quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Invenção da bússola

 

Existem relatos da utilização da bússola na Europa no século XII, no entanto, na China o Livro dos Mestre do Vale do Demônio do século IV a.C descreve como mineiros exploradores de jade utilizavam uma primitiva bússola de magnetita para encontrar a direção. A tradição de feng shui (posição adequada) reflete o domínio desta tecnologia. Primitivivamente os chineses usavam uma técnica de adivinhação resultado do embate das forças do yin e do yang em que uma colher feita de magnetita ao centro do tabuleiro representava a Ursa Maior era girada segundo as regras do jogo [1]. Não há evidências de uma transmissão deste conhecimento chinês para a Europa, e o fato de não haver relatos no mundo islâmico da bússola nesta época, reforça esta tese.[2] Ian Mortiner argumenta que a bússola e as inovações tecnológicas embora facilitassem a realização das expedições exploratórias não foram o fator mais importante para tais realizações.[3] O mercador judeu Jacob d’Ancona que esteve na China em 1270 se refere “a bússola de Sinim feita com grande engenho e que é muito apreciada pelos marinheiros desses mares para saberm a posição do navio pelo meridiano quando o ceu está coberto de nuvens e não se vê nem o sol nem as estrelas”.[4] A bússola era uma caixa ou tigela feita de buxo no centro da qual uma agulha magnetizada girava sobre um pequeno eixo apontando o sul, tendo todas as demais direções marcadas na caixa.



[1] BOORSTIN, Daniel. Os descobridores, Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 1989, p.209

[2] TREVOR, Williams. História das invenções: do machado de pedra às tecnologias da informação. Belo Horizonte: Gutenberg, 2009, p.106

[3] MORTIMER, Ian. Séculos de transformações. Rio de Janeiro:DIFEL, 2018, p. 142

[4] SELBOURNE, Jacob. Cidade da Luz, Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 71



Invenção do canhão

 

Alguns historiadores se referem ao uso de canhões pelos tártaros, tecnologia adquirida dos chineses Sung por volta de 1232 e que usaram tais armas em 1241 na batalha de Mohi ou batalha do rio Sajo na Hungria entre os mongóis e húngaros durante a invasão mongol da Europa.[1] No cerco de Calais em 1347 o rei Eduardo III usou canhões para bombardear as muralhas.[2] Em 1370 o monge e alquimista Berthold Schwarz fez experiências com a pólvora e desenvolveu os primeiros canhões. René Tatton data os primeiros canhões de 1319.[3] Schwarz foi acusado de magia e julgado pelo Tribunal da Inquisição.[4] Segundo Jérome Baschet na idade Média “a natureza não é, então, dissociada do sobrenatural; ela é, ao contrário, impregnada dele”.[5] A invenção logo se difundiu. O Satens Historika Museum em Estocolmo guarda o canhão Morko fabricado em 1390.[6] Na Alemanha o monge Bertoldo de Freitag inventou um canhão em 1314. Com a invenção dos canhões os castelos fortificados, que começaram a surgir a partir do século X [7], mostraram-se ineficientes diante do novo armamento e deixaram de seu construídos. [8] A cidade inexpugnável da idade média teve de buscar novas fortificações e contratar soldados que dessem combate ao inimigo em campo aberto como na defesa de Milão por Próspero Colonna em 1521.[9] Constantinopla fortificada por enormes muralhas [10] foi atacada em 1453 pelo sultão turco Maomé II com sessenta e oito canhões incluindo um enorme de 76 centímetros  de diâmetro do cano e que destruíram suas muralhas [11]. Os canhões foram também usados no cerco de Orleans em 1428 em que os ingleses atacaram a cidade francesa. [12] Somente no século XVI com a fundição do bronze e o suporte móvel os canhões passaram a ser usados nos exércitos.[13]

[1] SELBOURNE, Jacob. Cidade da Luz, Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 296

[2] MORTIMER, Ian. Séculos de transformações. Rio de Janeiro:DIFEL, 2018, p. 125

[3] TATON, René. A ciência antiga e medieval: a Idade Média, tomo I, v.III, São Paulo:Difusão, 1959, p. 145

[4] Uma breve história das descobertas: da antiguidade ao século XX, São Paulo:Escala, 2012, p. 35

[5] BASCHET, Jérôme. A civilização feudal: do ano mil à colonização da América, São Paulo:Globo, 2006, p.544

[6] MORTIMER, Ian. Séculos de transformações. Rio de Janeiro:DIFEL, 2018, p. 125

[7] MORTIMER, Ian. Séculos de transformações. Rio de Janeiro:DIFEL, 2018, p.46

[8] GOFF, Jacques. A idade média explicada aos meus filhos, Rio de Janeiro:Agir, 2007, p. 43

[9] MUMFORD, Lewis. A cidade na história, São Paulo:Martins Fontes, 1982, p. 389

[10] PHILLIPS, Ellen, Viagens de descobrimento 1400-1500, Rio de Janeiro:Time Life, 1991, p.83

[11] CAMP, Sprague de. O homem e a energia, v.II, Rio de Janeiro:Ao Livro Técnico, 1968, p.116; CAMP, L. Sprague de. The ancient engineers, New York: Ballantine Books, 1963, p. 365

[12] FREMANTLE, Anne. Idade da fé. Biblioteca de História Universal Life. Rio de Janeiro:José Olympio, 1970, p.156

[13] FOSSIER, Robert. O trabalho na idade média. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 220



domingo, 20 de dezembro de 2020

Invenção da pólvora

 

Roger Bacon escreveu sobre a pólvora por volta de 1260, provavelmente com base em informações de povos nômades sarracenos, alguns anos antes da viagem de Marco Polo à China (1271-1275) com histórias sobre a descoberta dos chineses. Marco Polo escreveu seu livro As viagens de Marco Polo durante em seu cativeiro em Gênova em 1296, numa obra minuciosa como nenhuma outra até então havia sido escrita sobre a Ásia na Europa. Portanto Roger Bacon não escreveu com base nas informações de Marco Polo. Um judeu da cidade de Ancona chamado Jacob d’Ancona também viajou para China (1270-1273) e também se refere à pólvora pelos chineses: “os alquimistas de Manci (sul da China) fizeram, por experiência, muitas máquinas, embora lhes falte a vontade de lutar, das quais eles chamam de raio que abala o ceu, pois, usando um pó mágico que explode (magico polve che scoppia) e que eles põem num tubo de ferro ou cobre, lançam um fogo rápido e voador a grande distância, e para grande dano do inimigo [...] Quando dão banquetes, é costume deles encher varas de bambu, com seu pó explosivo, ao qual ateiam fogo e se alegram com as faíscas de luz”.[1] Para composição da pólvora Bacon usou de um anagrama que uma vez decifrado revelaria as proporções de sete partes de salitre, cinco de carvão e cinco de enxofre. Seu enigma permaneceu sem solução por 650 anos até ser resolvido por um coronel do exército britânico.[2]

[1] SELBOURNE, David. Cidade da luz, Rio de Janeiro:Imago, 2001, p. 296

[2] COUTEUR, Penny le; BURRESON, Jay. Os botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história. Rio de Janeiro:Zahar, 2006, p.85



Origem das caravelas

 

Na expansão portuguesa alcançada com as grandes navegações que se iniciam com a tomada de Ceuta na costa africana em 1415 em ataque aos “infiéis” muçulmanos, o que valeria a Portugal o apoio da Igreja à sua recente independência com a batalha contra os espanhois em Aljubarrota  em 1385 [1],  destaca-se o recurso ao uso das caravelas como embarcação ágil e capaz de navegar em águas de pouca profundidade como de cruzar os oceanos. Os mouros tinham Ceuta como sua base de operação de suas atividades de pirataria no estreito de Gibraltar e na costa de Marrocos [2]. A caravela, de origem moura [3], que usavam barcos conhecidos como caravos, surgiu no século XIII para navegação no mediterrâneo e no rio Douro usando velas latinas e entaboamento corrido do seu casco[4]. O termo “caravela” (ela – diminutivo dos caravos/carabos árabes) é mencionado na Bula Romanus Pontificex de 1455: “in velocissimis navibus, caravellis nuncupatis” – em naus velocíssimas chamadas caravelas [5]. Alvise da Cadamosto as elas se refere em 1546  como “os melhores embarcações à vela que navegavam os mares” [6]. A técnica de fabricação é mostrada em livros como Livro primeiro de architectura naval de João Batista Lavanha no século XVI [7] ou o Livro de fabrica de naus de Fernando Oliveira [8].

[1]BUENO, Eduardo. Brasil, terra a vista, Porto Alegre, L&PM, 2000, p.20

[2]LIMA, Heitor Ferreira, Formação Industrial do Brasil, período colonial, Rio de Janeiro: ED. Fundo de Cultura, 1961, p. 99

[3]COSTA, Sergio Correa da. Brasil, segredo de Estado, São Paulo:Record, 2001, p. 78

[4]PHILIPS, Ellen. Viagens de Descobrimento 1400-1500, São Paulo:Time Life, 1991, p. 19

[5]HOFFNER, Joseph. Colonialismo e evangelho, São Paulo:USP, 1973, p.140

[6]RESTON, Os cães do Senhor, São Paulo: Record, 2008, p.126

[7]ESTEVES, Carina. O Livro Primeiro de Architectura Naval de João Baptista Lavanha e a arquitectura naval ibérica no final do século XVI, princípios do XVII: o perfil do arquitecto naval, Tese de mestrado, História Marítima, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011 https://repositorio.ul.pt/handle/10451/4495

[8]SOUSA, Carlos Manuel. O livro Fabrica das naus de Fernando Oliveira. Tese de mestrado, História Marítima, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2009



Faiança egípcia

 

A faiança era feita com um pó de quartzo ao invés de argila, sendo revestida com uma pasta vítrea. Levado ao fogo o produto assumia um aspecto vítreo em tonalidade azul sendo usado na fabricação de contas, vasos, ladrilhos e estatuetas.[1] O produto é considerado um dos primeiros sintético produzidos com objetivo de substituir o lápis lazuli e o desenvolvimento desta técnica pode ter levado  um conhecimento que mais tarde seria importante  para a extração do cobre a partir do minério in natura. [2] A descoberta da esmaltagem da faiança tem sido associada com a indústria do cobre. Azulejos azuis foram encontrados na tumba de Zoser da III Dinastia.[3]



[1]CASSON, Lionel. O antigo Egito. Rio de Janeiro:José Olympio, 1969, p.136; FAGAN, Brian. Los setenta grandes inventos y descobrimentos del mundo antiguo, Barcelona:Blume, 2005, p. 49

[2]HODGES, Henry. Technology in the ancient world, New York: Barnes & Noble Books, 1970, p. 62, 65

[3]WEST, John Anthony. The traveler’s key to ancient Egypt, New York:Quest, 2012, p. 161



sábado, 19 de dezembro de 2020

Usura da idade média

 

Jean Claude Schmitt mostra que foi a universidade escolástica não se limitou a questões religiosas tendo levado ao “nascimento do espírito laico” onde foram elaboradas por exemplo a justificação teórica do trabalho manual assalariado e a doutrina do “preço justo” bem como do empréstimo monetário a juros tornado lícito apesar da determinação da Igreja em contrário.[1] Para a Igreja o empréstimo a juros era condenável porque significava o mesmo que cobrar pelo uso do tempo, que pertencia somente a Deus. A teoria aristotélica da esterilidade do dinheiro: “dinheiro não engendra dinheiro” também condenava a usura. Nesse sentido o controle na imposição de preços por parte das guildas era sujeito à críticas [2]. Em 1179 no III Concílio de Latrão a Igreja proibiu aos cristãos a prática da usura.[3] Por outro lado, Marx relativiza a restrição à usura: “A usura vive nos poros da produção, tal como os deuses de Epicuro vivem no espaço entre os mundos”.[4] Ian Mortimer mostra que com o advento dos relógios mecânicos e a dessacralização do tempo o argumento contrário ao uso de juros foi relativizado.[5]

[1]SCHMITT, Jean Claude. Clérigos e leigos. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean Claude. Dicionário analítico do Ocidente medieval. v.I, São Paulo:Unesp, 2017, p. 280

[2]JÚNIOR, Hilário Franco. A idade média nascimento do Ocidente, São Paulo:Brasiliense, 2004, p.45

[3]GUREVIC, Aron. O mercador. In: LE GOFF, Jacques. O homem medieval, Lisboa: Editorial Presença, 1989, p.168; AQUINO, Fernando, Gilberto, Hiran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.38

[4]ANDERSON, Perry. Passagens da antiguidade ao feudalismo, Porto: Afrontamento, 1982, p. 216

[5]MORTIMER, Ian. Séculos de transformações. Rio de Janeiro:DIFEL, 2018, p. 152




Feiras de Champagne

 

As feiras de Champagne estabeleciam uma relação entre os países baixos e a Itália desde o século XII até o século XIV. As guildas comerciais surgidas especialmente após o final do século XII controlam a economia urbana estabelecendo uma relação direta entre produtores artesãos e meios de produção. Somente ns cidades flamengas e italianas chegou a surgie um estrato assalariado de trabalhadores urbanos de certa importância. Em Florença, Basileia, Estrasburgo e Gand tais guildas de artesãos ocuparam posições importantes no poder político municipal.[1] Os tecelões mais ricos não somente viajavam às feiras em Champagne para vender seus tecidos como empregavam tintureiros e tecelões bem como pequenos mestres de outros ofícios. Uma ordenança de 1270 mostrava uma clara distinção entre tecelões que distribuíam o trabalho e os mestres tecelões que eram empregados por eles. As feiras de Champagne pela utilização de letras de crédito exercem papel fundamental na expansão do comércio medieval [2]. No início do século XIII o rei francês Filipe Augusto deu salvo conduto régio aos mercadores que se dirigissem para a feira de Champagne.[3] Feria em latim significa dias de festa ou repouso, ocasião em que os mercadores organizavam suas mercadorias em praça pública, e que passaram a ser conhecidas como feiras.[4] Em Flndres do século XIV haviam diversas feiras, com as de Ypres, Thourout, Lille e Messine.[5] As feiras eram imunizadas pela “paz do mercado” assegurando alojamentos e armazenamento das mercadorias e pela anulação do aubaine que conferia ao senhor feudal o direito de se apossar dos bens daquele que morresse em suas terras.[6] Segundo Jacques le Goff “Há, inicialmente, os salvo-condutos concedidos em toda a extensão das terras condais. Em seguida, a isenção de todas as taxas servis sobre os terrenos onde se construíram alojamentos e estabelecimentos comerciais. Os burgueses foram, isentados das talhas e dos foros em troca de taxas fixas resgatáveis. Os terrádegos e as banalidades foram abolidos ou limitados consideravelmente. Esses mercadores não estavam sujeitos nem aos direitos de represailles e de Marque, nem ao direito de aubaine e de épave. Os condes, sobretudo, asseguravam o policiamento das feiras, controlavam a legalidade e a honestidade das transações, garantiam as operações comerciais e financeiras”.[7] No final do século XIII as feiras entram em declínio com o incremento do comércio marítimo entre o Norte da Europa e o Mediterrâneo.[8] Pierre Monet mostra o desenvolvimento do sistema de feiras a partir do século XII e das grandes companhias marítimas de comércio do século XIII para comércio de longa distância não fez com que desaparecesse o mercador isolado e itinerante do comércio local.[9]

[1]ANDERSON, Perry. Passagens da antiguidade ao feudalismo, Porto: Afrontamento, 1982, p. 215

[2]PERROY, Edouard. A idade média: o período da Europa feudal (sec. XI - XIII), tomo III, v. 2, São Paulo:Difusão Europeia, 1974, p. 133

[3]JÚNIOR, Hilário Franco. A idade média nascimento do Ocidente, São Paulo:Brasiliense, 2004, p.41

[4]PIMENTA, Reinaldo. A casa da mãe Joana. Rio de Janeiro: Campus, 2002, p. 91

[5]MONTEIRO, Hamilton. O feudalismo: economia e sociedade, São Paulo:Ática, 1987, p.66

[6]AQUINO, Fernando, Gilberto, Hiran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.37

[7]LE GOFF, Jacques. Mercadores e Banqueiros da Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1991

[8]LOYN, Henry. Dicionário da idade média. Rio de Janeiro:Jorge Zahar, 1997, p.87

[9]MONNET, Pierre. Mercadores. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean Claude. Dicionário analítico do Ocidente medieval. v.II, São Paulo:Unesp, 2017, p. 212


Doação de Constantino

  Marc Bloch observa a ocorrência de falsificações piedosas tais como a pseudo doação de Constantino ( Constitutum Donatio Constantini ) ao ...