domingo, 3 de janeiro de 2021

Curupira

 

O padre Serafim Leite em sua História da Companhia de Jesus dedica um volume as Artes e Ofícios dos Jesuítas no Brasil no período 1549 a 1760. Os artesãos que sabiam consertar moendas e rodas d’ água dos engenhos de açúcar eram muito procurados.[1] José Anchieta foi um fabricador manual de alpercatas, o principal calçado utilizado pelos jesuítas no Brasil colonial: “e sou já bom mestre e tenho feito muitos para os irmãos, porque não se pode cá andar pelos matos com sapatos de couro” [2]. Em carta Manoel da Nóbrega informa: “Quase nenhuma das artes necessárias para o comércio da vida deixam de fazer os irmãos: fazemos vestidos, sapatos, principalmente alpercatas de um fio, como cânhamo, que nós outros tiramos duns cardos lançados na água e curtidos, cujas alpercatas, pela aspereza das selvas e das grandes enchentes de água, é necessário passar muitas vezes por grande espaço até a cinta, e algumas vezes até o peito, barbear, curar feridas, sangrar,  fazer casas e coisas de barro e outras semelhantes coisas que se buscam fora, de sorte que a ociosidade não tem lugar nesta casa”.[3] Entre os índios o uso de sandálias visava não apenas a proteção dos pés mas também para despistar o inimigo, e seu hábito conforme observa Sérgio Buarque de Holanda surge associado a entidades mitológicas como o curupira, de pés as avessas, presente principalmente do  imaginário dos povos tupi [4].

[1]SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Cia das Letras, 1988, p. 37, 38

[2]BARDI, Pietro Maria. Mestres, artífices, oficiais e aprendizes no Brasil, Banco Sudameris Brasil, 1981, p. 82; NASH, Roy. A conquista do Brasil. São Paulo:Cia Editora Nacional, 1939, p. 155

[3]BRITO, José Gabriel Lemos. Pontos de partida para a história econômica do Brasil. Brasiliana v. 155, São Paulo:Cia Editora Nacional, 1980, p.188

[4]AQUINO, Fernando, Gilberto, HIran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.207



Deusa mãe

 

Alguns autores defendem a tese de que a representação de mulheres nuas nestas imagens seriam um indício da ausência de roupa no paleolítico, porém, a razão mais provável é que tais imagens não buscam a representação da mulher mas uma simbologia associada à fertilidade o que justificaria a nudez.[1] A não ser por uma cinta nas costas na Vênus encontrada em Kostienki e uma franja nas costas na que foi encontrada em Lespugue, todas estão despidas. Erwin Ackercknecht argumenta que algumas destas representações exuberantes, ironicamente chamadas de Vênus podem ser casos de alguma patologia.[2] Mauricio Righi aponta que tais aspectos podem reforçar uma simbologia do ponto de vista de uma guerreira tal como uma amazona.[3] Richard Leakey observa que poucas representações mostram traços em proporções exageradas, o que demonstra que a ideia de um culto continental à deusa mãe simbolizada em Vênus exuberantes mostra-se despropositadamente exagerada.[4] Walter Neves aponta o surgimento destas esculturas de Vênus como uma das características que marcam a “revolução criativa do paleolítico superior”.[5] No século XIX para Joahann Bachofen nos tempos primitivos os homens viviam em completa promiscuidade sexual, por ele denominado de heterismo [6], de modo que a filiação somente poderia ser estabelecida com segurança por linhagem feminina, o que conferia à mulher um papel central nestas sociedades. Bachofen se tornou um importante precursor das teorias do século XX sobre matriarcado, tal como a teoria da Antiga Cultura Européia postulada por Marija Gimbutas dos anos 1950. Para Gimbutas as descobertas de imagens femininas encontrados em diferentes sítios arqueológicos  da idade da Pedra  sugeriria uma civilização pan europeia centrada no matriarcado  entre 6500 e 3500 a.c. [7] Divindades como Cibele a Grande Mãe na Ásia Menor, a deusa hindu Kali, deméter a mãe das colheitas e mãe das águas Tiamat da Mesopotâmia demonstram o papel predominante da mulher  nos antigos mitos religiosos.[8]

[1]LENAR, Karel. La vie dans la préhistoire, Praga:Grund, 1991, p.60, 112; CLARK, Grahame. A pré história, Rio de Janeiro:Zahar, 1975, p. 65

[2]ACKERCKNECHT, Erwin. A short history of medicine, Baltimore:Johns Hopkins Press, 2016, p.3

[3]RIGHI, Mauricio. Pré História & História, São Paulo:É Realizações, 2017, p. 44

[4]LEAKEY, Richard. A evolução da humanidade, Brasília: UNB, 1981, p. 180

[5]NEVES, Walter. Assim caminhou a humanidade, São Paulo:Palas Athena, 2015, p.270

[6]ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado, São Paulo:Lafonte, 2017, p. 15

[7]DONKIN, Richard. Sangue, suor e láqrimas. Sâo Paulo: Macron Books, 2003, p. 10

[8]MUMFORD, Lewis. A cidade na história, São Paulo:Martins Fontes, 1982, p. 34



Homem de neandertal no metrô

 

Inicialmente a descoberta do homem de Neandertal em 1856 encontradas na caverna de Feldhofer no vale de Neander próximo a Dusseldorf [1] e no Devonshire foi recebida com ceticismo por grandes especialistas como Rudolf Virchow que acreditava tratar-se de um homem moderno acometido de alguma doença que deformava os ossos. Três anos depois Darwin publicaria a Origem das Espécies e Charles Lyell identificou algumas pedras lascadas como armas da era glacial.[2] Richard Leakey observa o homem de Neandertal não foi aceito inicialmente porque seus traços físicos e comportamento bruto não se ajustava aos padrões da humanidade do século XIX, ao contrário do Cro Magnon descoberto por Louis Lartet em Dordonha em 1868 durante a escavação de uma estrada [3] perto da vila de Les Eyzies na França, com corpo elegante, cabeça delicada, sem nenhum traço “bárbaro” que foi aceito na comunidade científica sem maiores resistências[4] e datado de cerca de 28 mil anos pertencente a cultura gravetiana. Não se trata do primeiro homo sapiens (nomenclatura criada por Lineu, que significa homem sábio [5]) na Europa já que os pioneiros datam de 43 mil anos. A imagem de um Neandertal desengonçado, estúpido e sem inteligência ilustrada por Frantisek Kupka no L’Illustration de 1909 baseado na descrição anatômica de Marcellin Boule em “O homem fóssil”[6] persistiu por décadas.  Em 1957 Wiliam Straus e Aje Cave numa matéria na Quarterly Review of Biology fizeram uma reconstituição com traços parecidos com os do homem moderno: “Se ele pudesse reencarnar e fosse levado ao metrô de Nova York, contanto que tivesse tomado um banho, fosse barbeado e vestido com roupas modernas, provavelmente não chamaria mais a atenção do que alguns de seus concidadãos”.[7] Em 1939, o antropólogo Carleton Coon usou uma reconstrução artística do espécime de Neandertal La Chapelle aux Saints usando um chapéu para argumentar que as impressões das pessoas sobre as diferenças entre grupos de humanos dependem em parte de características superficiais, como roupas e pelos faciais.



[1]LEAKEY, Richard. Origens, Brasília:UNB, 1980, p. 32; LEAKEY, Richard. A evolução da humanidade, Brasília: UNB, 1981, p. 145; NEVES, Walter. Assim caminhou a humanidade, São Paulo:Palas Athena, 2015, p.192

[2]WRIGHT, Ronald. Uma breve história do progresso, São Paulo:Record, 2007, p.33

[3]CONDEMI, Silvana; SAVATIER, François. Neandertal, nosso irmão, São Paulo: Vestígio, 2018, p. 117

[4]LEAKEY, Richard. A evolução da humanidade, Brasília: UNB, 1981, p. 147

[5]BYNUM, William. Uma breve história da ciência. Porto Alegre:L&PM Pocket, 2018, p. 143

[6]MILLER, Russel. A verdade por trás da história: as novas revelações que estão mudando nossa visão do passado. Rio de Janeiro:Reader’s Digest, 2006, p.25

[7]LEAKEY, Richard. A evolução da humanidade, Brasília: UNB, 1981, p. 148; CONDEMI, Silvana; SAVATIER, François. Neandertal, nosso irmão, São Paulo: Vestígio, 2018, p. 44



sábado, 2 de janeiro de 2021

O mito de Osíris

 

A morte e ressurreição de Osíris simbolizavam a retirada das águas do Nilo no outono e a volta da inundação na primavera.[1] O grão, símbolo do corpo de Osíris, parece não ter vida até que germine, de modo que revivificação do grão refaz a ressurreição de Osíris sob o poder de Ísis.[2] Na lenda tal como transmitida por Plutarco [3], Ìsis recolheu os catorze pedaços de Osíris, com exceção do falo, juntando-as cuidadosamente com bandagens de linho, vivificado pelo sopro de Anúbis, deus dos mortos, o que seria a primeira múmia do Egito [4]. Segundo a tradição Ísis teria encontrado e sepultado o corpo de Osíris em Abidos [5]. Com Osíris revivificado Ísis concebeu Hórus que ao se tornar adulto empreendeu uma luta eterna com Set. [6] Assim que as águas retrocediam os agricultores semeavam e lavravam a terra, período de quatro meses chamado perit. Então seguia-se o período de colheita, o chemu, pelos restantes quatro meses do ano. [7] A lenda de Osíris tornou-se conhecida a partir do texto por Plutarco no ano 100 d.c. A propos d’Isis et d’Osiris. [8] John West observa que os templos do Antigo Egito não narram o mito de Osíris presumivelmente por se algo de amplo conhecimento, tais narrativas se tornaram conhecidas pelos escritores gregos e romanos.[9] Byron Schafer observa que os textos do Egito Antigo não se referem à morte de Osíris, pois um acontecimento narrado em detalhes seria eternizado de modo que as narrativas somente surgem mais tarde na forma escrita já no período greco romano.[10] No mito egípcio, o Nilo era a projeção de Osíris e a terra o corpo de Ísis de modo que ao se misturar com o solo o Nilo-Osíris fecunda  terra-Ísis.[11] Para Joseph Campbell sobre o mito de Ísis que concede Hórus após a morte de Osíris: “esse é um tema que aparece nas antigas mitologias, inúmeras vezes, sob muitas formas simbólicas: da morte se origina a vida”.[12]



[1]BURNS, Edward McNall. História da civilização ocidental, Rio de Janeiro:Ed. Globo, 1959, p.52

[2]STROUHAL, Eugen. A vida no antigo Egito. Barcelona:Folio, 2007, p. 96

[3]LAMY, Lucien. Mistérios egípcios, Madri:Prado, 1996, p.5

[4]DEARY, Terry. Espantosos egípcios, São Paulo:Melhoramentos, 2004, p. 97; JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito. Rio de Janeiro:Ediouro, 2002, p. 204

[5]EDWARDS, J. As pirâmides do Egito, Rio de Janeiro:Record, 1985, p.31

[6]JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito. Rio de Janeiro:Ediouro, 2002, p. 204

[7]MONTET, Pierre. O Egito no tempo de Ramsés: a vida cotidiana, Sâo Paulo:Cia das Letras, 1989, p.40

[8]VERCOUTTER, Jean. Em busca do Egito esquecido. Rio de Janeiro:Objetiva, 2002, p.17; EDWARDS, J. As pirâmides do Egito, Rio de Janeiro:Record, 1985, p.28; LEADBEATER, C. Pequena história da maçonaria, São Paulo: Pensamento, 1968.p.51

[9]WEST, John Anthony. The traveler’s key to ancient Egypt, New York:Quest, 2012, p. 382

[10]SHAFER, Byron. As religiões no Antigo Egito, São Paulo: Nova Alexandria, 2002, p. 143

[11]LAMY, Lucien. Mistérios egípcios, Madri:Prado, 1996, p.6

[12] CAMPBELL, Joseph. O poder do mito, São Paulo: Palas Athena, 1990, p. 188



As amazonas e os muiraquitãs

 

Walter Raleigh no século XVI se refere as amazonas como mulheres guerreiras que trocavam ouro por pedras de jade ou uma variedade de feldspato chamada de amazonita. Sua existência também é relatada na mesma época por Hernando de Rivera no Paraguai e por André Thévet, ou por Jean Mocquet em 1617 [1]. Segundo o relato de frei Gaspar de Carvajal (1504-1584) os próprios índios alertaram Francisco de Orellana sobre as amazonas e sugeriam que fossem “ver as amazonas, que na sua língua era coniupuiara, o que significava grandes senhoras, mas que prestássemos atenção no que fazíamos, porque éramos poucos e elas muitas, para que não nos matassem”. [2] Frei Gregorio Garcia  em Origen de los índios del Nuevo Mundo e Indias Ocidentales publicado em 1607 sugerira que as amazonas encontradas no Brasil eram mulheres guerreiras que teriam vindo da Grécia a partir da viagem dos argonautas gregos. Segundo a lenda mulheres amazonas que teriam atacado Orellana em 1541 retiravam pedras conhecidas como muiraquitãs de um lago chamado espelho da lua para presentear os homens que as visitavam anualmente.[3] Em 1735 o astrônomo Charles Marie de La Condamine em sua viagem ao longo do Amazonas para medição do arco meridiano (para confirmar a tese de Newton de que a Terra era achatada nos pólos, ao contrário de Cassini que acreditava que fosse achatada no equador) descreve amuletos batraquianos em pedras verdes semelhantes ao jade: "há entre os Tapajós, mais facilmente do que alhures, as pedras verdes conhecidas com o nome de pedras das Amazonas, cuja origem é ignorada e que foram muito procuradas outrora, por causa das virtudes que lhes eram atribuídas na cura do cálculo e da eólica renais, bem como da epilepsia", também descritos por Spix e Martius como pierres divines em madrepérola e com nome de muiraquitã. Tratam-se de artefatos cuidadosamente esculpidos, em mineral ou rocha verde, normalmente jade nefrítico, que tinha um grande valor simbólico, usado para vários fins, mas principalmente como amuleto para prevenir doenças. De La Condamine as decreve em Voyage sur Amazone (1735-1745) e von Martius (1867) em Beitrãge zur Ethnographie und Sprachenkunde Amerikas zumal Brasiliens. Os relatos de La Condamine que incluem a existência das lendárias amazonas causou alvoroço nos círculos intelectuais europeus o que fez Alexander von Humboldt comentar que talvez ele tenha defendido a existência das amazonas e seus exóticos costumes “para se aproveitar de uma generosa recepção numa sessão pública da Academia de Ciências e de sua ansiedade por ouvir coisas”.[4] Antropólogos e arqueólogos ainda não conseguiram entender como esses povos tapajós localizados nas proximidades de Santarém poderiam, com instrumentos rudimentares e improvisados, chegarem a produtos tão bem esculpidos, elaborados e polidos.[5] Para Barbosa Rodrigues, que escreve em 1875, estas peças, possivelmente usadas como pendentes em colares, tem origem asiática.[6] Josué Camargo Mendes observa que a tese de procedência asiática se desfez quando se descobriu a ocorrência de nefrita ou jadeíta na região.[7] Ladislau Neto atribui a etimologia a mira – nação, ki – chefe, itá – pedra, ou sej, “pedra do chefe da nação”. Uma das muitas lendas de sua origem atribui as pedras como presentes dados pelas amazonas aos homens com quem mantinham relações, o que explicaria seu formato sexual.[8] Humboldt descreve alguns destes amuletos entre habitantes das margens do rio Negro.[9]

[1]PRIORE, Maria del. Histórias da gente brasileira, V.1 Colônia, Rio de Janeiro:Leya, 2016, p. 50

[2]AQUINO, Fernando, Gilberto, HIran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.196

[3]MENDES, Josué Camargo. Conheça a pré história brasileira, São Paulo: USP, Polígono, 1970, p. 101

[4]SAFIER, Neil. Relato de segunda mão. Revista de História da Biblioteca Nacional, n.57, junho de 2010, p. 64

[5]COSTA, Marcondes Lima da. Muyrakytã ou muiraquitã, um talismã arqueológico em jade procedente da Amazônia: uma revisão histórica e considerações antropogeológicas. Acta Amazonia, v.32, n.3, p.467-490, 2002; SOUTHEY, Robert. Historia do Brasil, v. II. Rio de Janeiro:Garnier, 1862, p. 455

[6]GALVÃO, Eduardo. Exposições de antropologia, Belém: Museu Goeldi, 19778, p. 30

[7]MENDES, Josué Camargo. Conheça a pré história brasileira, São Paulo: USP, Polígono, 1970, p. 102

[8]SANTOS, Yolanda Lhuillier dos. Convite à Ciência. São Paulo:Logos, 1965, p.136

[9]AIROLA, Jorge Magasich; BEER, Jean Marc. América mágica, Rio de Janeiro: Paz e terra, 2000, p. 192



sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Refino do açúcar no Brasil colonial

 

Ruy Gama observa que enquanto a colônia se ocupa da atividade de fabricação, o refino do açúcar é realizado na Europa baseada no trabalho livre, familiar e artesanal, com as técnicas envolvidas mantidas em segredo pelas corporações de ofícios. João Peixoto Vargas chegou a sugerir investimentos em refino, no auge da crise de 1687.[1] A maior parte do açúcar brasileiro era refinado em Amsterdã onde haviam 25 refinarias em 1621,[2] sem que o custo do refino atingia a terça parte do produto final.[3] Em 1759 Pombal autorizou a instalação da primeira refinaria de açúcar em Portugal. [4] Segundo Stanley e Barbara Stein: “a atividade da agricultura de plantação brasileira, caracterizada pela monocultura, trabalho escravo e produção voltada para a exportação, deve ser entendida a partir de suas vinculações aos centros europeus ocidentais. O engenho de açúcar, em realidade, era apenas mais um outro subsetor da economia europeia (em especial da holandesa). Aos portugueses incumbia o papel de meros intermediários encarregados da reexportação do açúcar brasileiro, frequentemente transportado por navios holandeses, processado em refinarias holandesas e comercializado nas regiões do norte, centro e leste da Europa por negociantes holandeses”.[5] O açúcar devia ser fabricado no local das plantações, não sendo possível a exportação da cana sob risco de azedar na viagem, ou seja, foi por uma mera contingência técnica a principal razão das atividades de engenho e o desenvolvimento de técnicas na sua produção se fez na colônia.[6] Se a Metrópole abdicava de uma política de desenvolvimento manufatureiro a Colônia não seguia caminho muito diverso. O reino proibiu o funcionamento de refinarias de açúcar em 1715 conforme Carta Régia ordenada ao governador da Capitania de Minas Gerais, Brás Baltazar da Silveira uma vez que os engenhos de cana da região ocupavam um grande número de negros que deveriam de preferência ser recrutados na extração do ouro para atender aos interesses da Metrópole [7]. Lilia Schwartz observa que no Brasil colonial não haviam refinarias, tanto no Brasil com em Portugal, ficando a manufatura final do açúcar por conta dos holandeses. O açúcar aqui produzido era do tipo “barreado”, não refinado que se denomina “pardo” ou “mascavado”. [8] A descoberta de zonas auríferas no início do século XVIII riria contribuir para encarecer a mão de obra escrava e agravar a crise açucareira. Duhamel DuMonceau, enciclopedista ao publicar L´art de raffiner le sucre em 1764 irá começar a romper com tais segredos de ofícios ao revelar as técnicas de refino do açúcar.[9] Von Lippmann mostra que no Nordeste ocupado pelos holandeses de 1629 a 1651 cerca de dois terços do açúcar exportado era do tipo branco e o restante mascavado. Antonil no século XVIII menciona percentuais similares [10]. Carlos Valeriano de Cerqueira no Histórico da cultura da cana na Bahia de 1778 a 1789 aponta que persiste a relação de 2/3 em favor do açúcar branco.[11] No século XIX contudo, a grande maioria dos produtores pernambucanos exportavam o açúcar mascavado bruto o que significava um preço de 25% a 33% abaixo do pago para o açúcar refinado branco, bem como pagar pelo transporte de impurezas.

[1]SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Cia das Letras, 1988, p. 165

[2]STEIN, Stanley; STEIN, Barbara. A herança colonial da América Latina, Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1977, p.27; COSTA, Marcos. O livro obscuro do descobrimento do Brasi, Rio de Janeiro:Leya, 2019, p. 304

[3]AQUINO, Fernando, Gilberto, Hiran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.134

[4]ALBUQUERQUE, Manoel Maurício. Pequena história da formação social brasileira, Rio de Janeiro: Graal, 1981, p. 130

[5]STEIN, Stanley; STEIN, Barbara. A herança colonial da América Latina, Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1977, p.40, 41

[6]CAMPOS, Raymundo. Grandezas do Brasil no tempo de Antonil, São Paulo:Atual Editora, 1996, p. 19

[7]RODRIGUES, Clóvis.op. cit.p. 54.

[8]SCHWARCZ, Lilia; STARLING, Heloisa. Brasil: uma biografia, São Paulo:Cia das Letras, 2015, p.75; BARSA PLANETA, História do Brasil: primeiros povos brasileiros, descobrimento e colonização, 2009, v.1, p. 267

[9]GAMA, Ruy. Engenho e tecnologia, São Paulo: Duas Cidades, 1983, p.58, 163, 247

[10]LIMA, Heitor Ferreira, Formação Industrial do Brasil, período colonial, Rio de Janeiro: ED. Fundo de Cultura, 1961, p. 105

[11]GAMA, Ruy. Engenho e tecnologia, São Paulo: Duas Cidades, 1983, p.313



Calendário no Egito Antigo

 

Aparentemente os egípcios utilizavam dois calendários: um baseado no percurso solar e nas fases da Lua, o calendário civil ou móvel e outro na elevação helíaca de Sírio, o calendário sotíaco ou fixo.[1] Gordon Childe destaca que a invenção do calendário solar foi possivelmente uma das fontes de autoridade real no Egito: “qualquer pessoa que pretendesse, com êxito, controlar os elementos com sua mágica, conquistaria decerto um prestígio e autoridades imensos”. O egiptólogo alemão Sethe estima que o calendário solar tenha sido adotado no primeiro período de unificação (4200 a.c.). [2] Normalmente a cheia do Nilo chegará a qualquer lugar no mesmo ponto da jornada da Terra em torno do Sol, ou seja, no mesmo dia solar, e tal capacidade de previsão poderia justificar seu poder mágico de controlar as estações e as colheitas [3]. A realização dos cálculos necessários conferiu um grande poder ao clero por muito tempo.[4] Comparando os registros o egípcios o intervalo medido entre as cheias era de 365 dias com uma tolerância de menos de um dia. [5] René Taton observa que este ciclo anual de 365 dias (12 meses de 30 dias mais cinco dias (denominados epagómenos [6] quando eram celebrados os aniversários das cinco divindades [7] relacionadas ao tempo: Osíris, Hórus, Set, Ísís e Nefthys) [8] foi determinado com base nas observações dos ciclos de inundação do Nilo e não em observações astronômicas, de modo que não se pode concluir pela existência de um conhecimento astronômico avançado. [9] Os nomes dos meses do calendário egípcio é refletido no calendário religioso grego copta: Thoth, Phaophi, Athyr, Choiak, Tybi, Mechir, Phamenoth, Pharmouthi, Pachons, Payni, Epiphi, Mesore [10]. O período de cheias do Nilo se estendia por três estações (ter) de quatro meses (abed) de trinta dias (heru) cada um em que a estação da inundação de julho a outubro era chamado akhit, ou akhet [11], a que os egípcios associavam as lágrimas de Ísis, chorando o seu marido Osíris [12]. Havia também a estação da sementeiras ou crescimento das plantas (Peret de novembro a fevereiro) e a estação das colheitas (Shemu/Chemu de março a junho).  A inundação era sinal de vida nova. Segundo os textos das Pirâmides: “Oh Osíris, a inundação está próxima, se estende a abundância se aproxima a estação da enchente que surge da torrente que emana de Osíris. Oh rei, que o ceu te dê a luz na forma de Orion”.[13] A inundação representa a força germinativa das plantas e o poder reprodutor dos animais e seres humanos que são estimulados com a vinda da água.[14] Com o transbordamento do Nilo na estação da germinação isso permitia que os cereais crescessem sem depender da água das chuvas [15]. Seth representa o deserto árido e vermelho, cujo vento ardente é inimigo da vegetação.[16]

[1]CANHÃO, Telo Ferreira. O calendário egípcio, Cultura, v.23, 2006 https://journals.openedition.org/cultura/1296

[2]VERCOUTTER, Jean. O Egito antigo, São Paulo:DIFEL, 1974, p. 50

[3]CHILDE, Gordon. A evolução cultural do homem, Rio de Janeiro:Zahar, 1966, p.138

[4]DERRY, T.; WILLIAMS, Trevor. Historia de la tecnologia: desde la antiguidade hasta 1750, Mexico:Siglo Vintuno, 1981, p.81

[5]CHILDE, Gordon. O que aconteceu na história, Rio de Janeiro:Zahar, 1977, p.125

[6]ONCKEN, Guilherme. História Universal. História do Antigo Egito, v.I, Rio de Janeiro:Bertrand, p.107

[7]SHAFER, Byron. As religiões no Antigo Egito, São Paulo: Nova Alexandria, 2002, p. 44

[8]ALVAREZ, Lopez. O enigma das pirâmides, São Paulo:Hemus, 1978, p.117

[9]TATON, René. A ciência antiga e medieval, São Paulo:Difusão, 1959, tomo I, v.I, p. 50

[10]MOURÃO, Ronaldo Freitas. Dicionário Enciclopédico de astronomia e astronáutica, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987, p. 136

[11]COON, Carleton. A história do homem. Belo Horizonte:Itatiaia, 1960, p.235; Grande História Universal: o princípio da civilização, Barcelona:Folio, 2001, p.52

[12]MATTOSO, Antonio. História da civilização, Lisboa:Ed Sá da Costa, 1952, p.34

[13]LAMY, Lucien. Mistérios egípcios, Madri:Prado, 1996, p.5

[14]CLARK, Rundle. Símbolos e mitos do Antigo Egito, São Paulo:Hemus, (s.d.), p.96

[15]ROAF, Michael. Mesopotâmia v.I, Lisboa:Ed. Del Prado, 1996, p. 40

[16]MATTOSO, Antonio. História da civilização, Lisboa:Ed Sá da Costa, 1952, p.74



Doação de Constantino

  Marc Bloch observa a ocorrência de falsificações piedosas tais como a pseudo doação de Constantino ( Constitutum Donatio Constantini ) ao ...