sábado, 5 de fevereiro de 2022

Medicina dos incas

 

Os relatos de médicos espanhóis como Nicolas Monardes, Francisco Hernandez e Bernardino de Sahagún no século XVI mostram a existência de centenas de medicamentos usados pelos astecas.[1] Os feiticeiros eram conhecidos como tlatlacatecolos e acreditava-se que seus poderes de cura usando plantas medicinais se originavam desde sua infância sendo identificado por um sinal preciso chamado tonalpohualli.[2] Muitas destas plantas medicinais eram cultivadas nos jardins botânicos de Huaxtepec e Texcotzingo.[3] Frei Bernardino de Sagahún relata um costume entre os chichimecas e astecas: “e adoecendo alguém e não sarando dentro de dois ou três dias, reúnem-se os chichimecas, matam o doente enfiando-lhe uma flecha de pássaro na garganta e assim morre. Quem é um homem velho, quem se tornou uma anciã, também a eles matam-nos. Afirmam que o fazem porque tem pena deles. Para que não sejam infelizes na terra e para que não entristeçam os seus”[4].  Entre os incas há o registro de diversos medicamentos ministrados pelos hampi camayok[5], entre as quais a quina no tratamento de feridas, a ayahuasca, a ipecacuanha, a belladonna (usada como anestésico), o tabaco e a coca para aumentar o metabolismo, conhecida como “planta divina” mencionada por Garcilaso de la Veja e Pedro de Cieza de Leon o qual escreve em 1550: “Há algumas pessoas na Espanha que ficaram ricas com o comércio da coca tendo a comercializado nos mercados indianos” [..] Da mesma forma a planta conferiu  grandes lucros para bispos e clérigos  da Catedral de Cusco”.[6] Na cultura quimbaya da Colômbia objetos de ouro são usados como caixa para uma mistura de lima e coca. Nas culturas Chavín e Mochica usava-se o cacto de são Pedro como alucinógeno em rituais.[7] Entre os astecas o tabaco era amplamente utilizado na medicina bem como alucinógenos como o peyotl.[8] Em Tenochtitlan o tabaco era tragado com ervas aromáticas e em cachimbos de ouro[9]. O médico ticitl ou teopatli (teo - sagrado, patli - artes médicas)[10] era feiticeiro e se utiliza de medicamentos naturais como a passiflora quanenepilli junto com encantamentos[11]. Para o diagnóstico o médico deitava grãos de milho numa peça de tecido ou num vasos cheio de água e fazia a interpretação da forma como os grãos caíam, se agrupados ou dispersos, ou conforme boiavam ou iam ao fundo do vaso[12]. Em 1570 o médico da Corte espanhola Francisco Cortez trabalhou por sete anos nas Americas acumulando conhecimento de plantas medicinais, porém não chegou a publicar seus resultados, o que veio a ocorrer posteriormente embora de forma parcial.[13] Bernardino de Sahagun escreveu sobre a flora medicinal usada pelos astecas entre as quais a erva do gato usada como calmante e a yerba buena usada para tratar dores no estômago.[14] Entre os incas a tribo dos Collahuayas a nordeste do lago Titicaca se destacava pela formação de curandeiros.[15] A coca era mascada e usada como poderoso estimulante e no controle de vômitos e hemorragias, bem como a cocaína extraída das folhas da coca era usada como anestésico[16]. A seiva da árvore molle era usada na cicatrização de feridas. Contra a febre era usado a casca de chinchona. A folha da quinua era usada contra inflamações na garganta. A erva chillca era usada para acalmar dores nas articulações. Contra dores de cabeça , dente ou garganta era usada urina na forma de fricção [17] A ayahuasca (que significa elo com os ancestrais) tem o registro de uma taça cerimonial feita de pedra, com ornamentação gravada, encontrada na cultura Pastaza da Amazônia equatorial datando de 500 a.c. a 50 d.c  no Museu Etnológico da Universidade Central em Quito, Equador. [18]



[1] THORWALD, Jurgen. O segredo dos médicos antigos. São Paulo: Melhoramentos, 1990, p.269

[2] Instituto Nacional de Antropologia e História. Guia Oficial do Museo Nacional de Antropologia, Mexico:Inah Salvat, 1998, p.137

[3] Guia dos segredos do império: o povo asteca, Barueri:On Line, 2016, p. 62

[4] HOFFNER, Joseph. Colonialismo e evangelho, São Paulo:USP, 1973, p.121

[5] HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 102

[6] THORWALD, Jurgen. O segredo dos médicos antigos. São Paulo: Melhoramentos, 1990, p.294; SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 170; HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 108

[7] COE, Michael. Antigas Américas, mosaico de culturas, v. II Madrid:Ed. Del Prado, 1996, p. 158

[8] SOUSTELLE, Jacques. A vida quotidiana dos astecas. Belo Horizonte:Itatiaia, 1962, p.205

[9] HERRMANN, Paul. A conquista das Américas. Sâo Paulo:Boa Leitura, 1960, p.118

[10] Guia dos segredos do império: o povo asteca, Barueri:On Line, 2016, p. 63

[11] SOUSTELLE, Jacques. A vida quotidiana dos astecas. Belo Horizonte:Itatiaia, 1962, p.251

[12] SOUSTELLE, Jacques. A vida quotidiana dos astecas. Belo Horizonte:Itatiaia, 1962, p.248

[13] SOUSTELLE, Jacques. A vida quotidiana dos astecas. Belo Horizonte:Itatiaia, 1962, p.253

[14] Guia dos segredos do império: o povo asteca, Barueri:On Line, 2016, p. 63

[15] BAUDIN, Louis. A vida quotidiana dos últimos incas, Lisboa:Ed. Livros do Brasil, p. 169

[16] BAUDIN, Louis. A vida quotidiana dos últimos incas, Lisboa:Ed. Livros do Brasil, p. 176

[17] BAUDIN, Louis. A vida quotidiana dos últimos incas, Lisboa:Ed. Livros do Brasil, p. 171

[18] RIBAS, Ka W. A ciência sagrada dos Incas, São Paulo:Madras, 2008, p. 137



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

O pensamento medieval e a Igreja

 

Marc Bloch mostra que até o final do século XI, exceto temporariamente pela renascença carolíngia, a mentalidade religiosa prevalecente no período medieval era desprovida de qualquer base racional ou especulação lógica “É-nos permitido dizer que nunca a fé mereceu tanto esse nome”.[1] Segundo Daniel Rops: “Tudo e todos só existem em função da fé cristã. Ela é a pedra angular do edifício. A religião impõe-se aos espíritos como um absoluto que ninguém discute. Não se vê menor traço de indiferentismo e menos ainda de ateísmo. Do mais humilde ao mais importante, é uma sociedade inteira que crê [...] Uma fé unânime, viva, arrebatadora, admirável, em suma , por mais que com ela se misturem elementos suspeitos, eis o traço característico do mundo medieval, o que explica ao mesmo tempo uma realidade historicamente considerável: a influência decisiva da Igreja enquanto corpo constituído. Se há algo evidente , é que durante esses séculos a história profana e a história da Igreja praticamente se confundem, mais ainda do que nos tempos bárbaros”.[2] Para Christopher Dawson sobre a Igreja no período medieval no século XI: “Trata-se de um pode soberano que impunha suas próprias leis e as aplicava em seus próprios tribunais com seus próprios juízes e advogados. A Igreja tinha  um elaborado sistema de jurisdição, uma burocracia altamente organizada e um eficiente organismo de controle centralizado, tudo isso executado por funcionários permanentes e supervisionado por inspeções regulares e relatórios de delegados”.[3]

[1] BLOCH, Marc. A sociedade feudal, Lisboa:Edições 70, 1982, p.104

[2] AQUINO, Felipe. Uma história que não é contada, Lorena: Cleofas, 2008, p. 84; ROPS, Daniel. A Igreja das catedrais e das cruzadas. São Paulo: Quadrante, 2012, p. 43, 88

[3] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 175



O letramento na sociedade egípcia

 

O livro de textos Kemyt era usado no ensino. O escriba Kheti da XII dinastia (1991-1786 a.c.) aconselha a seu filho que está iniciando na escola do palácio para escribas - sesh: “aprende a escrever porque isso te proporcionará mais benefícios do que todos os conhecimentos que listei. Cada dia de escolaridade te fará bem e os trabalhos que realizares na escola perdurarão em ti para sempre, como as montanhas”. Heródoto e Diodoro referem-se as profissões hereditárias, uma aspiração dos pais transmitirem seus ofícios aos filhos.[1] No ano 184 o egípcio Petaus se refere a acusação contra um escriba da época conhecido como Ischyrion de que este seria analfabeto. Petaus reconhece que o escriba ao menos sabia escrever seu próprio nome. O próprio Petaus que era o escriba oficial local tem o registro escrita com erros, o que segundo Bart Ehrman (figura) sugere que o letramento fosse algo incomum na sociedade da época. [2]



[1] STROUHAL, Eugen. A vida no antigo Egito. Barcelona:Folio, 2007, p. 34, 36

[2] Ehrman, Bart D.. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? (p. 58). HarperCollins Brasil. Edição do Kindle




quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Cidades Estados Gregas dominadas pelo campo

 

Todo cidadão de Atenas clássica pertencia a uma fratria para o culto comum tendo desaparecido gradualmente depois do século IV a.c.[1] Com a ampliação dessas organizações temos a formação das primeiras cidades-Estado da Grécia Antiga e o fim das comunidades gentílicas. A cidade, polis em grego[2], (do qual deriva política) significava na Grécia Clássica um Estado autônomo, que governa a si mesmo. Na Política Aristóteles explica eu “quando várias aldeias se unem numa única comunidade, grande o bastante para ser autosuficiente (ou para estar perto disso) configura-se a cidade (polis)[3], ou Estado que nasce para assegurar o viver e que , depois de formada, é capaz de assegurar o viver bem”. Não há qualquer anacronismo em usar o termo “Estado grego”, que é explicitado pelos historiadores da Grécia clássica como Moses Finlay[4]. Dalmo Dalari observa: “Embora seja comum a referência ao Estado Grego, na verdade não se tem notícia da existência de um Estado único, englobando toda a civilização helênica. Não obstante, pode-se falar genericamente no Estado Grego pela verificação de certas características fundamentas, comuns a todos os Estados que floresceram entre os povos helênicos [entre as quais a sociedade política]”.[5] Indro Montanelli argumenta que a invasão dos dórios, com seu sentimento de superioridade racial, impediu que se formasse um sentimento de unidade entre os gregos e assim se formasse uma nação política grega[6]. Donald Kagan, contudo, observa ainda assim há traços em comum entre as centenas de polis que possibilitam, por exemplo, que se reúnam nos jogos pan helênicos, dentro dos quais os jogos olímpicos de 776 a.c.[7] Moses Finlay observa que o termo cidade Estado induz, contudo, uma visão equivocada de que a cidade governa o campo, na verdade Atenas, por exemplo era uma cidade de apenas 2300 km2. Aristóteles nas Leis estima que a polis deve ter 5040 homens o equivalente a sete fatorial[8]. Donaldl Kagan observa que as maiores polis tinham algo em torno de 40 a 50 mil homens sendo que a grande maioria trabalhava no campo[9]. William Harris, estima que em Atenas à época do período clássico do século V a.C. as taxas de alfabetização raramente atingiam de 10% a 15% da população[10]. Na maior parte as cidades estado gregas eram dominadas pelo campo.[11] O poder das cidades Estados era localizado. Ptolomeu e Seleuco eram reis mas não foram reis de algo como assim se denominavam os reis no Egito, Babilônia ou Pérsia. Arnold Toynbee mostra  que a instituição da cidade Estado não é em si uma característica peculiar da sociedade helênica pois haviam exemplos de cidades estados cananeias como as cidades fenícias de Sidon e Tiro no litoral sírio e Cádiz em Cartago no norte da África e Cadiz (Gades) no sul da Espanha assim como temos o exemplo da transformação do cantão de Judá na cidade Estado de Jerusalém pelo rei Josias em VII a.c. [12]



[1] JONES, Lloyd Jones. O mundo grego, Rio de Janeiro: Zahar, 1965, p. 33

[2] FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma, São Paulo: Contexto, 2004, p.25

[3] http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0057%3Abook%3D1%3Asection%3D1252b

[4] FINLEY, Moses. Los griegos de la antiguedad. Barcelona: Editorail Labor, 1966, p. 55

[5] DALLARI, Dalmo. Elementos de teoria geral do Estado, Rio de Janeiro: Saraiva, 2007, p. 63

[6] MONTANELLI, Indro. História dos gregos, São Paulo:Ibrasa,1962, p. 38

[7] História da Grécia Antiga #4 com Donald Kagan, de Yale, 40:00 https://www.youtube.com/watch?v=3D302A0dpfM

[8] https://en.wikipedia.org/wiki/5040_(number)

[9] História da Grécia Antiga #4 com Donald Kagan, de Yale, 58:00

[10] Ehrman, Bart D.. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? (p. 56). HarperCollins Brasil. Edição do Kindle.

[11] FINLEY, Moses. Los griegos de la antiguedad. Barcelona: Editorail Labor, 1966, p. 55

[12] TOYNBEE, Arnold. Helenismo: história de uma civilização, Rio de Janeiro: Zahar, 1963, p. 20



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

A Grande Obra alquímica e a viagem pelos planetas

 

Na alquimia em oposição aos planetas masculinos Sol (ouro), Marte (ferro), Júpiter (estanho) e aos planetas femininos Lua (prata), Vênus (cobre), Saturno (chumbo), o Mercúrio (mercúrio) era interpretado como hermafrodita e, portanto, desempenha um importante papel mediador dos contrários em todas as práticas alquímicas.[1] Cada um dos sete planetas conhecidos está relacionado a um dos sete metais conhecidos, de modo que a ferrugem resultado da degradação dos metais atinge também às criaturas, exceto pelo ouro que é um metal que não se degrada e por isso está relacionado á imortalidade. Enquanto os alquimistas trabalham em seu laboratório com elementos do mundo exterior isso é apenas um reflexo para compreender o que acontece no seu mundo interior, trata-se portanto de um trabalho interior para que o alquimista cada vez mais possa se abrir a estas dimensões mais interiores que se conectam com o mundo espiritual.[2] Estefanio mostra que o trabalho do alquimista é percorrer uma sequência de operações alquímicas em correspondência com este itinerário planetário que percorreria Saturno (chumbo), Júpiter (bronze), Marte (ferro), Sol (ouro), Vênus (cobre), Mercúrio, Lua (prata), iniciando-se portanto a partir de um deus masculino (Saturno) superior descer-se-ia para reunir-se com a divindade feminina simétrica (Lua) e depois voltaria a subir-se (Júpiter) e assim sucessivamente em um movimento espiral até chegar por fim ao centro onde se encontra o Sol. Este movimento ascendente e descendente que une os pares simétricos corresponde as sucessivas sublimações e precipitações alquímicas realizadas no atanor. Opera-se assim a “descida aos infernos” onde cada “arsênico” se dissolve em água e se recompõe/ressuscita a cada etapa num metal cada vez mais próximo do ouro.[3] O mercúrio (“mulher dos filósofos” , “senhora dos Filósofos”) aparece em muitos tratados alquímicos associado ao cisne como símbolo da mediação entre a água e o fogo.[4] Segundo Jung o significado da palavra “mercurius” não designa apenas o elemento químico, o planeta Mercúrio ou o Deus Hermes, mas também a “secreta substância transformadora que é ao mesmo tempo o espírito inerente a todas as criaturas vivas”[5]. A prata cresce sobre a influência da Lua[6], o ouro do Sol, o cobre pela influência de Vênus, ferro por Marte, mercúrio por Mercúrio, Jupiter o estanho, e o chumbo por Saturno, sendo esta associação das influências dos astros proveniente de doutrinas astrológicas da Babilônia.[7] A tradição hermética do século XVI associa os planetas  aos órgãos do corpo humano Saturno (baço), Júpiter (fígado), Marte (estômago), Sol (coração), Vênus (rins), Mercúrio (pulmões) e Lua (cérebro).  



[1] LEXIKON, Herder. Dicionário de símbolos, São Paulo:Cultrix, 1990, p. 138

[2] Paul, Patrick. Realidade Fantástica. O Segredo da Alquimia. 2021. https://www.youtube.com/watch?v=bjkBqDug7Ts&t=1096s

[3] EVOLA, Julius, A tradição hermética. Lisboa: Edições 70, 1971, p. 187

[4] LEXIKON, Herder. Dicionário de símbolos, São Paulo:Cultrix, 1990, p. 60

[5] JUNG, Carl. Psicologia e alquimia, v.12. Petropolis:Vozes, 1992, p. 38 

[6] FAGAN, Brian. Los setenta grandes inventos y descobrimentos del mundo antiguo, Barcelona:Blume, 2005, p. 280; BELL, Madison Smartt. Lavoisier no ano um. São Paulo: Cia das Letras, 2007, p. 46; WEST, John Anthony. Em defesa da astrologia, São Paulo:Siciliano, 1992, p. 86

[7] ELIADE, Mircea. Ferreiros e alquimistas. Rio de Janeiro:Zahar, 1979, p.40; PAPUS, Tratado elementar de magia prática, São Paulo:Pensamento, 1978, p. 232



terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

O pagamento da mita entre os incas

 

A burocracia inca usava os quipus para controlar a cobrança da mita, um tributo pago pelos camponeses na forma de trabalho de todos os homens entre 25 e 50 anos, segundo Garcilaso de la Vega[1]. Cada camponês  tinha de pagar uma dada quantidade de trabalho por ano ao governo em que o registro de tais pagamentos era feito pelos quipus.[2] Mita era o serviço rotativo e obrigatório do membro adulto do ayllu que durava de 3 meses a 1 ano. Waldemar Soriano destaca a sociedade inca como uma economia altamente regulada e centralizada pelo Estado com pouca importância para o comércio e predomínio de uma burocracia administrativa e atividade guerreiras.[3] Entre a hierarquia administrativa o sapainca contava com quatro homens de sua inteira confiança como consultores, os apocunas. Os chefes locais eram denominados curacas responsáveis pela administração da mita paga pelos ayllus.[4] O pagamento da mita cabia apenas aos homens adultos casados (mitayos)[5] e tratava-se de um trabalho comunal ao nível familiar da ayllu, jamais ao nível de um Estado imperial.[6] Os quipus eram conhecidos de outras culturas como os colombianos de Popayán, os caribenhos de Orinoco e certas tribos da América do Norte. [7] Em 1910 o arqueólogo Lelan Locke decifrou a codificação dos nós que representam um sistema de representação numérica decimal, fazendo inclusive uso da noção de zero, que foi usado pela civilização Maia a partir do ano 500 d.c.[8]. Simone Waisbard por outro lado indica que vários cronistas da conquista testemunham que os incas usavam uma escrita ideográfica desenhada ou pintada em finos tecidos ou em tabuinhas[9].



[1] RIBAS, Ka W. A ciência sagrada  dos Incas, São Paulo:Madras, 2008, p. 36

[2] HAGEN, Victor. Realm of the incas, New York: New American Book, 1961, p. 72

[3] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 342

[4] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 345

[5] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 208

[6] SORIANO, Waldemar. Los incas: economia sociedade y estado em la era del Tahuantinsuyo, Peru:Amaru Editores, 1997, p. 226

[7] BAUDIN, Louis. El império socialista de los incas, Santiago Chile:Ediciones Rodas, 1973, p.251

[8] HOGBEN, Lancelot. Las matemáticas al alcance de todos. Joaquín Gil: Buenos Aires, 1943, p. 350, 407; LEONARD, Joathan. América pré colombiana, Rio de Janeiro:José Olympio Editora. Biblioteca de História Universal Life, 1971, p.126; LONGHENA, Maria; ALVA, Walter. Peru Antigo. Grandes civilizações do passado. Madrid:Folio, 2006, p.59; IFRAH, Georges. Os números: a história de uma grande invenção. Rio de Janeiro: Globo, 1989, p. 250

[9] WAISBARD, Simone. Tiahuanaco: 10000 anos de enigmas incas. São Paulo:Hemus, 1971, p. 119



Cluny e a universalização em plena sociedade feudal

 

Na Alta Idade Média (1054-1294) a Igreja empreendeu a reforma monástica de Cluny (910) e de novas ordens religiosas, como por exemplo por Volpiano (962-1031) na Normandia, Poppo (978-1048) na Germânia Ocidental ou os grandes monastérios de Grottaferrata ao sul de Roma e o grande monastério de Fleury entre os anglo saxões[1], período áureo da escolástica e surgimento das grandes catedrais góticas.[2] Os grandes patronos destes empreendimentos foram os príncipes feudais do século X e não os grandes imperadores saxões, assim Cluny foi fundado pelo duque da Aquitânia, Guilherme de Auvergne e no século XI Ricardo II da Normandia patrocinou a vinda de Guilherme de Volpiano de Dijon para reforma cluniacense na região.[3] Para Christopher Dawson a reforma monástica do início do século XI trouxe um aglutinador à sociedade feudal que compensava sua característica de isolamento: “portanto, a anarquia do sistema feudal foi compensada pela vitalidade e pelo poder de recuperação desse novo tipo de sociedade que surgia [...] Por volta da época de São Hugo (1049-1109) já havia mais de oitocentos monastérios afiliados a Cluny na França, na Italia, na Alemanha e na Espanha, de modo que a congregação se torara uma grande potência internacional na vida da cristandade [...] Assim a abadia não mais permaneceu um fim em si mesma, mas tornou-se parte de um todo que, por sua vez, era visto como mais um organismo vivo da sociedade universal da cristandade [...] Urbano II, o papa que levou o movimento de reforma ao seu êxito, e que também foi o responsável pelo lançamento da primeira Cruzada, era um antigo prior de Cluny”.[4]



[1] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 163

[2] AQUINO, Felipe. Uma história que não é contada, Lorena: Cleofas, 2008, p. 76

[3] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 162

[4] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 180, 244



Doação de Constantino

  Marc Bloch observa a ocorrência de falsificações piedosas tais como a pseudo doação de Constantino ( Constitutum Donatio Constantini ) ao ...