sábado, 19 de dezembro de 2020

Carros de combate egípcios

 

Walter Ceram destaca o uso da carreta leve de batalha com rodas puxada por cavalos adestrados como uma invenção decisiva dos hititas na batalha de Kadesh entre o faraó egípcio Ramses II e o rei hitita Muwatallis em 1285 a.c. tendo revolucionado a estratégia militar[1]. Cada carreta de guerra hitita leva três homens: o condutor e um guerreiro a cada lado dele [2]. Leonard Wooley descobriu carretas sumerianas antigas datando de 3000 a 2700 a.c nos túmulos reais de Ur. [3] Uma caixa de madeira com mosaico incrustado encontrado no cemitério real de Ur no Iraque datada de 2600 a.c. revela uma das representações de bigas mais antigas.[4] Os cassitas (1530 a.c.) mostram o uso de carros com duas rodas que usualmente transportava dois soldados sendo um na direção dos cavalos.[5] As charretes introduzidas foram importantes para Mesopotâmia intensificar o comércio com os povos da costa da Anatólia e o Levante.[6] Da Síria tais carretas foram difundidas rapidamente para o Egito que já são mencionadas em obras da XVIII dinastia.[7] Um relicário guarda joias mostra cena de guerra do faraó Tutancamon “o mais destemido do que nenhum outro” em campanha na Núbia, encontrada na tumba de Tutankamon (1333-1323 a.c.). Um baixo relevo no templo de Beit el Qualli na Núbia mostra Ramsés II conduzindo um carro de origem hitita.[8] No milênio II a.c. na região de Fezzan na África são identificados cenas de carros com duas rodas puxados por cavalos a galope.[9] O uso do carro de duas rodas explica o sucesso dos invasores bárbaros na Suméria, Acádia e Egito no século XVIII a.c.[10] A Bíblia em 1 Reis 10:28 se refere as importações de Israel de quadrigas trazidas do Egito: “E traziam do Egito, para Salomão, cavalos e fio de linho; e os mercadores do rei recebiam o fio de linho, por um certo preço. E subia e saía um carro do Egito por seiscentos siclos de prata, e um cavalo por cento e cinqüenta; e assim, por meio deles, eram exportados para todos os reis dos heteus e para os reis da Síria”.

[1]STROUHAL, Eugen. A vida no antigo Egito. Barcelona:Folio, 2007, p. 209; STROUHAL, Eugen. A vida no antigo Egito. Barcelona:Folio, 2007, p. 208

[2] CERAM, Walter. O segredo dos hititas, Belo Horizonte:Itatiaia, 1961, p. 155; RACHET, Guy. Readers's Digest. As grandes civilizações desaparecidas, Lisboa:1981, p.105

[3] COON, Carleton. A história do homem. Belo Horizonte:Itatiaia, 1960, p.248

[4] MacGREGOR, Neil. A história do mundo em 100 objetos, Rio de Janeiro:Intrínseca, 2013, p.106

[5] ROBERTS, J.M. history of the world, Oxford University Press, 1992, p.72

[6] HODGES, Henry. Technology in the ancient world, New York: Barnes & Noble Books, 1970, p. 137

[7] MONTET, Pierre. O Egito no tempo de Ramsés: a vida cotidiana, Sâo Paulo:Cia das Letras, 1989, p.243

[8] Readers's Digest. As grandes civilizações desaparecidas, Lisboa:1981, p.118

[9] Grande História Universal: o princípio da civilização, Barcelona:Folio, 2001, p.79

[10] TOYNBEE, Arnold. A humanidade e a mãe terra, Rio de Janeiro:Zahar, 1976, p.126



quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Ouro de Ofir

 

Eudoxo relata uma tentativa fracassada de circunavegação da África.[1] Há um relato de Heródoto que revela uma expedição fenícia que teria circunavegado a costa africana em 600 a.c. comissionada pelo faraó Necho / Neco em viagem que durou três anos [2]. Estrábão relata a crença de Erastótenes na possibilidade de alcançar a Índia pelo oriente, enquanto que um século mais tarde Eudóxio de Cízico empreendeu a circunavegação da África [3]. Um friso do templo da rainha Hatshepsut, herdeira de Tutmósis I, em Deir el Bahari em Tebas no Egito mostra o príncipe Parehu / Parihu e sua mulher a rainha Ati / Puanit uma dama da chamada Terra Punt / Punto, atual Somália,[4] de onde havia sido encaminhada uma frota de navios em 1940 a.c para uma expedição para aquisição de grandes quantidades de ouro, madeira nobre e incenso [5] obedecendo a um oráculo do deus Amon [6]. Esta dama apresenta formas corpulentas que a aproxima das características de esteatopigia, hipertrofia das nádegas ocasionada pelo acúmulo natural de gordura na região, sobretudo em tribos da África meridional, como bosquímanos e hotentotes [7]. Segundo 1 Reis10:11 se refere ao comércio de Israel com Ofir que envolve ouro, madeira e pedras preciosas. Herbert Wendt aventa a possibilidade do Ofir bíblico e o Punt egípcio serem o mesmo local e que revela uma comunicação comercial do Egito com a África meridional. Paul Herrmann sugere tratar-se do Zambese ou da Somália [8]. Para Herbert Wendt o príncipe representado no mesmo friso tem cabelo curto [9], usa barba e tem traços europeus o que pode revelar que em Ofir/Punt na África do Sul havia a presença de europeus, o que reforçaria a informação de Heródoto da existência desta comunicação. Imannuel Velikovsky observa que as embarcações não poderiam ter retornado por mar uma vez que na época não havia canal de Suez, de modo que os produtos teriam de retornar por caravanas pelo deserto [10]. Uma descoberta recente no norte de Quseir confirmou que as expedições a Punt se faziam por mar.[11] Paul Herrmann observa que embora não haja documentação sobre o conhecimento dos egípcios sobre as monções, é uma hipótese bastante razoável diante do tráfego regular com o Punt realizado durante a sexta dinastia.[12] O espanhol Arias Montano publicou em 1539 a obra Antiguidades Judaicas onde afirma que os indígenas nas Américas eram descendentes de judeus. A palavra Peru seria um anagrama de Ofir o país oriental onde os judeus buscavam ouro em troca de mercadoria de valor. O Peru tal como Ofir seria muito rico em ouro e a palavra índio seria uma corruptela de iudio em referência aos judeus colonizadores. [13]



[1] CANTU, Cesare. História Universal, v. IV, São Paulo:Editora das Américas, 1958, p.132

[2] STEVERS, Martin. A inteligência através dos séculos. São Paulo:Globo, 1946, p.255; ROSS, Norman. The epic of man, Life Magazine, 1962, p. 133

[3] HARRIS, J. O legado do Egito, Rio de Janeiro:Imago, 1993, p.342

[4] MATTOSO, Antonio. História da civilização, Lisboa:Ed Sá da Costa, 1952, p.46; JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito. Rio de Janeiro:Ediouro, 2002, p. 61

[5] HERRMANN, Paul. As primeiras conquistas. São Paulo:Boa Leitura Editora, 3ª edição, p. 61, 62, 65

[6] KELLER, Werner, E a Bíblia tinha razão, Sâo Paulo: Melhoramentos, 1964, p.176

[7] STROUHAL, Eugen. A vida no antigo Egito. Barcelona:Folio, 2007, p. 244

[8] HERRMANN, Paul. As primeiras conquistas. São Paulo:Boa Leitura Editora, 3ª edição, p. 70

[9] TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu egípcio do Cairo, White Star Pub, 1998, p.165

[10] WEST, John Anthony. The traveler’s key to ancient Egypt, New York:Quest, 2012, p. 349

[11] MOKHTAR, Gamal. História geral da África, II: África antiga, Brasília : UNESCO, 2010, p.110

[12] HERRMANN, Paul. As primeiras conquistas. São Paulo:Boa Leitura Editora, 3ª edição, p. 65

[13] AQUINO, FERNANDO, GILBERTO, HIRAN. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo:Record, 2000, p.16



quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

De antípodas a desalmados

 

A escolástica de Alberto Magno em De natura locorum (1250) e Roger Bacon em Opus Majus (1264) apontavam a existência de uma terra habitada entre os antípodas.[1] O termo antípoda designa as regiões situadas do outro lado da Europa, a origem do termo é grega significando literalmente "pés opostos" (as pessoas que habitariam nos antípodas caminhariam "ao contrário"). Para aqueles que imaginavam a Terra chata como um disco, não poderiam existir antípodas. A descoberta do novo continente da América ignorado por autoridades como Ptolomeu representou um contundente questionamento à autoridade do conhecimento dos antigos. Segundo Ian Mortimer: “A última década do século XV foi, portanto, nada menos do que uma época de revolução na cognição humana: o brusco advento de uma forma totalmente nova de pensar sobre o mundo, não mais restringida por conhecimentos anteriores e, de fato, compelia a ir além deles”.[2] Para muitos europeus, ainda que pudessem haver habitantes foram do ecúmeno conhecido, os índios encontrados na América não tinham alma. Paracelso em 1520 afirmara que os índios não eram descedentes de Adão e Eva. A questão somente foi resolvida pelo papa Paulo III com a bula Universis Christi Fidelibus de 1536 em que afirmou que os indígenas eram verdadeiramente homens, portanto, passíveis de evangelização.[3] Em 1550, na cidade espanhola de Valladolid, o missionário Bartolomeu de Las Casas e o teólogo Juan Ginés de Sepúlveda debateram o conceito de guerra justa.[4]



[1]RANDLES, W. Da terra plana ao globo terrestre, Campinas: Papirus, 1994, p. 18

[2]MORTIMER, Ian. Séculos de transformações. Rio de Janeiro:DIFEL, 2018, p. 148

[3]AQUINO, Fernando, Gilberto, Hiran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.14

[4]GUTIERREZ, Jorge. A controvérsia de Valladolid (1550): Aristóteles, os índios e a guerra justa, Revsta USP, março 2014, p. 223-235



Escriba no Antigo Egito

 

Guilherme Oncken destaca que a arte da escrita criou um verdadeiro abismo entre a massa popular e os sábios, formou-se uma “aristocracia de sábios”.[1] Segundo um antigo manuscrito egípcio: “Escolhei a profissão de escriba para que as vossas penas se tornem macias e as vossas mãos suaves, para que vos seja permitido trajar uma túnica branca e para que os homens de importância vos cumprimentem com respeito [...] A profissão de escriba é mais lucrativa do que qualquer outra profissão. Não tereis de vos dedicar ao trabalho manual. Não tereis necessidade de empunhar uma enxada, uma picareta ou cesto, ou mesmo de remar um barco. A vossa vida estará isenta de preocupações”.[2] Uma das ironias é que muitos dos textos que conhecemos do Egito Antigo são cópias imperfeitas feitas por alunos durante seus exercícios, dos quais eles jamais imaginariam que iriam perpetuar tais obras por milênios.[3] A Sátira das Profissões / Sátira dos Ofícios que deve remontar ao segundo milênio a.c. menciona dezoito tipos distintos de ofícios entre as quais, escriba, sacerdote, soldado, médico, arquiteto entre as mais nobres e demais como barbeiro, embalsamador, carpinteiro, curtidor do couro, sendo que o ofício de escriba se destaca pela importância diante de outras profissões: “Nunca vi um escultor ser mandado para uma embaixada, nem um fundidor de bronze liderando uma missão. Eu vi ferreiros trabalhando na boca da fornalha. Seus dedos são como garras de crocodilo. Eles fedem como ovas de peixes podres. O artesão de qualquer tipo que lida com o cinzel - não emprega tanto movimento quanto aquele que lida com a enxada.[4] Segundo Max Weber: “Quanto mais desenvolvida a técnica de escrita e dos cálculos, tanto mais forte o poder central [...] Os escribas dominavam no antigo Egito a administração [...] No Egito, durante o Império Médio havia um feudalismo oficial ou administrativo e no Novo uma administração burocrata de escribas [...] O primeiro regime burocrático patrimonial conhecido levado em prática em toda sua consequência foi o do Antigo Egito”.[5] 

[1]ONCKEN, Guilherme. História Universal. História do Antigo Egito, v.I, Rio de Janeiro:Bertrand, p.51

[2]WHITE, Jon Manchip. O Egito Antigo, Rio de Janeiro:Zahar, 1966, p. 145; JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito. Rio de Janeiro:Ediouro, 2002, p. 259

[3]British Museum Guide, London, 1976, p. 47

[4]MUMFORD, Lewis. A cidade na história, São Paulo:Martins Fontes, 1982, p. 119; MASPERO, Gaston. History Of Egypt, Chaldæa, Syria, Babylonia, and Assyria, v. 2, London:Grolier Society, 1896. http://www.gutenberg.org/files/17322/17322-h/17322-h.htm

[5]WEBER, Max. Economia y sociedade: esbozo de sociologia compreensiva, Mexico:Fondo de Cultura, 1969, v.II, p. 787, 828, 952



Rei Escorpião

 

Segundo Ciro Flamarion a irrigação não é causa do surgimento do Estado centralizado mas pelo contrário, a irrigação centralizada somente se tornou possível após a existência de um Estado centralizado.[1] Kurt Butzer mostra que embora a agricultura fosse praticada por quase dois milênios antes da unificação política dos Reinos do Alto e Baixo Egito por volta de 3000 a.c. a evidência mais antiga de irrigação artificial é uma cabeça de clava de calcário de cerca de 25 cm de altura, símbolo do poder real, que mostra o rei Escorpião (rei Narmer ou Menés, possivelmente [2]) um dos últimos reis pré dinásticos cortando um dique de irrigação para dar início a inundação dos campos datada de 3200 a.c.. Para Karl Butzer é difícil aceitar a tese de Baumgartel de que a cena mostra a construção de um templo.[3] Uma das distinções mais honoríficas no Antigo Egito era a de “Escavador de canal”.[4] Heródoto relata que o Alto Egito era um pântano até que o primeiro faraó Menés / Narmer [5] construiu diques ao sul de Mênfis o que permitiu que o delta do rio fosse drenado  e transformado em uma imensa reserva de terra aumentando a área cultivada.[6] Uma inscrição de 1870 a.c. registra a construção de um canal de 150 côvados de comprimento, 20 côvados de largura e 15 de profundidade tornando possível a navegação à primeira catarata [7]. O grego Menes deriva do egípcio mena que significa “o fundador”, o que segundo alguns autores pode indicar que a Menés não é um personagem histórico.[8] Jean Vercoutter mostra monumentos imediatamente anteriores à unificação do país encontrados em Hieracômpolis, que, supõe-se, foi a capital dos reis do Sul dessa época, que representam um rei chamado Escorpião lutando contra os egípcios do Norte conquistando cidades. Este rei unificador do país presume-se tenha sido seu sucessor, Narmer. A cabeça de clava de Escorpião no Ashmolean Museum, Oxford representa uma grande figura, possivelmente o faraó, com a coroa branca do Alto Egito representado junto a um escorpião.[9] Uma paleta votiva de 3200 a.c. no Museu do Cairo mostra o faraó, representado em formas animais como um escorpião, com uma picareta derrubando sete cidades. [10]



[1] CARDOSO, Ciro Flamarion. O Egito antigo. Coleção Tudo é história, n° 36, São Paulo:Brasiliense, 1986, p.24, 47, 102

[2] MALKOWSKI, Edward. O Egito antes dos faraós. São Paulo:Cultrix, 2010, p. 168, 208; CHILDE, Gordon. Early forms of society. In: SINGER, Charles; HOLMYARD, E. A history of technology, Oxford Clarendon Press, 1958, p. 51

[3] BUTZER, Karl. Early hidraulic civilization in Egypt, Chicago:University Chicago Press, 1976, p.47 https://oi.uchicago.edu/sites/oi.uchicago.edu/files/uploads/shared/docs/early_hydraulic.pdf

[4] JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito. Rio de Janeiro:Ediouro, 2002, p. 21

[5] DUNAN, Marcel; BOWLE, John. Larousse encyclopedia of ancient & medieval history, Paris:Larousse, 1963, p.41

[6] JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito. Rio de Janeiro:Ediouro, 2002, p. 35;DROWER, M. water supply, irrigation and agriculture, In: In: SINGER, Charles; HOLMYARD, E. A history of technology, Oxford Clarendon Press, v.I, 1958, p. 529

[7] JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito. Rio de Janeiro:Ediouro, 2002, p. 178

[8] WEST, John Anthony. The traveler’s key to ancient Egypt, New York:Quest, 2012, p. 6, 225

[9] https://pt.wikipedia.org/wiki/Escorpi%C3%A3o_II

[10] DONADONI, Sergio. Museu Egípcio do Cairo, São Paulo: Mirador, 1969, p. 25



domingo, 13 de dezembro de 2020

Cobre no Egito Antigo

 

Charles Marston aponta a preferência dos egípcios pelo cobre, que vinha da Península do Sinai [1], ao invés do ferro por respeito às tradições.[2] Em Timna, próximo ao Sinai foram encontradas minas de cobre da época de 18° a 20° dinastias (1550 – 1070 a.c.) [3] Bromehead observa que o cobre era trabalhado no território egípcio a partir da III Dinastia (2600 a.c.) possivelmente com tecnologia trazida da Suméria.[4] Arnold Toynbee mostra que no Egito o ferro superou o cobre como ferramenta somente no século VII a.c., de modo que as tarefas de corte em pedra eram feitas com cobre.[5] A substituição do cobre pelo bronze no Egito se deu quase um milênio depois da Baixa Mesopotâmia, o que revela o atraso do Egito na absorção desta tecnologia, diante da abundância de cobre.[6]

O cobre difundiu-se por todo o vale do Nilo por volta de 3300 a.c. tendo origem do Oriente Médio no “Crescente Fértil” ou mesmo talvez origem autóctone.[7] Paul Johnson mostra que a difusão da tecnologia do cobre ocorre no momento da centralização dos reinos egípcios e, 3100 a.c aumentando significativamente a produtividade das oficinas o que fez a realeza prosperar contribuindo assim diretamente para o fortalecimento do poder.[8] O cobre era endurecido com arsênico.[9] O Egito antigo dominava técnicas básicas de metalurgia do cobre como a forjadura, a martelagem, a moldagem, a estampagem, a soldagem e a rebitagem.[10] Na estatutária desde a VI dinastia a estátua de Pepi I, mostra uma obra feita de lâminas de cobre marteladas sobre um corpo de madeira com olhos fabricados com pedras raras.[11]

Mark Lehner, um egiptologista do Harvard Semitic Museum, contudo, demonstra como por meio de ferramentas de cobre [12] como martelos, brocas, rampas poderiam ser construídas nas pirâmides, ao construir uma pirâmide de 6 metros de altura [13]. As ferramentas de cobre guardadas no museu do Cairo são apontadas por especialistas como William Petrie e Franz Löhner [14] como insuficientes para poder cortar as mais de duas milhões de rochas que compõem a pirâmide, algumas pesando quinhentas toneladas [15]. Christopher Dunn argumenta que “identificar cobre como o metal usado para cortar granito é como dizer que o alumínio pudesse ser cortado usando-se um cinzel feito de manteiga”.[16] O ponto de fusão do cobre é elevado (1083C) o que exige um desenvolvimento na tecnologia de fornos. Como metal mole o cobre não se prestava ao fabrico de instrumentos de corte [17], somente para pedras moles, pois para pedras duras como granito, gnaisse, diodorito ou basalto usava-se o picão, cinzel e o martelo de pedra dura [18]. As ferramentas de corte de cobre não conservam o fio de corte por muito tempo exigiriam afiação constante [19]. Para pedras duras uma possível técnica era talhar um sulco em torno do bloco a ser extraído e depois, em vários pontos ao longo do sulco, fazer profundos talhos no interior dos quais eram inseridas cunhas de madeira, que uma vez molhadas, por dilatação, eram suficientes para fender a pedra ao longo dos sulcos. Para o corte do granito seriam necessários instrumentos de ferro, no entanto, não há evidências do domínio do ferro nesta época pelos egípcios.[20] Heródoto afirma que os construtores egípcios usavam ferro e o trabalho com pedras duras como granito e diorito sugere o uso de ferramentas de ferro.[21] Alvarez Lopez apresenta a hipótese de que o uso do ferro pode ter sido restrito por questões religiosas, de pureza espiritual, algo que se observa por exemplo em 1Reis 6:7 quando a Casa do Senhor construída por Salomão não poderia ser feita usando-se qualquer instrumento de ferro.[22] Em Jó 28 destaca-se os processos de extração das minas de cobre “O ferro tira-se da terra, e da pedra se funde o cobre”.

[1]ROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: O Oriente e a Grécia Antiga: as civilizações imperiais, v. I, Rio de Janeiro:Bertrand Brasil, 1998, p. 86

[2] MARSTON, Charles. A Bíblia disse a verdade, Belo Horizonte:Itatiaia, 1958, p. 187

[3] BAINES, John; MALEK, Jaromir. O mundo egípcio:deuses, templos e faraós. Rio de Janeiro, Edições del Prado, 1997, p.19

[4] BROMEHEAD, C. Mining and quarrying. In. SINGER, Charles; HOLMYARD, E. A history of technology, v.I, Oxford, 1956, p.564

[5] TOYNBEE, Arnold. A humanidade e a mãe terra, Rio de Janeiro:Zahar, 1976, p.152, 210

[6] CARDOSO, Ciro Flamarion. O Egito antigo. Coleção Tudo é história, n° 36, São Paulo:Brasiliense, 1986, p.26; HODGES, Henry. Technology in the ancient world, New York: Barnes & Noble Books, 1970, p. 92

[7] KI-ZERBO, Joseph, História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África, Brasília : UNESCO, 2010, p.824

[8] JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito. Rio de Janeiro:Ediouro, 2002, p. 34

[9] CARDOSO, Ciro Flamarion. O Egito antigo. Coleção Tudo é história, n° 36, São Paulo:Brasiliense, 1986, p.35; KHUON, Ernst. Vieram os deuses de outras estrelas ? São Paulo:Melhoramentos, 1972, p.223

[10] MOKHTAR, Gamal. História geral da África, II: África antiga, Brasília : UNESCO, 2010, p.124

[11] CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: O Oriente e a Grécia Antiga: as civilizações imperiais, v. I, Rio de Janeiro:Bertrand Brasil, 1998, p. 168

[12] http://www.pbs.org/wgbh/nova/lostempires/obelisk/cutting.html

[13] https://en.wikipedia.org/wiki/Egyptian_pyramid_construction_techniques

[14] http://www.cheops-pyramide.ch/khufu-pyramid/stone-cutting.html

[15] GRIMBERG, Carl. História Universal: a aurora da civilização, v.1, Chile:Publicações Europa, 1989, p. 41

[16] https://www.fascinioegito.sh06.com/maquinaria.htm

[17] BRONOWSKI, J. A escalada do homen, São Paulo:Martins Fontes, 1979, p.125

[18] MOKHTAR, Gamal. História geral da África, II: África antiga, Brasília : UNESCO, 2010, p.131

[19] TOTH, Max; NIELSEN, Greg. A força das pirâmides, São Paulo:Record, 1976, p.81

[20] CHILDRESS, David Hatcher. A incrível tecnologia dos antigos, São Paulo:Aleph, 2005, p. 271; MOKHTAR, Gamal. História geral da África, II: África antiga, Brasília : UNESCO, 2010, p.37

[21] ALVAREZ, Lopez. O enigma das pirâmides, São Paulo:Hemus, 1978, p.72

[22] ALVAREZ, Lopez. O enigma das pirâmides, São Paulo:Hemus, 1978, p.25



João Manso Pereira

 

Carlos Figueiras observa que paradoxalmente no reinado de Maria I foram expedidas cartas régias ao vice rei do Brasil Conde de Resende (1790-1801) ordenando-lhe prestar toda a assistência a João Manso Pereira em seus empreendimentos na área química no tratamento de vinhos, açúcar e aguardentes.[1]  Fernando Azevedo contudo observa que mesmo com esta recomendação o Laboratório Químico Prático do frei José Mariano da Conceição Velloso não se utilizou dos conhecimentos  de Manso Pereira ou mesmo o encarregou do estudo do problema em questão [2]. João Manso criticava a má qualidade da aguardente produzida na Colônia e chegou a propor um novo tipo de alambique que, contudo, não encontrou receptividade entre os senhores de engenho da capitania de São Paulo onde reside. Para Joao Manso: “todos os alambiques do Brasil, seja qual for o diâmetro e altura da cucúrbia, hão de melhorar muito por meio do tubo destilatório e mecanismo de introdução da água fria pela parte inferior e saída pela superior. Reformados os alambiques, teremos maior cópia d’agua ardente, porém nem por isso mais perfeita”. Em sua obra João Manso se refere aos trabalhos dos especialistas europeus como os franceses Jean Antoine Chaptal, Antoine Baumé, Jean Baptiste Rozier, o italiano Domenico Vandelli e o português Bento Sanches Dorta.[3] Em ofício de 21 de maio de 1802 o governador de São Paulo ao criticar os investimentos da Corte na fábrica em Ipanema acrescenta que Manso não era químico senão alchimista.[4] Os inventos foram apresentados a Real Junta de Comércio que encaminhou a Manso Pereira uma carta de 1794 assinadas pelos ministros Teotônio Gomes de Carvalho e Francisco Soares de Araújo e Silva “querendo que que o vosso gênio e muito louváveis aplicações  prosperem [...] expeço ordem  que será esta, para se fornecer a despesa que for necessária para se prepararem destes gêneros quantidade suficiente com que se possam fazer experiências dos seus préstimos nos usos a que se devem servir [..] Ao vice rei do Brasil recomendo que vos proteja e auxilie nas vossas empresas para que não encontreis obstáculos e vos possais fazer benemérito de minha real contemplação”.[5]



[1] FILGUEIRAS, Carlos. João Manso Pereira, químico empírico do Brasil Colonial, Química Nova, v.16, n.2, 1993, p. 155-160; MAXWELL, Kenneth. A devassa da devassa, Rio de Janeiro:Paz e Terra, ,1985, p. 237

[2] AZEVEDO, Fernando. As ciências no Brasil, Rio de Janeiro:UFRJ, 1994, p.24

[3] MENESES, José Newton. Os alambiques, a técnica da produção da cachaça e seu comércio na América portuguesa. In: BORGES, Maria Eliza. Inovações, coleções, museus. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011, p.133

[4] VARNHAGEN, Francisco. História geral do Brazil, v.2, Rio de Janeiro : Laemmert, 1877, p. 1157; VARNHAGEN, Francisco Adolfo. História geral do Brasil, São Paulo:Melhoramentos, 1948, v. V, p. 190

[5] BRITO, José Gabriel Lemos. Pontos de partida para a história econômica do Brasil. Brasiliana v. 155, São Paulo:Cia Editora Nacional, 1980, p.357



Doação de Constantino

  Marc Bloch observa a ocorrência de falsificações piedosas tais como a pseudo doação de Constantino ( Constitutum Donatio Constantini ) ao ...