quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O ofício de ourives no Brasil colonial

 

A sociedade urbana em Minas Gerais diversificou-se com o ciclo do ouro, carpinteiros, forjadores, ourives, tecelões, vendeiros, administradores e militares se desenvolveram [1]. Nos ofícios de ourives de ouro e prata o rigor na regulamentação do oficio era maior do que nos demais ofícios. Nestes não se admitiam pretos conforme Alvará Régio de 20 de novembro de 1621. De 1625 a 1881 são registrados como ourives nas irmandades de Salvador apenas dois pardos e um crioulo em 1862. Uma carta dirigida ao juiz de fora da capitania de Pernambuco em 1732 revela que “Sabemos que a ourivesaria brasileira colonial esteve em grande parte nas mãos de mulatos e pretos” e considerava “excessivo o número de oficiais ourives que existiam em Olinda, no Recife e em outros lugares, sendo a maior parte deles mulatos e negros, e ainda escravos, contra a lei, resultando disso gravíssimo dano à república”.[2] Ricardo Maranhão destaca que “Nas ruas de Vila Rica podiam-se encontrar lojas de sapateiros, ferreiro, tanoeiros, joalheiros, carpinteiros, etc a ponto de surgirem ali, como nos outros núcleos mais importantes, ruas especializadas em um tipo de artigo ou serviço”.[3] Segundo Salomão Vasconcelos o trabalho dos artífices em Vila Rica não possuía qualquer regulamentação até 1725 inexistindo qualquer corporação de artesãos. Com a intensificação da atividade mineradora do ouro, o ofício de ourives passou a ser regulado com maior severidade pela metrópole porque facilitava o descaminho do ouro permitindo fraudar o pagamento do quinto. Já em 1698 a coroa determinou que apenas dois ou três ourives poderiam ter permissão para exercer seu ofício no Rio de Janeiro.[4] Uma lei de 1719 condenava os ourives de São Paulo e Minas que fossem encontrados ao degredo de seis anos na Índia com o confisco de todos os seus bens.[5] Em 1783 Juan Francisco Aguirre reporta a presença de lapidadores de diamantes e ourives no Rio de Janeiro.[6] Para as casas da moeda e fundições de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e São Paulo admitiam-se apenas mestres de “ilibado caráter”.[7] No século XVIII o ourives francês Jean Delane chegou a Vila Rica casando-se com a brasileira Maria de Jesus aportuguesando seu nome para João de Lana.[8] Entre aos artesãos brasileiros muitos se destacaram como José Teófilo de Jesus, Silvestre de Almeida Lopes, José Patrício da Silva Manso entre outros. O talentoso ourives Manuel Dias de Oliveira fixou-se no Rio de Janeiro em 1763 vindo a desenvolver sua técnica na Real Casa Pia em Lisboa e posteriormente na Academia de São Lucas em Roma, retornando ao Brasil em 1800 como professor régio de desenho no Rio de Janeiro, tornando-se conhecido como “o Brasiliense” em Portugal e “o Romano” no Brasil.[9]



[1]CALDEIRA, Jorge. História do Brasil, São Paulo:Cia das Letras, 1997, p.89

[2]VALLADARES, José Gisella. As artes plásticas no Brasil: Ourivesaria, Rio de Janeiro:Ediouro, 1952, In: ARAUJO, Emanuel. Arte, adorno, design e tecnologia no tempo da escravidão. Secretaria da Cultura de São Paulo, 2013, p.130

[3]AQUINO, Fernando, Gilberto, Hiran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.225

[4]CUNHA, Luiz Antonio. Aspectos sociais da aprendizagem de ofícios manufatureiros no Brasil colônia. Forum:Rio de Janeiro, v.2, out/dez 1978, p.41; ALBUQUERQUE, Manoel Maurício. Pequena história da formação social brasileira, Rio de Janeiro: Graal, 1981, p. 115

[5]SOUTHEY, Robert. História do Brasil, Brasília: Melhoramentos, 1977, v.3, p. 154; ALBUQUERQUE, Manoel Maurício. Pequena história da formação social brasileira, Rio de Janeiro: Graal, 1981, p. 115

[6]LIMA, Heitor Ferreira, Formação Industrial do Brasil, período colonial, Rio de Janeiro: ED. Fundo de Cultura, 1961, p. 261

[7]SOUTHEY, Robert. História do Brazil, Rio de Janeiro:Garnier, 1862, v.I, p.188

[8]BARDI, Pietro. Arte da prata no Brasil, São Paulo: Banco Sudameris, 1979, p. 46

[9]PRIORE, Mary del. Histórias da gente brasileira, Vol. 1 Colônia. Rio de Janeiro:Leya, 2016, p. 105



terça-feira, 5 de janeiro de 2021

A falsificação no Brasil colonial

 

Sérgio Buarque de Holanda se refere as constantes falsificações de pesos em medidas no comércio do ouro[1]. Em 1731 foi descoberta uma fundição clandestina em Paraopeba para fabricação de moedas falsas comandada por Inácio de Sousa Ferreira envolvendo membros da Corte, caso de enorme repercussão na época tanto na colônia como na metrópole.[2] Uma vez preso e enviado a Lisboa, o próprio Inácio de Souza Ferreira confessou as relações do governador das Minas D. Lourenço de Almeida com o contrabando de ouro e diamante.[3] Na Bahia Gomes Freire de Andrade em laudo de 1751 proibiu a existência de ourives no Brasil.[4] Luiz Edmundo relata que com a medida, o consequente fechamento de oficinas de ourives os artífices tiveram de procurar outro ofício de modo que para desamassar a asa de um bule de prata o carioca tinha de enviar o produto para Lisboa.[5] O exercício do ofício foi proibido em 31 de julho de 1751 em Minas Gerais que mandava sair da capitania todos os ourives [6], medida ampliada por carta régia de 30 de julho de 1766 para Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro.[7] Neste mesmo ano centenas de ourivesarias foram fechadas.[8] Quem infringisse tais disposições seria degredado para África por toda a vida. Contudo, em 1751 Carta do governador ao intendente de Sabará comunica que, tendo em vista a falta de fundidores na Comarca resolve permitir a permanência do ourives Jorge Ferreira da Silva [9]. Antonio Alvares da Cunha, conde da Cunha (1763 – 1767) e vice rei do Brasil  executou com firmeza a ordem régia lançando na miséria  centenas de famílias e sem conseguir contudo evitar o contrabando.[10] Em 1781 a Irmandade de Santo Eloy, protetora dos ourives e prata, notificou seus irmãos a marcarem suas peças de ouro e prata como prova de sua procedência em meio a tantas falsificações.


[1]HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. São Paulo:Brasiliense, 2000, p. 112

[2]AQUINO, Fernando, Gilberto, HIran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.219

[3]TÚLIO, Paula Regina Albertini. Lavras sem paga: redes de contrabando e cristãos novos nas minas setecentistas 1700-1735, Tese Doutorado, Unirio, 2019

[4]BARDI, Pietro. Arte da prata no Brasil, São Paulo: Banco Sudameris, 1979, p. 44

[5]EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos vice reis, Rio de Janeiro:Conquista, 1956, v.3, p.496

[6]JÚNIOR, Caio Prado. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo:Brasiliense, 1986, p.226; MAXWELL, Kenneth. A devassa da devassa, Rio de Janeiro1985, p. 30

[7]JUNIOR, Caio Prado. História econômica do Brasil, São Paulo:Brasiliense, 1979, p.108; SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil, Rio de Janeiro:Civilização Brasileira,1979, p.204; SOUTHEY, Robert. História do Brasil, Brasília: Melhoramentos, 1977, v.3, p. 325

[8]LIMA, Heitor Ferreira. História Político econômica e industrial do Brasil, São Paulo:Cia Editora Nacional, 1970, p. 107

[9]TRINDADE, Raimundo. Ourives de Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX. Revista do IPHAN n.12, 1955, p.145

[10]BRITO, José Gabriel Lemos. Pontos de partida para a história econômica do Brasil. Brasiliana v. 155, São Paulo:Cia Editora Nacional, 1980, p.143



Deus Seth e os peixes

Sendo empregados da realeza os trabalhadores das pirâmides gozavam de privilégios: a água era trazida por tropas de burros, empregados lavavam suas roupas e seus próprios pescadores forneciam o peixe fresco do Nilo[1]. Lionel Casson observa que algumas regiões do Egito algumas espécies de peixe eram consideradas sagrado e proibido para alimentação em especial entre os sacerdotes[2]. Os que comiam peixe eram julgados imundos e o hieróglifo correspondente a “abominação” era um peixe, pelo fato do peixe ser considerado sagrado para o deus do mal Seth.[3] Segundo Plutarco, quando Seth despedaçou o corpo do deus Osíris o seu falo, o de Osíris, foi comido por três espécies de peixes do Nilo, um dos quais era o peixe de Oxynrhynchus. Byron Shafer observa que somente mais tarde que Seth passou a ser identificado com o mal, aquele que gerava desordem e confusão associado ao maligno assassino de seu irmão Osíris. Em algumas representações Seth é um ajudante efetivo do deus sol Rá quando este repelia a serpente Apep/Apophis sua inimiga quando na travessia na barca solar.[4] Os egípcios rejeitavam Seth como inimigo somente no primeiro milênio a.c.[5] A palavra egípcia para “proibido” tinha o hieróglifo na forma de um peixe, possivelmente porque o cheiro ruim era associado a impureza e pecado.[6] Eugen Strouhal explica que embora o peixe conservado em sal fosse muito apreciado e exportado, certos tipos de peixes eram proibidos de se comer por sua conexão com o mito de Osíris como o enigmático Oxynrhynchus.[7]



[1]LARK, Peter. A evolução das cidades, História em Revista, Rio de Janeiro:Time Life, 1993, p.21

[2]STROUHAL, Eugen. A vida no antigo Egito. Barcelona:Folio, 2007, p. 225

[3]CASSON, Lionel. O antigo Egito. Rio de Janeiro:José Olympio, 1969, p.43; WHITE, Jon Manchip. O Egito Antigo, Rio de Janeiro:Zahar, 1966, p. 100

[4]SHAFER, Byron. As religiões no Antigo Egito, São Paulo: Nova Alexandria, 2002, p. 57 https://www.rct.uk/collection/1145260/section-of-the-papyrus-belonging-to-nesmin-with-the-seventh-hour-of-the-amduat

[5]SHAFER, Byron. As religiões no Antigo Egito, São Paulo: Nova Alexandria, 2002, p. 152

[6]JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito. Rio de Janeiro:Ediouro, 2002, p. 171, 176

[7]STROUHAL, Eugen. A vida no antigo Egito. Barcelona:Folio, 2007, p. 132




segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Maat

 

Norman Ross observa que o estado teocrático egípcio era fundamentado no conceito de maat uma vez que não havia uma codificação escrita de leis no Egito antigo: a lei era o desejo do faraó: “O que a deus ama, é que se faça justiça. O que a deus detesta, é o favor concedido a um só lado. Eis a doutrina”.[1] Maurice Crouzet observa que o historiador grego Deodoro da Sicília menciona a existência de cinco reis, antes da conquista persa, como sendo legisladores do Egito, o que supõe a existência de códigos escritos, no entanto até o momento não foi encontrado nenhum destes documentos  que se compare aos códigos legais encontrados na Mesopotâmia.[2] Segundo Christian Jacq: “sem a intervenção mágica do Estado, as importantes cheias do Nilo não ocorreriam, as culturas não seriam irrigadas, os caçadores não poderiam matar a caça, os pescadores não pescariam peixes, os artesãos não acabariam suas obras, os templos não poderiam cumprir a sua missão”.[3] A maat representava uma lei moral natural que combinava os conceitos de ordem divina, justiça e harmonia. Uma ordem natural da natureza era percebida como uma ordem racional que governava não somente as cheias do Nilo mas as questões práticas do quotidiano das pessoas.[4] Segundo Paul Johnson: “Maat também era a forma de justiça concedida a um homem quando morria e aparecia ao julgamento final: sua alma, então, era pesada em uma balança com o contrapeso de maat” [5]. Segundo Jean Voyotte [6]: “À ordem divina corresponde não apenas a estrutura e os ritmos do mundo físico, mas uma ordem moral – Maât –, a norma da verdade e da justiça que se afirma quando Rá triunfa sobre seu inimigo e que, para a felicidade do gênero humano, deve prevalecer no funcionamento das instituições e no comportamento individual. “Rá vive por Maât”. Tot, o deus dos sábios, contador de Rá, juiz dos deuses, é “feliz por Maât”. Jean Voyotte observa o papel teocrático do Estado egípcio “a visão egípcia do mundo procede de uma alta magia de Estado, coerente, raciocinada, admiravelmente perceptível e serena”. Maurice Crouzet conclui que a impressão dominante é que “a ausência de iniciativa individual e verdadeira liberdade econômica e social é inerente à lógica da antiga civilização do Egito [...] Nada é mais estranho ao antigo Egito do que o ideal do homem livre, do indivíduo esforçando-se e recebendo a colaboração da coletividade para ser, não mais um número na massa, mas ele mesmo ”.[7]

[1]CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: O Oriente e a Grécia Antiga: as civilizações imperiais, v. I, Rio de Janeiro:Bertrand Brasil, 1998, p. 66

[2]CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: O Oriente e a Grécia Antiga: as civilizações imperiais, v. I, Rio de Janeiro:Bertrand Brasil, 1998, p. 66

[3]JACQ, Christian. O mundo mágico do antigo Egito, Rio de Janeiro:Bertrand do Brasil, 2001, p.20

[4]ROSS, Norman. The epic of man, Life Magazine, 1962, p. 101

[5]JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito. Rio de Janeiro:Ediouro, 2002, p. 75, 222

[6]MOKHTAR, Gamal. História geral da África, II: África antiga, Brasília : UNESCO, 2010, p.89

[7]CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: O Oriente e a Grécia Antiga: as civilizações imperiais, v. I, Rio de Janeiro:Bertrand Brasil, 1998, p. 84, 102



Medicamentos a base de urina e excrementos

 

O desembargador Brochado se referia aos médicos que “curavam por ignorância e matavam por experiência” [1]. O bispo do Grão Pará conclui: “melhor tratar-se uma pessoa com um tapuia do sertão, que observa mais desembaraçado instinto, de que com um médico desses vindo de Lisboa”. Hernani Monteiro relata o uso de chás de percevejos e de excremento de rato para os desarranjos intestinais. Para os cálculos biliares prescrevia-se moela de ema devido ao fato deste animal ter a especial virtude de quebrar pedras. Sílvio Romero em Contos Populares relata o uso de excremento de cachorro conhecido como “jasmim do campo” para cura da varíola, enquanto que Robert Southey em sua História do Brasil registra o uso de bosta de cavalo pulverizada para o tratamento de bexigas. Os excrementos de animais usados na cicatrização da pele eram conhecidos como “flores brancas”. Assim como a urina eram submetidos a preparações antes da aplicação no corpo. [2] Segundo relatos dos bandeirantes era comum o uso da mistura de urina e fumo como cicatrizante. Uma doença endêmica no Brasil do século XVII, o “mal do cu” ou maculo, em espanhol, que provocava diarreia devido ao afrouxamento do esfíncter externo do ânus, eliminação de muco fétido, ulcerações e prolapso do reto era tratada com um medicamento inserido pelo ânus à base de pimenta e pólvora, pois no imaginário popular se acreditava que quanto mais violenta fosse uma droga maior o seu poder curativo.[3] Para curar picada de cobra era preciso beber do próprio esterco diluído em agua.[4] Mesmo diante de uma vasta biodiversidade e flora medicinal Sigaud no século XIX comenta: “é difícil acreditar que eles estão tanto tempo nas mãos de pessoas desqualificadas, em meio a uma abundância de riquezas vegetais”.[5]



[1]EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos vice reis, Rio de Janeiro:Conquista, 1956, v.3, p.550

[2]PRIORE, Mary del. Histórias da gente brasileira, v.1 Colônia.Rio de Janeiro:Leya, 2016, p. 293

[3]AQUINO, Fernando, Gilberto, HIran. Sociedade brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.210

[4]PRIORE, Mary del. Histórias da gente brasileira, v.1 Colônia.Rio de Janeiro:Leya, 2016, p. 378

[5]EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos vice reis, Rio de Janeiro:Conquista, 1956, v.3, p.576, 644




O valor do trabalho para os monges medievais

 

Uma gravura em metal do Vita et miracula santissimi Patris Benedict de 1579 mostra São Bento no campo trabalhando junto com outros monges.[1] Para Pietro Corsi a regra beneditina teve consequências importantes na constituição de ricas bibliotecas e no aperfeiçoamento das técnicas metalúrgicas.[2] São João Crisóstomo exclamou no final do século IV “felizes aqueles que ganham seu sustento com suas mãos” [3]. O monge beneditino alemão Teófilo escreveu um famoso tratado de tecnologia De Diversis Artibus em 1122, em que descreve técnicas de ornamentação de igrejas, na iluminura, afrescos, vitrais, metalurgia e ourivesaria [4], embora ainda a descreva como uma arte a serviço de Deus.[5] Entre as fórmulas mencionadas encontram-se algumas misturas alquímicas para composição de ouro que incluem cobre, pó de basilisco, sangue humano e ácido. O livro escrito em latim era inacessível ao homem do campo[6]. Teófilo escreve “para auxiliar muitos homens em suas necessidades”.[7] Os escritores leigos Yves de Chartres e John de Salisbury no século XII escreveram sob influência do movimento monástico que todo o trabalho enobrece o homem e agrada a Deus. [8] Eastorwine ao fazer um comentário sobre o monge Beda no século VIII comenta que “Ele continuou tão humilde e parecido com os demais irmãos que se comprazia em debulhar e peneirar cereais e ordenhar ovelhas e vacas, no preparo de pães, na cozinha e em todas as demais atividades no mosteiro. Muitas vezes, quando saía a negócios pelo mosteiro, bastava encontrar irmãos trabalhando para juntar-se a eles e trabalhar também, tomando em mãos o arado ou brandindo o martelo de ferreiro”.[9] Georges Duby mostra que a teologia católica ao combater a heresia cátara o cântico fransciscano das criaturas reabilita a matéria e o valor do trabalho manual na moral católica: “celebrando Deus no seu ato criador, os teólogos inscreveram em pleno centro da arte das catedrais a imagem reconciliada do universo visível”.[10]

[1]SOUZA, Jorge Vitor. Para além do claustro: uma história social da inserção beneditina na américa portuguesa, 1580-1690, Rio de Janeorp, UFF, 2014, p. 208

[2]CORSI, Pietro. Ciência e tecnologia: introdução In: ECO, Umberto. Idade média: bárbaros, cristãos e muçulmanos, v.I, Portugal:Dom Quixote, 2010, p.400

[3]BONILLA, Luis. Breve historia de la técnica y del trabajo, Madrid:Ed. Istmo,1975, p.142

[4]CAMP, L. Sprague de. The ancient engineers, New York: Ballantine Books, 1963, p. 343

[5]WHITE, LYNN. Medieval religion and technology, UCLA, 1978, p.322; DAVIDE, Diego. Manufatura e corporações. In: ECO, Umberto. Idade média: bárbaros, cristãos e muçulmanos, v.I, Portugal:Dom Quixote, 2010, p.270; LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. Rio de Janeiro:Vozes, 2016, p. 185, 206; GOFF, Jacques. Trabalho. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean Claude. Dicionário analítico do Ocidente medieval. v.II, São Paulo:Unesp, 2017, p. 628

[6]FOSSIER, Robert. O trabalho na idade média. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 85

[7]LONG, Pamela. Invention, Authorship, Intellectual Property, and the Origin of Patents: Notes toward a Conceptual History, Technology and Culture, v.32, n.4, Special Issue: Patents and invention, october 1991, p.868

[8]MOKYR, Joel. The lever of riches: technological creativity and economic progress, New York:Oxford University Press, 1990, p.204

[9]DONKIN, Richard. Sangue, suor e lágrimas, Sâo Paulo:Macron Books,2003, p. 37

[10]DUBY, Georges. O tempo das catedrais: a arte e a sociedade, Lisboa:Estampa Editorial, 1978, p.149, 152



A origem dos vilões

 

Com o ressurgimento das cidades os habitantes das antigas vilas no campo passam a ser denominados de vilãos - villani / vilanus como um ser grosseiro, rusticus do qual não se pode esperar nada além da vilania.[1] O trabalhador medieval são descritos por um documento de 1120 descrevendo as leis de Henrique I da Inglaterra como desprezíveis e subordinados “viles et inopes persone”.[2] Robert Fossier observa que no campo nem todos as pessoas da aldeia foram rejeitadas tais como o pedreiro, o ferreiro e o moleiro tidos como “homens de arte”.[3] Paulo Miceli observa que “a cidade representava a possibilidade de ser livre, desvencilhando-se dos estreitos laços de dominação que mantinham a rede de poder na Idade Média”.[4] Max Weber observa que “as cidades não nasceram das guildas – como muitas vezes tem se acreditado – senão pelo contrário, o fenômeno geral é o de que as guildas nasceram nas cidades [...] Tampouco eram as guildas os únicos tipos de uniões nas cidades. Junto delas temos, por um lado, as uniões religiosas que, no aspecto profissional, são heterogêneas, e, por outro lado, as uniões puramente econômicas e articuladas profissionalmente: os grêmios”. Max Weber observa que o surgimento das guildas ocorre de forma paralela as fraternidades religiosas, tais como a fraternidade de tecelões de Colônia de 1180, uma das mais antigas.[5]



[1] BONNAISSE, Pierre. Liberdade e servidão. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean Claude. Dicionário analítico do Ocidente medieval. v.II, São Paulo:Unesp, 2017, p. 81; FOSSIER, Robert. O trabalho na idade média. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 54

[2]DONKIN, Richard. Sangue, suor e lágrimas, Sâo Paulo:Macron Books,2003, p. 35

[3]FOSSIER, Robert. O trabalho na idade média. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 164

[4]MICELI, Paulo. O feudalismo, São Paulo: Atual, 1986, p. 47

[5]WEBER, Max. Economia y sociedade: esbozo de sociologia compreensiva, Mexico:Fondo de Cultura, 1969, v.II, p. 971



Doação de Constantino

  Marc Bloch observa a ocorrência de falsificações piedosas tais como a pseudo doação de Constantino ( Constitutum Donatio Constantini ) ao ...