Jean Claude Schmitt mostra que foi a universidade
escolástica não se limitou a questões religiosas tendo levado ao “nascimento do
espírito laico” onde foram elaboradas por exemplo a justificação teórica do
trabalho manual assalariado e a doutrina do “preço justo” bem como do
empréstimo monetário a juros tornado lícito apesar da determinação da Igreja em
contrário.[1] Para a
Igreja o empréstimo a juros era condenável porque significava o mesmo que
cobrar pelo uso do tempo, que pertencia somente a Deus. A teoria aristotélica
da esterilidade do dinheiro: “dinheiro
não engendra dinheiro” também condenava a usura. Nesse sentido o controle
na imposição de preços por parte das guildas era sujeito à críticas [2]. Em 1179
no III Concílio de Latrão a Igreja proibiu aos cristãos a prática da usura.[3] Por
outro lado, Marx relativiza a restrição à usura: “A usura vive nos poros da
produção, tal como os deuses de Epicuro vivem no espaço entre os mundos”.[4] Ian
Mortimer mostra que com o advento dos relógios mecânicos e a dessacralização do
tempo o argumento contrário ao uso de juros foi relativizado.[5]
[1]SCHMITT, Jean Claude.
Clérigos e leigos. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean
Claude. Dicionário
analítico do Ocidente medieval. v.I, São Paulo:Unesp, 2017, p. 280
[2]JÚNIOR, Hilário Franco.
A idade média nascimento do Ocidente, São Paulo:Brasiliense, 2004, p.45
[3]GUREVIC, Aron. O mercador.
In: LE GOFF, Jacques. O homem medieval, Lisboa: Editorial
Presença, 1989, p.168; AQUINO, Fernando, Gilberto, Hiran. Sociedade
brasileira: uma história, São Paulo: Record, 2000, p.38
[4]ANDERSON, Perry.
Passagens da antiguidade ao feudalismo, Porto: Afrontamento, 1982, p. 216

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