o ex-capuchinho Norbert, estipendiado por Pombal para caluniar os seus adversários. Este miserável recebia pelo seu infame mister uma pensão de 1:300$000 rs.”[10].  Entre a sentença dos Távaros incriminando judicialmente os jesuítas e 1773 quando a Companhia foi extinta por Roma, houve uma campanha antijesuítica capitaneada pelo marquês de Pombal, ao ponto de José Eduardo Franco se referir a um “antijesuitismo de Estado”. Numa das imagens da época Pombal aparece como o herói iluminado a vencer o monstro da Ordem dos Jesuítas, representado por uma Hidra de Lerna que Hércules exterminou em um de seus doze trabalhos, demonstrando o pioneirismo português no extermínio do mal jesuítico. Muitos dos livros antijesuítas eram impressos em Roma com falsas indicações de terem sido impressos em Paris, Lisboa, Genova, Veneza, Nápoles para inflar a rede de oposição aos jesuítas. Miguel Sotto Mayor sugere que esta campanha envolveu a negociação da ilha de Santa Catarina aos espanhóis ocupada por tropas do general Ceballos entre 1762 e 1777. Pombal teria proposto a invasão dos Estados Pontíficios para forçar o papa a decretasse o fim da ordem dos jesuítas.[11] Pedro Ceballos foi governador da Província de Buenos Aires de 1757 a 1766, e com a criação do Vice-Reinado do Rio da Prata, em 1776, foi nomeado seu primeiro vice-rei. Na França a ordem dos jesuítas  foi extinta em 1764, na Espanha em 1767, Nápoles e Sicília em 1768.[12] Entre as colônias espanholas, os jesuítas da cidade de Assunção do Paraguai que trabalhavam com povos guaranis já haviam sido expulsos do colégio em 1612, 1649, 1724 e 1732 de modo que esta será quinta expulsão.[13] O papa Clemente XIV tendo cedido as pressões e "em nome da paz da Igreja e para evitar uma secessão na Europa" suprimiu a Sociedade de Jesus pelo breve Dominus ac Redentor de 21 de julho de 1773, ano em foi decretada a abolição da escravatura em Portugal. Para José Franco o ato representou uma vitória do pensamento iluminista contra a Igreja redefinindo as relações entre Igreja e Estado no caminho da secularização da sociedade. Wilson Martins observa que o fato de uma das principais aplicações da triaga brasílica fabricada pelos jesuítas era como antídoto a envenenamentos, alimentava no imaginário popular as suspeitas contra os jesuítas de terem envenenado o papa Clemente XIV, poucos meses depois, em 1774. O marquês de Pombal ao saber da morte do papa acusa os jesuítas “que o teriam envenenado com a sua mítica e indetectável acqua toffana para vingar esta medida papel [a extinção da Ordem dos jesuítas]”. [14]

[1] TOLEDO, Roberto Pompeu de. A capital da solidão, Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p. 240

[2] MURY, Paulo. Historia de Gabriel Malagrida. Lisboa, 1825 p.xxi http://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/biblio%3Amury-1875-malagrida/historiadegabrie00mury.pdf

[3] GARCIA, Fernando Cacciatore. Como escrever a história do Brasil, Porto Alegre: Sulina, 2014, p. 105

[4] MARQUES, José Oscar. Voltaire e um episódio da história de Portugal. Workshop Intelectuais e poder: elementos para a análise do discurso político, Universidade Estadual de Londrina, 10 de setembro de 2004, Mediações: Revista de Ciências Sociais, Londrina, v.9, n.2, p.37-52 https://www.unicamp.br/~jmarques/pesq/VoltaireHistPort.pdf

[5] BETHENCOURT, Francisco. História das inquisições, São Paulo: Cia das Letras, 2000, p. 315

[6] MARTINS, Oliveira. História de Portugal, Lisboa:Versial, 2010, p. 364, Edições Kindle

[7] MARTINS, Oliveira. História de Portugal, Lisboa:Versial, 2010, p. 375, Edições Kindle

[8] AZEVEDO, Lúcio. O marques de Pombal e sua época. Rio de Janeiro: Anuário Brasileiro, 1909, p.208

[9] FRANCO, José Eduardo. O triunfo internacional do antijesuitismo pombalino. In: BRASIL, Jesuítas. Bicentenário da restauração da Companhia de Jesus (1814-2014), São Paulo: Loyola, 2014, p.99

[10] MURY, Paulo. Historia de Gabriel Malagrida. Lisboa, 1825 p.174

[11] FRANCO, José Eduardo. O triunfo internacional do antijesuitismo pombalino. In: BRASIL, Jesuítas. Bicentenário da restauração da Companhia de Jesus (1814-2014), São Paulo: Loyola, 2014, p.121; Flores, Maria Bernadete Ramos. Os espanhóis conquistam a Ilha de Santa Catarina: 1777. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2004

[12] PAICE, Edward. A ira de Deus, São Paulo:Record, 2010, p.238

[13] MELIÁ, Bartolomeu. Añorada e esquiva missón. In: BRASIL, Jesuítas. Bicentenário da restauração da Companhia de Jesus (1814-2014), São Paulo: Loyola, 2014, p.155

[14] FRANCO, José Eduardo. O triunfo internacional do antijesuitismo pombalino. In: BRASIL, Jesuítas. Bicentenário da restauração da Companhia de Jesus (1814-2014), São Paulo: Loyola, 2014, p.128



Cultura Paracas

 

Tecidos e cerâmicas se destacavam na arte maia.[1] Um dos fragmentos de fibras vegetais trançadas mais antigo encontrados no Peru data de 3500 a.c.[2] Na caverna Guitarrero foram encontrados tecidos de fibras vegetais trançadas de cerca de 5780 a.c.[3] Os primeiros fragmentos de tecidos em algodão foram encontrados em Huaca Prieta no vale do Chicama datados de 2500 a.c.[4] Entre os incas fragmentos têxteis de tecido encontrados na península de Paracas no sul do Peru datam de 300 a.c.[5] usados em rituais funerários. Os desenhos alternam simetricamente o uso de cores. Ora o fio de urdidura é de qualidade e cor diferente do fio da trama, ora apresenta cores diferenciadas, as vezes com fios de ouro e prata.[6] Os incas conheciam a técnica do brocado, um tipo de tecido ricamente decorado, feitos em seda colorida, e com relevos bordados geralmente a ouro ou prata. O brocado utiliza a técnica de trama suplementar, que é adicionada à trama padrão que mantém juntos os fios do urdume. Segundo Sarmiento a técnica foi invenção do inca Viracocha.[7] Dos monastérios do Sol incas eram produzidas várias espécies de tecidos entre as quais os famosos chumpi ou kumpi.[8] Em quéchua, paracas significa tempestade de vento. A cultura Paracas e de Nazca representam uma única tradição que data de 500 a.c. a 600 d.c. Os artesãos de Nazca ao contrário de seus predecessores de Paracas, produziam peças de terracota aplicando os pigmentos de cor após a cocção, preservando as mesmas formas de expressão artística.[9] Após a cocção quando o vaso estava totalmente seco, a sua superfície era polida até brilhar. Os artesãos nazcas conseguiam uma gama de 13 cores com uso de substâncias como óxido de ferro, manganês e argila branca ou ocre.[10] Os povos incas meridionais como em Paracas, Nazca, Chancai e os sítios arqueológicos da época Huari se destacam no setor têxtil e seu clima árido possibilitou a conservação dos frágeis materiais orgânicos como fibras de algodão, lá e penas.[11] Os incas não mencionam em seus registros sobre a existência da cultura Paracas. [12]



[1] BAITY, Elizabeth Chesley. A América antes de Colombo. Belo Horizonte:Itatiaia, 1963, p.134

[2] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.18

[3] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.109

[4] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.109, 138

[5] MacGREGOR, Neil. A história do mundo em 100 objetos, Rio de Janeiro:Intrínseca, 2013, p.187; FAGAN, Brian. Los setenta grandes inventos y descobrimentos del mundo antiguo, Barcelona:Blume, 2005, p. 54

[6] BAUDIN, Louis. A vida quotidiana dos últimos incas, Lisboa:Ed. Livros do Brasil, p. 182, 205

[7] BAUDIN, Louis. El império socialista de los incas, Santiago Chile:Ediciones Rodas, 1973, p.330

[8] FAVRE, Henri. A civilização inca, Rio de Janeiro: Zahar, 1987, p.85

[9] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.40

[10] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.103

[11] LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.113

[12] HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 24



Doação de Constantino

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