Os missionários
jesuítas cultivavam plantas medicinais e faziam a manipulação de medicamentos. A
triaga brasílica, composta por
elementos da flora nativa ganhou fama
internacional devido á difusão pelos jesuítas do medicamento.[1] Bruno Leite argumenta que os jesuítas, formados na tradição escolástica e
embuídos da influência humanista, como destacam François Dainville e
Serafim Leite, souberam agregar
novos conhecimentos que levaram ao desenvolvimento da triaga brasílica que,
desta forma, não pode ser entendida como a mera reprodução de conhecimentos
indígenas e tampouco o resultado de um empirismo puro da parte dos jesuítas. A
Triaga Brasílica era uma versão atual da antiga Teriaca / Teriaga / Theriaga inventada
pelo médico pessoal do imperador Nero, Andrômaco, difundida por Galeno e lembrada
por Avicena no seu Canon. Contudo, muitos dos ingredientes do remédio não erm
descritos de forma precisa no poema de Andrômaco e nos cometários de Galeno o
que suscitou a busca de equivalentes pelas boticas europeias, de modo que
dentro desta perspectiva, os jesuítas buscaram substituições na flora
brasileira entre as quais o jaborandi, a pagimirioba, a ipecacuanha, a
angélica, a pindaíba e o bálsamo. O padre Serafim Leite, nos seus estudos sobre
a ordem jesuítica no Brasil, encontrou, nos arquivos da Companhia de Jesus em
Roma o manuscrito de 1766, Colleção de várias receitas e segredos
particulares das principaes boticas da nossa Companhia de Portugal, da India,
de Macao, e do Brazil, que descreve a fórmula original da triaga brasílica
do Colégio dos jesuítas da Bahia. Segundo Bruno Leite: “A criação (inventio) do novo medicamento pelos jesuítas dependeu
inteiramente da tradição médica, fortemente humanista, que eles haviam trazido
consigo da cultura dos médicos europeus. O nome do remédio, os ares de sua
composição e as tonalidades de seus ingredientes comprovam isto. Mas, por outro
lado, esta invenção não foi serva da tradição, na medida em que estes
elaboraram uma nova lista de ingredientes que fosse mais condizente com os
problemas e as necessidades vividas pelos jesuítas no Brasil”.[2] Segundo Lourival Ribeiro no livro
Medicina no Brasil Colonial: “A
triaga Brasílica é um atídoto ou panaceia composta à imitação da Triaga de Roma
e de Veneza, de várias plantas e ervas, raízes e drogas do Brasil” com inúmeras aplicações no tratamento
contra venenos de animais peçonhentos, dores no estômago, cólicas, estancar sangramentos,
dores de cabeça e febres malignas diversas. Para Wilson Martins: “A Triaga Brasilica representa o triunfo
final da flora brasiliense na farmacopeia universal, desde o título, o
milagroso produto proclama com orgulho suas origens e acentuava-se na sua bula
superior ao da Europa”[3]. Quando
do sequestro dos bens dos jesuítas expulsos do Brasil em 1760, o desembargador
responsável afirmou que haveria na cidade quem oferecesse quatro mil cruzados
pela fórmula triaga brasílica, medicamento produzido pelos jesuítas e mantido
em segredo. Um documento de 1766 mantido nos arquivos da Companhia de Jesus
revela as preocupações de se manter a propriedade intelectual de remédios
produzidos pelos jesuítas: “Amigo e
caríssimo leitor, não fiz esta coleção de receitas particulares de nossa botica
senão para que se não perdessem tão bons
segredos e estes não andassem espalhados por todas as mãos, pois bem sabes, que revelados estes, ainda que seja de uma botica para outra,
perdem toda a estimação: e que pelo contrário o mesmo é estar em segredo
qualquer receita experimentada, que fazerem dela todos um grande apreço, e
estima com fama, e lucro considerável da botica a que pertence. Pelo que peço-te
que sejas muito acautelado e escrupuloso em não revelar alguns destes segredos,
pois em consequência não se pode fazer, advertindo que são coisas estas da
religião, e não tuas”.[4]
Os remédios secretos foram ainda mais perseguidos com a criação da Junta do
Protomedicato em 1782 no reinado de Maria I.[5]
[1] EDLER, Flavio Coelho.
Boticas & Pharmacias: uma história ilustrada da farmácia no Brasil, Rio de
Janeiro: Casa da Palavra, 2006, p. 17
[2] LEITE, Bruno Martins
Boto. Mezinhas antigas e modernas: A invenção da Triaga Brasílica pelos
jesuítas do Colégio da Bahia no período colonial.
https://www.13snhct.sbhc.org.br/resources/anais/10/1345053666_ARQUIVO_Mezinhasantigasemodernas.pdf
[3] MARTINS,
Wilson. História da inteligência brasileira, v.I (1550-1794), São Paulo:USP,
1976, p. 244, 246
[4] EDLER, Flavio Coelho.
Boticas & Pharmacias: uma história ilustrada da farmácia no Brasil, Rio de
Janeiro: Casa da Palavra, 2006, p. 33

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